Caius Lucius/HC da Unicamp
Caius Lucius/HC da Unicamp

HC da Unicamp: à espera do pico de doentes no interior e de recursos

Um dos hospitais de referência do Estado para casos graves da covid-19 que deve absorver demanda da capital, ainda aguarda dinheiro do Estado e da União para ampliar leitos

Ricardo Brandt, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2020 | 10h00

Sem ter recebido nenhum recurso extra do governo do Estado ou da União, o Hospital das Clínicas da Unicamp - uma das unidades de referência em São Paulo para atendimento de casos graves da covid-19 – está preparado para o pior: atender ao mesmo tempo os pacientes transferidos da capital paulista, em decorrência da eminente ocupação total dos leitos, e da região de Campinas, maior cidade do interior e que ainda não atingiu o pico de transmissão do novo coronavírus e pode registrar um explosão de casos, após as primeiras medidas de relaxamento do isolamento social, que começa a ocorrer em algumas cidades.

Nesta quinta-feira, 30, o índice de ocupação dos leitos em São Paulo atingiu 89%. Autoridades de saúde alertaram que o sistema de regulação de vagas públicas, em breve, começará a enviar os doentes para internação nas unidades de referência do interior e do litoral - além do hospital, em Campinas, estão na lista o HC da USP, em Ribeirão Preto, o Hospital de Base, em São José do Rio Preto, e o Emília Ribas II, no Guarujá.

“Somos referência de alta complexidade de uma região muito grande. Como há uma expectativa que venha um grande número de gente precisando de UTI ou mesmo de internação semi-crítica, fizemos a divisão em fluxos, entre os casos suspeitos da covid e os não, porque continuamos atendendo oncologia, urgências e outros”, explicou o superintendente do HC da Unicamp, Antônio Gonçalves de Oliveira Filho. “A gente se prepara para receber esses pacientes, mas espera que não venham.”  

O sexto andar do prédio do HC da Unicamp está isolado desde março para atendimento exclusivo de pacientes com a covid-19. Referência em atendimento de alta complexidade, em uma região onde vivem 6,5 milhões de pessoas, foram separados 30 leitos de UTI da ala adultos e 10 leitos UTI da ala de pediatria – praticamente a metade do total de leitos operacionais do tipo. Além de 104 leitos de enfermaria, exclusivos para os doentes com síndromes respiratórias. Duas tendas foram montadas na parte externa, uma delas faz atendimento de pronto atendimento exclusivo para casos de síndrome gripal, em uma entrada distante da do pronto-socorro, destinado aos demais pacientes, para evitar o contágio.

O quadro é de aparente tranquilidade, quando se olha os números, mas o cenário entre os profissionais é de atenção. Até ontem foram 757 pacientes atendidos nas unidades de saúde da Unicamp, desses, 108 estavam com a covid-19 - os números incluem o HC e outras duas unidades de saúde do campus. A prevalência de doentes atendidos foi de profissionais de saúde: dos 108 confirmados, 82 eram pessoas da própria universidade - a maioria, profissionais da saúde. 

“Isso mostra como há contaminação da equipe. São 61 profissionais afastados com covid-19 positivo. Tem mais profissional comprometido do que paciente. É altamente contagioso”, diz o diretor-executivo de Saúde da Unicamp, o médico e ex-superintendente do HC Manoel de Barros Bértolo.

O HC tem atendido em média 20 pacientes por dia, com suspeita da covid-19. A curva de casos na região de Campinas está achatada e estável, possível reflexo das medidas de isolamento. A ocupação dos leitos também é baixa: nesta quinta havia 15 pacientes internados na UTI e 15 na enfermaria. Desses, sete testaram positivo para o novo coronavírus, 3 aguardam resultado e 5 foram negativados.

“O movimento ainda é tranquilo, mas não há como prever. O que tenho que fazer é preparar o hospital para o pior cenário possível, porque é precisa planejar com antecedência, caso isso ocorra”, explica o superintendente do HC. Pelos níveis definidos previamente para planejamento das ações de enfrentamento, conforme o cenário de número de pacientes internados, o HC da Unicamp está atualmente no nível 2, de uma classificação que vai de 1 ao 7. “Quando chegarmos a 300 pacientes internados, estaremos no nível 7. Mas a gente espera não chegar, mas tem que estar preparado.”

Com expectativa de um pico de casos da doença tardio no interior e a sobrecarga dos encaminhamentos da capital paulista, quando os leitos locais atingirem 100% de ocupação, o HC da Unicamp precisa de recursos extras, do Estado ou da União.  O cálculo é de que cada leito novo desse custaria R$ 180 mil, mais o custo diário de manutenção de cada um de R$ 2,5 mil.

“Nossa obrigação é preparar o hospital para atender o máximo da nossa capacidade. Se o paciente vier de São Paulo, se vier de Americana, de Sumaré, em tese, para nós não faz diferença”, explica o superintendente do HC da Unicamp. O encaminhamento de pacientes de uma região para outra, também não depende de vontade de prefeitos ou mesmo do governador, ele segue critérios do sistema estadual de controle de vagas na rede pública - a Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde (Cross), criada pela Secretaria de Saúde do Estado.  

A Unicamp solicitou à Secretaria de Saúde do Estado recursos para a ativação de 30 novos leitos de UTI no HC. Pelo menos 20 desses leitos já têm promessa de envio de recursos. “Existe a possibilidade de abertura de mais 20 leitos de UTI extras financiados pelo Estado, melhorando as condições para atendimento dessa demanda”, explica o diretor de Saúde da Unicamp, que vê a pior fase ainda por vir. “O máximo que tivemos internados aqui foi ao redor de 37 pacientes. Então, não podemos dizer que chegou o pior momento.”

Outro problema enfrentado pelo HC da Unicamp, afirma Bértolo, é com a compra e reposição de máscaras, luvas, viseiras, roupas especiais, os chamados EPIs (Equipamento de Proteção Individual). "O mais complicado nesse momento são os EPIS, a compra deles, a reposição. Mesmo na área da saúde existe uma situação de desespero. O consumo de EPI é muito grande." Insumos que antes eram comprados a R$ 0,10, agora, quando são encontrados, chegam a preços como R$ 4,40 - exemplo de uma compra recente feita pela universidade.

Sem receber recursos extras para o combate à covid-19 até agora, a Unicamp tem sobrevivido das doações e dos repasses feitos pelo Poder Judiciário, que destinou pelo menos R$ 10 milhões de valores disponíveis em processos, explica o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel.

“Temos negociado, conversando, mas até agora não veio nenhum recurso extra”, desabafa o reitor. “Nessa situação de pandemia, nós estamos sofrendo bastante."

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