Fabio Motta
Fabio Motta

‘Há pouco a oferecer para mães de bebês com microcefalia’, diz especialista

Infectologista de órgão de referência nacional admite que faltam respostas sobre o avanço do surto de zika no País

Entrevista com

José Cerbino, vice-diretor do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas

Clarissa Thomé, Rio

13 Dezembro 2015 | 03h00

RIO - A dificuldade de se obter o diagnóstico correto de zika, que permita mapear o fluxo da doença no País, e a formação de uma rede de apoio para as mães que tiverem filhos com microcefalia serão os grandes desafios no enfrentamento à epidemia pelo novo vírus, aponta o infectologista José Cerbino, vice-diretor do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas. A instituição ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é voltada à pesquisa clínica e referência de atendimento em doenças infecciosas – no ano passado, foi escolhida pelo Ministério da Saúde para o atendimento de casos suspeitos de Ebola. “A gente tem muito pouco a oferecer para as mães de bebês com microcefalia”, diz Cerbino.

Qual é o maior desafio ao enfrentar essa epidemia de zika? 

A gente tem visto muita discussão sobre como o vírus se comporta, qual o número de casos, quais as más-formações que podem acontecer. Mas temos de pensar também no apoio e no acolhimento que têm de ser dados às mães que descobrem que os filhos têm microcefalia. Quando elas recebem diagnóstico desse tipo, surgem muitas dúvidas. E a gente tem muito pouco para oferecer para elas hoje. Esse é o grande desafio para o sistema de saúde. Não se pode ter o discurso de que não há nada a fazer, é preciso trazer esperança, ter uma palavra de conforto para essas mães. E a gente pode ter número grande de casos desses. Vamos ter de saber lidar com isso. É necessário preparar o sistema para ter condições de dar conta da reabilitação, do apoio que essa criança vai precisar.

O que mais?

O diagnóstico para conseguir saber exatamente qual é o padrão de circulação do vírus é uma dificuldade. O exame pelo método de biologia molecular é caro e pouco disponível. Não existe kit comercial para que se faça o diagnóstico. A sorologia, outro tipo de exame de diagnóstico, não tem se mostrado boa ferramenta para o zika. A gente observa reações cruzadas com dengue.

O que existe de diferente nesses casos no Brasil e os que já vimos no mundo, em países da África e na Polinésia Francesa?

A primeira diferença é a magnitude. Essas epidemias anteriores que aconteceram no Pacífico se deram em ilhas pequenas, com população restrita. É a primeira epidemia de zika em um país continental, com o tamanho do Brasil. A segunda diferença é o surgimento desses casos de microcefalia, que não haviam sido descritos anteriormente. Zika vinha sendo considerada doença de menor agressividade, de menores repercussões para a saúde.

Microcefalia em bebês de mulheres que contraíram o vírus não aconteciam antes ou não havia serviços de saúde estruturados para reconhecer o aumento dos casos e fazer a ligação?

A gente não tem essa resposta. Temos algumas hipóteses para isso não ter acontecido. Uma delas é o número menor de casos, em locais que não têm tantas condições de diagnóstico. Mas a gente tem de considerar outras possibilidades também. Pode ter acontecido alguma mudança no vírus. Ou pode haver algum cofator. Pode ser que não seja só o vírus que esteja causando a microcefalia, mas outro fator ambiental ou infeccioso que esteja contribuindo. Mas nesse momento não tem como saber ainda. Para isso será preciso fazer o sequenciamento do vírus, para entender o genoma, o material genético, para ver se tem diferença em relação aos vírus identificados na Oceania, na Ásia e na África. Além da análise clínica e laboratorial dos casos que estão ocorrendo, para ver se a gente identifica alguma coisa que esteja presente nesses casos e explique isso.

Nós tivemos sucessivas epidemias de dengue. Agora surge esse vírus transmitido também pelo Aedes aegypti. Isso poderia explicar a mudança no zika?

Na Polinésia Francesa havia sido relatada a cocirculação dos vírus. Lá tem dengue e chikungunya. Há relatos até na literatura de terem sido isolados no mesmo paciente os vírus da zika e da dengue. Não seria só a coinfecção que explicaria o surgimento da microcefalia. Tem alguma outra coisa.

Como se espera que seja o efeito da epidemia na Região Sudeste, no Centro-Oeste e no Sul?

Qualquer tipo de previsão é precipitada. O mais importante é desenvolver ferramentas e mecanismos para identificar o padrão de ocorrência da doença e saber como está o comportamento. O que a gente tem hoje são vários cenários possíveis. A gente tem um vetor, o Aedes aegypti, com índice de infestação muito alta no País. Então a gente tem a capacidade de transmissão muito alta. E existe uma população muito grande e suscetível, que nunca teve contato com o vírus. Há o potencial para ter grande número de casos. Mas não é certo. A gente teve a introdução da chikungunya e o comportamento não foi explosivo como vimos em outras áreas do mundo. No próprio Caribe, houve comportamento diferente do que se apresentou quando entrou no Brasil. A chikungunya entrou por Macapá e Feira de Santana (BA). E nos outros Estados houve número menor de casos, mas não houve grande epidemia logo na entrada. Fica difícil prever se vai ter epidemia grande ou não de zika, se vai se espalhar em um ano só ou vai demorar. O zika parece ter tido capacidade de se espalhar mais rápido do que chikungunya.

Subestimou-se o zika vírus?

A doença surpreendeu. Não tem nenhum elemento que sugerisse que poderia ter casos de microcefalia associados. Não tinha nenhuma sinalização de que zika entraria aqui. A gente foi surpreendido. Não dá para ter vigilância sobre todos os vírus que podem um dia entrar no País. O sistema tem de estar preparado para identificar coisas novas que apareçam. E, na verdade, conseguiu identificar.

Há a preocupação de a epidemia de zika sobrecarregar os serviços de saúde? 

A gente tem bastante tempo de enfrentamento de epidemias de dengue. Temos de usar isso ao nosso favor. Deve existir abordagem sindrômica. O paciente tem de ser abordado como um quadro febril. As medidas que serão tomadas para evitar a piora independem do teste diagnóstico. São exames simples, como hemograma. E as medidas para evitar complicação são simples: hidratação, analgesia.

Qual a ligação entre Guillain-Barré e zika?

Guillain-Barré é uma síndrome neurológica que não é causada diretamente pelo vírus. Zika não causa Guillain-Barré. Guillain-Barré é resposta do organismo a alguns processos infecciosos. Algumas pessoas expostas à infecção desenvolvem resposta, e o zika parece que é um dos gatilhos. É uma síndrome desmielinizante; ataca a mielina, que é uma substância que compõe os nervos. E essa doença tem cura. Na maior parte dos quadros, a doença regride. Mas é preciso mais informação para entender o tamanho desse problema.

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