Hemocentros do País estão à beira de colapso

Os hemocentros do País estão à beira de um colapso econômico. Não é a primeira vez, mas a situação nunca foi tão grave. Até sexta-feira, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) vai levar ao Ministério da Saúde as reivindicações e propostas para melhorar a situação financeira dos 37 centros de sangue públicos do País. ?Os hemocentros estão se comprometendo cada vez mais e a crise não pode colocar a vida de ninguém em risco por falta de atendimento?, diz João Carlos Pina Saraiva, diretor financeiro da SBHH e diretor do Centro de Hemoterapia e Hematologia do Pará (Hemopa). ?É a primeira vez que temos de nos reunir para formalizar um pedido ao governo.? O início da crise está nos valores repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) aos centros. ?Nossos gastos são, em média, 50% mais altos em relação ao que o SUS paga pelos procedimentos?, avalia Dante Langhi Júnior, diretor da SBHH e coordenador do setor de Hemoterapia da Santa Casa, em São Paulo. Os gastos de cada centro variam. Em alguns casos, a diferença é maior que 50%. Para fazer a triagem clínica, o centro de Ribeirão Preto gasta R$ 10,73 por paciente. O SUS repassa R$ 2,81. Para cada coleta seletiva de plaqueta (parte do sangue responsável pela coagulação), o centro de Marília gasta R$ 1 mil. O SUS paga R$ 336,60. ?Nunca conseguimos fechar as contas?, critica Jorge Crivoi, do departamento financeiro da Pró-Sangue, maior hemocentro da América Latina. A diferença entre os gastos da Pró-Sangue em geral e a remuneração do SUS varia de 20% a 50%. O governo admitiu a crise em nota oficial: ?O Ministério reconhece que há defasagem e está trabalhando para rever os valores, assim como a organização de valores de alguns procedimentos. Esta questão, porém, esbarra na falta de Orçamento.? O último reajuste da tabela do SUS foi em 2004 e girou em torno de 7%. O Impacto Enquanto isso, na prática, os centros têm de conviver com problemas graves. O Hemocentro de Pernambuco (Hemope) deve R$ 6 milhões a fornecedores. ?Só não falta kit de sorologia porque conseguimos fazer acordo com fabricantes para manter um pagamento mínimo mensal?, conta Alita Azevedo, diretora da Hemope. ?Mesmo assim, neste ano já tivemos de pedir bolsas de sangue para Minas e São Paulo.? No Hemocentro de Bauru, interior do Estado, já faltaram kits duas vezes neste ano. ?A situação está pior que na época da greve da Anvisa (no início do ano)?, conta Telma de Freitas, coordenadora da instituição. ?Tentamos nos virar, trocando de fornecedores de kits e bolsas de sangue. Temos ajuda da Faculdade de Bauru, mas não é regular.? De acordo com Langhi Júnior, da SBHH, a situação não está caótica graças a ajuda entre os próprios hemocentros e à ?mesada? das faculdades às quais alguns centros são ligados e das secretarias estaduais. ?Não dá para ficar apagando o fogo por muito tempo com mesada?, conclui ele. O Hemocentro da Faculdade de Marília, interior do Estado, trabalha com estoque de kits sorológicos quase zero. ?Temos uma dívida de 200 dias com fornecedores. Estamos no limite?, conta Antônio Fabron Júnior, diretor do lugar. Já o centro de Botucatu, interior de SP, enfrenta dois sérios problemas. ?Os funcionários trabalham com hora extra. Preciso contratar 15 pessoas, entre médicos, pesquisadores e enfermeiros. Não tenho dinheiro para isso?, explica o diretor, José Mauro Zanini. Também faltam recursos para a manutenção de equipamentos. Um dos freezers com capacidade de armazenar produtos a menos 80°C, temperatura indicada para manter reagentes dos testes de HIV, hepatites e material de biologia molecular, está quebrado. ?Preciso de R$ 20 mil?, afirma Zanini. ?Os outros dois freezers, além de abarrotados, têm sido usados por uma quantidade maior de pessoas que o indicado. Um aparelho desses não pode ser aberto com freqüência.?

Agencia Estado,

18 de setembro de 2006 | 09h35

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