Hepatite B já atinge 2 milhões de brasileiros

O tratamento da hepatite ganha cada vez mais destaque nos congressos médicos. O tema está em ebulição, e não é para menos: só a hepatite B, em sua forma crônica, atinge 400 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo as estimativas mais recentes. A doença é um problema de saúde pública que, só no Brasil, afeta dois milhões de pessoas.Essa inflamação do fígado, causada pelo vírus HBV, pode ser contraída por relações sexuais sem uso de preservativos, transfusões de sangue e compartilhamento de seringas, agulhas e outros instrumentos entre usuários de droga. Além disso, tem a transmissão vertical, quando a mãe passa para o filho durante a gestação. Em geral, esse mal evolui de forma silenciosa.De todos os infectados, em 95% dos casos a cura é realizada pelo sistema imunológico, muitas vezes sem a presença de sintomas. Os outros 5% evoluem para a forma crônica e precisam dos tratamentos. A notícia ruim é que, em um terço dessas pessoas, o problema evoluirá para cirrose hepática e com risco de câncer primário de fígado. Na maioria dos pacientes, quando os sintomas aparecem, o quadro está bastante evoluído.E é nessas pessoas que está o foco das pesquisas da indústria farmacêutica. O presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, João Galizzi Filho, reconhece que foram grandes os avanços na abordagem terapêutica nos últimos anos e afirma que novas terapias estão para surgir. A questão foi tema de discussão na VII Semana Brasileira do Aparelho Digestivo, realizada na semana passada em São Paulo. Para o professor de gastrohepatologia da Universidade Federal da Bahia e coordenador do grupo de estudos de hepatite Brasil-França, Raymundo Paraná, o salto no tratamento da hepatite pode ser comparado ao avanço na abordagem terapêutica do HIV. "Já temos muitas drogas disponíveis, mas ainda falta avançar a combinação delas", afirma Paraná. Medicamentos Atualmente, os pacientes contam com dois grupos de medicamentos: o interferon - mais antigo e aplicado via injeção - e os análogos de nucleosídeos e nucleotídeos - classe mais recente com dosagem oral. Embora os primeiros análogos existam no mercado há quase dez anos, os olhos dos especialistas estão voltados para os medicamentos aprovados nos últimos dois anos. As novas drogas para hepatite B melhoram os quadros com uma aceitação bastante superior ao interferon e melhor desempenho frente ao análogo lamivudina, ambos custeados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Aliás, essa é uma outra briga da classe médica: incluir na tabela de alto custo do SUS as novas terapias. "O Ministério da Saúde já possui um programa para contemplar os novos medicamentos, mas até agora não foi aprovado. A última reunião que a Sociedade de Hepatologia teve com o comitê do ministério foi em março deste ano", dispara Galizzi. As drogas têm resultados similares, mas algumas características colocam em vantagem as novas abordagens. O interferon, por exemplo, provoca muitos efeitos colaterais e ainda tem o desconforto de precisar ser aplicado por injeção. Isso não quer dizer, entretanto, que os novos medicamentos sejam perfeitos. O presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia diz que a desvantagem das novas opções é que elas induzem à resistência do vírus ao medicamento, sobretudo a lamivudina, única custeada pelo SUS. Entre os lançamentos recentes, o destaque é o entecavir, do laboratório Bristol-Myers Squibb, que, quando usado em pacientes como primeira opção, não provoca essa resistência. "A lamivudina cria uma resistência muito rapidamente, em torno de 20% ao ano, ao passo que o entecavir passa quatro anos sem problema. Ainda não sabemos no longo prazo qual será o comportamento", atesta Paraná. Com todo esse avanço, no entanto, ainda não é possível falar em cura da hepatite B. Os tratamentos conseguem retardar a evolução ou inativar a doença. As atuais terapias não curam.Nova drogaOutra opção para o tratamento da hepatite B deve chegar ao mercado brasileiro no próximo ano. Trata-se do medicamento telbivudina, do laboratório Novartis. A nova droga será apresentada na Argentina e já recebeu aprovação do Food and Drug Administration (FDA) - órgão regulador norte-americano. Um estudo com 1.367 pacientes, intitulado GLOBE, mostrou que, durante dois anos, o medicamento proporcionou grandes reduções na carga viral, chegando a níveis não-detectáveis, quando comparado com a lamivudina. "É uma droga com perfil de potência bastante alto. Quanto à resistência, foi observado que, a partir do segundo ano, em cerca de 5% dos pacientes houve indução à resistência do vírus", informa Paraná, professor da Universidade Federal da Bahia.A Rede Pública de Saúde no Brasil fornece gratuitamente vacina contra hepatite B para pessoas com idade entre 0 e 19 anos. A imunização acontece após três doses. Essa é a melhor saída para se evitar a hepatite.

Agencia Estado,

27 de novembro de 2006 | 16h47

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