Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

'Há mais esquizofrenia nas grandes cidades'

Para pesquisador, está comprovado que estresse e maior uso de drogas nas metrópoles aumentam probabilidade da doença

Entrevista com

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2013 | 02h02

Cem anos após ser citada pela primeira vez, a esquizofrenia ainda desafia os maiores especialistas no assunto, como o psiquiatra escocês Robin Murray, professor da King's College de Londres.

No Brasil para participar de um simpósio do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, o médico diz que, apesar de alguns aspectos da doença ainda serem desconhecidos, já está comprovado que o uso de drogas e a vida em cidades grandes aumentam o risco de desenvolvimento da doença. Para ele, o avanço nos estudos genéticos pode ajudar a aprimorar o tratamento da esquizofrenia.

O número de pessoas com esquizofrenia no mundo está aumentando?

Não sabemos, mas é possível dizer que há mais esquizofrenia nas grandes cidades do que no interior. Primeiro, porque as cidades são maiores e geram mais estresse. Segundo, porque há mais abuso de drogas. Terceiro, porque há mais imigrantes e sabemos que, se você está fora do seu país, a desconfiança e a discriminação sofrida podem levar a atitudes paranoides, o que aumenta o risco de esquizofrenia. Na Grã-Bretanha, por exemplo, os imigrantes vindos do Caribe e da África têm seis vezes mais risco de desenvolver a esquizofrenia do que um nativo.

O uso de drogas é um dos principais fatores para o desenvolvimento da esquizofrenia?

Sim, não é a causa mais importante, mas pode ser responsável por 15% a 20% dos casos. O uso precoce é mais prejudicial. Se você começa a fumar maconha com 12 ou 13 anos, seu cérebro ainda está se desenvolvendo. A droga interfere na maturação do cérebro.

Houve um grande estudo na Nova Zelândia que mostrou esses efeitos, certo?

Sim, eles acompanharam mil crianças que foram avaliadas dez vezes durante a infância e novamente aos 15, 18, 26, 32 e 36 anos. Na comparação, aos 26 anos, os jovens que fumavam maconha com 15 anos tinham 4,5 vezes mais risco de ter uma psicose do que os que não fumavam.

Alguns locais dos Estados Unidos e o governo do Uruguai, por exemplo, já legalizaram a maconha ou caminham nesta direção. O senhor acha que a legalização seria muito prejudicial no aspecto da saúde pública?

Sempre digo que sou curioso para saber o que aconteceria quando algum país legalizasse a maconha. Em Londres, 60% dos jovens já fumaram maconha. Eles não se importam se é legal ou não. Provavelmente não faz muita diferença. O que faz diferença é saber suas consequências. Acho que a educação é mais importante do que a lei.

Há estudos sobre a incidência da esquizofrenia em São Paulo?

As taxas em São Paulo são muito similares às registradas na Europa. Cerca de 1% da população sofre da doença. Agora estão fazendo um estudo em Ribeirão Preto.

O processo de urbanização pode aumentar o número de casos?

Não sabemos. No Brasil, ninguém sabe qual é a prevalência no interior. Só há esse estudo de Ribeirão Preto. O que sabemos é que a esquizofrenia vem tornando-se cada vez mais comum desde os anos 1800, quando as grandes cidades foram se industrializando.

Cem anos após a doença ser citada, qual é o maior desafio para os pesquisadores?

Identificar os diferentes tipos de esquizofrenia. O tipo causado por um determinado gene não é o mesmo desencadeado pelas drogas. No futuro, começaremos a dividir a esquizofrenia e, com isso, poderemos buscar novos tratamentos.

Mais conteúdo sobre:
Saúde Esquizofrenia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.