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Hábitos da mãe evitam filhos obesos

Estudo da Universidade Harvard mostra que risco de obesidade infantil é 75% menor quando as mães mantêm estilo de vida saudável

Fábio de Castro e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2018 | 03h00

SÃO PAULO - A designer Camila Muffo, de 39 anos, sempre teve hábitos saudáveis e eles aumentaram depois de sua primeira gravidez. "Eu nunca bebi nem fumei. Quando a minha primeira filha nasceu, comecei a me alimentar melhor". A designer conta que já percebe o impacto da vida saudável nos hábitos da filha mais velha, Alice, de 7 anos. "Ela se acostumou a comer coisas diferentes. Na minha casa não tem refrigerante, nem 'junk food'. 

As conclusões de um novo estudo feito por cientistas da Universidade de Harvard (Estados Unidos) sugerem que a obesidade não deverá ser um problema para os filhos de Camila. De acordo com a pesquisa, as crianças têm uma chance 75% menor de se tornarem obesas na infância ou na adolescência quando as mães, durante esse período, mantêm um conjunto de cinco hábitos saudáveis: ter uma dieta saudável, manter o peso sob controle, fazer exercícios regularmente, consumir álcool com moderação e não fumar. 

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Publicado nesta quarta-feira, 4, na revista científica The BMJ, o estudo mostra que cada um dos bons hábitos da mãe reduz os riscos de obesidade dos filhos - e a maior queda acontece quando a mãe adota todos os cinco.

"Nosso estudo foi o primeiro a demonstrar que para reduzir o risco de obesidade nas crianças, um estilo de vida integralmente saudável das mães é mais importante que ter algum desses hábitos saudáveis de forma isolada", disse o autor principal do estudo, Qi Sun, do Departamento de Nutrição da Universidade de Harvard.

Para estudar a associação entre o estilo de vida das mães e o risco de obesidade entre os filhos, os cientistas analisaram dados de dois grandes estudo nacionais que acompanharam, ao longo de 5 anos, cerca de 17 mil mulheres e seus mais de 24 mil filhos - crianças e adolescentes com idade entre 9 e 18 anos - nos Estados Unidos.

De acordo com Sun, identificar os fatores de risco para a prevenção da obesidade infantil se tornou uma prioridade de saúde pública nos Estados Unidos, onde uma em cada cinco crianças e adolescentes de 6 a 19 anos de idade é obesa. "O problema é grave, já que a obesidade infantil está associada ao aumento dos riscos de vários distúrbios, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares e morte prematura na idade adulta", afirmou.

O pesquisador afirma que, embora os fatores genéticos tenham um papel importante na obesidade, já se sabia que o rápido crescimento da epidemia de obesidade detectado nos últimos anos - não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo - é provavelmente causado por mudanças no estilo de vida e na dieta. O novo estudo, segundo eles, reforça essa hipótese e indica que a obesidade infantil pode ser combatida com estratégias focadas nos pais.

"Estudos anteriores já haviam mostrado que o estilo de vida das crianças é amplamente influenciado pelas suas mães. No entanto, não sabíamos se os padrões de estilo de vida saudável das mães durante a infância e a adolescência dos filhos influenciavam de fato o desenvolvimento da obesidade."

Segundo ele, os resultados destacam os potenciais benefícios de intervenções baseadas nos pais para reduzir os riscos de obesidade infantil. 

Problema mundial. No Brasil, a preocupação com a obesidade infantil é a mesma - e a solução também é fazer com que os pais mudem seus hábitos, de acordo com Denise Lellis, pediatra da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

"O problema é mundial e no Brasil não é diferente. Não há mais dúvidas de que os fatores ligados ao estilo de vida são centrais nessa epidemia de obesidade e é bastante evidente que os hábitos dos pais vão se refletir nas crianças", disse Denise ao Estado.

Segundo Denise, a principal conclusão do estudo - de que há uma redução de 75% no risco de obesidade entre os filhos de mulheres que mantêm hábitos saudáveis - é coerente com tudo o que os pediatras observam no cotidiano.

"Isso faz sentido em todos os aspectos, porque a criança está aprendendo com os pais. Se eles conseguirem melhorar seu estilo de vida, isso vai se refletir na saúde infantil. Por isso acreditamos que incentivar mudanças no estilo de vida é o futuro para a prevenção de doenças crônicas", disse.

Membro do departamento de Obesidade Infantil da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade de da Síndrome Metabólica (Abeso) e doutora em pediatria pela FMUSP, Denise esteve há duas semanas na Universidade de Harvard, em um congresso que discutiu os instrumentos disponíveis para que os médicos consigam modificar o estilo de vida da população como forma de combater doenças crônicas como obesidade, doenças cardiovasculares e infarto.

"Há um consenso de que tudo isso está mais associado a um estilo de vida ruim do que à genética. Na década de 1990, quando o Projeto Genoma começou, houve uma tendência a achar que tudo era genético. Depois da algumas décadas, descobriu-se que a genética não explica quase nada - a maior parte dos problemas vem dos hábitos. Isso é muito importante na pediatria, porque esses hábitos são adquiridos na infância", afirmou.

Estudo amplo. Todas as mães que participaram do novo estudo americano responderam a um detalhado questionário sobre seu histórico médico e seu estilo de vida, incluindo o índice de massa corporal (IMC), a dieta, tabagismo e os níveis de atividade física e de consumo de álcool. 

Com base nessas informações, os cientistas calcularam os riscos de obesidade de cada criança, utilizando o IMC. De maneira geral, o peso saudável é determinado por um IMC entre 18,5 e 24,9, enquanto o sobrepeso corresponde a um IMC entre 25 e 29,9. A obesidade é determinada por IMC entre 30 e 39,9. 

Com a aplicação de métodos estatísticos, os cientistas levaram em conta fatores que poderiam influenciar os resultados, como idade, etnia, histórico de doenças crônicas e diferenças de renda e escolarização.

De acordo com o estudo, 1.282 crianças e adolescentes - 5,3% das que foram avaliadas no estudo - desenvolveram obesidade durante o acompanhamento. Segundo os autores, o excesso de peso da mãe, o sedentarismo e o tabagismo estavam fortemente associados à obesidade entre os filhos.

Embora a maior redução no risco de obesidade dos filhos tenha ocorrido quando as mães seguiam os cinco hábitos de vida saudável - uma queda de 75% nos riscos -, alguns dos hábitos tiveram um notável impacto mesmo quando avaliados isoladamente.

As crianças cujas mães mantiveram um peso saudável durante a infância dos filhos tiveram risco de obesidade 56% menor em comparação às crianças com mães que estavam acima do peso ou eram obesas nesse período. Entre os filhos de  mulheres que não fumavam, o risco de obesidade foi 31% menor, em comparação ao das crianças com mães fumantes.

As crianças com mães que se exercitavam 150 minutos ou mais semanalmente tiveram um risco ligeiramente reduzido em comparação às mães totalmente sedentárias. Os filhos de mulheres que consumiram álcool moderadamente - o equivalente a dois chopps por dia - apresentaram um risco até ligeiramente menor de obesidade do que as que não consumiam nenhum álcool.

Limitações. De acordo com Sun, o trabalho é um estudo observacional e, por isso, as conclusões não podem ser consideradas uma prova de causa e efeito. Ele afirma também que o estudo tem algumas outras limitações. Uma delas é que os dados sobre atividade física e dieta, por exemplo, basearam-se apenas no relato das mães e podem estar sujeitos a imprecisões.

"Ainda assim, o estudo mostra que um estilo de vida integralmente saudável das mães durante a infância e adolescência de seus filhos está associado a um risco de obesidade substancialmente reduzido nas crianças", disse Sun.

Segundo ele, os resultados destacam os potenciais benefícios de intervenções baseadas nos pais para reduzir os riscos de obesidade infantil. "Precisaremos agora fazer novas pesquisas para examinar o papel do pai no desenvolvimento da obesidade de seus filhos", afirmou.

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