Twitter / Jair Bolsonaro
Twitter / Jair Bolsonaro
Imagem André Fran
Colunista
André Fran
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Hoje, não! Bolsonaro e o uso das Copas por ditadores

Será que um evento esportivo pode mesmo servir como cortina de fumaça para desmandos, incompetência e corrupção de um governo? 'Tudo é política', como pregava Aristóteles? Ou dá pra separar as coisas?

André Fran*, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 10h00

A Copa América ia acontecer na Argentina e na Colômbia. Depois, o torneio ficou desabrigado: ninguém queria assumir a bomba. A competição quase foi cancelada por completo. Tudo isso em função da pandemia do coronavírus, evidentemente. Mas foi o Brasil que, no auge da catástrofe que já levou a vida de mais de 500 mil brasileiros, se ofereceu para sediar a competição mais inoportuna da história do futebol.

Foram mais de quatro seleções com jogadores infectados, centenas de prestadores de serviços contraíram a covid-19 e sabe-se lá quantas pessoas foram infectadas por tabela. Mas, no plano esportivo, quis o destino que a final fosse decidida entre Brasil e Argentina, um dos maiores clássicos do futebol mundial. E em um dos mais lendários palcos do nobre esporte bretão, o Maracanã.

Só esqueceram de combinar o desfecho com os russos, como teria dito o craque Garrincha. No placar final, deu Argentina um a zero. Um jejum de 28 anos foi quebrado. Messi levantou sua primeira taça pela seleção justo em solo brasileiro. Ou seja, os elementos do maior pesadelo do torcedor canarinho, certo? Errado. Na verdade, quando o árbitro apitou o fim da partida, teve muito brasileiro comemorando. E essa foi a grande polêmica.

Os motivos pelos quais muita gente torceu contra o Brasil são claros e evidentes: a falta de identificação da Seleção com o povo, a ausência de empatia de nossos craques com a situação dramática que vivemos, o descaso com que a seleção da CBF abriu mão de se posicionar contra a realização da disputa… Tudo isso pesou. Mas o principal foi a completa ojeriza dessa parte da nossa torcida pelo maior garoto-propaganda do torneio: o presidente Jair Messias Bolsonaro.  

No atual momento, fora as centenas de milhares de vidas perdidas para a covid, temos uma CPI escancarando a incompetência com que o governo lidou com a pandemia no País, mas também descortinando esquemas abomináveis de corrupção na compra de vacinas. O ultraje é tanto que recente pesquisa apontou que, pela primeira vez, a maioria dos brasileiros é a favor do impeachment do presidente.

Sendo assim, a Copa América, ou "Cova América" como ficou popularmente conhecida ("Cepa América" era o meu favorito), levantou um debate de muito tempo sobre a mistura entre esporte e política. No caso, a relação espúria entre o futebol e líderes autoritários. Será que um evento esportivo pode mesmo servir como cortina de fumaça para desmandos, incompetência e corrupção de um governo? "Tudo é política", como pregava Aristóteles? Ou dá pra separar as coisas?

Fazendo uma rápida análise histórica, vemos que tal artimanha não é novidade sequer aqui no Brasil. Na reta final para a Copa de 70, nosso país possuía um escrete de craques do nível de Pelé, Gérson, Rivelino e Tostão. Uma das melhores equipes de todos os tempos, segundo estudiosos. Mas o presidente, o general Emílio Garrastazu Médici, resolveu mandar, característica clássica dos autoritários, e cobrava por meio da imprensa a escalação de um jogador de sua preferência.

Na ocasião, João Saldanha era o técnico da seleção e, mais do que isso: era um comunista convicto. No auge da ditadura, ele se saiu com a frase que ficou eternizada: "Eu não escalo os ministros dele e ele não escala meu time." Duas semanas depois, Saldanha foi demitido e substituído por Zagallo que veio a ser o técnico do Tri quando o Brasil conquistou a Taça Jules Rimet no México. Para muitos historiadores, a Seleção serviu de instrumento da ditadura que buscava se apropriar do sentimento de patriotismo do povo.

Duas copas depois, outra ditadura sul-americana quis fazer uso do futebol em benefício próprio. Em 1978, a Argentina vivia sob uma ditadura militar. Milhares de pessoas eram sequestradas, torturadas e desaparecidas sob o regime do presidente, e também general, Jorge Rafael Videla. Torcedor fanático do River Plate, ele sabia muito bem a importância do futebol para o povo argentino e nada melhor do que uma Copa para mascarar seus atos hediondos e aliviar a pressão popular. Ativistas tentaram boicotar, muito se falou dos custos exorbitantes… mas acabou que a bola rolou.

A Argentina vinha bem no torneio, mas aí aconteceu um negócio esquisito na segunda fase. O time precisava ganhar de quatro gols do Peru para superar o Brasil no saldo de gols e avançar para as fases finais. A partida acabou... 6 x 0. Semanas depois, a Argentina doa um carregamento de 31 mil toneladas de trigo para o Peru. Pois é… Argentina campeã, Videla entregou a taça e a ditadura ganhou fôlego para mais alguns anos de abuso e assassinatos. 

Voltando ainda mais na história das Copas do Mundo, talvez a primeira a ter sido utilizada e manipulada por um ditador tenha sido a da Itália, do fascista Benito Mussolini, em 1934. O presidente da Fifa na época, Jules Rimet, chegou a dizer que foi Mussolini quem organizou aquela Copa, e não a FIFA. A competição teve uma taça própria batizada com o nome do "El Dulce", a Itália repatriou jogadores da Argentina que eram descendentes de italianos e o país chegou a escolher o juiz da sua própria partida. Tudo para que Mussolini mostrasse ao mundo a imagem de uma nova Itália, forjada em força, bravura e ordem. Aquela história.

A estratégia até que deu certo. A Itália foi campeã e seus atletas subiram ao pódio ao som da "Il Giovinezza", canção considerada na época como o hino fascista. Em plena ascenção de Hitler e da Alemanha Nazista, a Itália mostrava seu poder. Anos depois, Mussolini teve o fim conhecido por todos: o ditador acabou morto e pendurado de cabeça para baixo em uma praça de Milão. Ironicamente, uma imagem que já foi celebrada por torcidas de futebol antifascistas mundo afora.

Esse são alguns dos episódios mais marcantes, mas o fato é que futebol e política sempre se misturaram. Não faltam exemplos na história. Das ditaduras do século passado aos regimes autoritários modernos. E as Copas, especialmente, sempre foram alvo de governos buscando aumentar sua popularidade para se perpetuar no poder.  Isso quer dizer que não devemos torcer pelo sucesso de nossa seleção? Claro que não. Pode fazer o que quiser. Mas talvez dê para entender um pouco quem torce "contra". Não é contra o País. É contra o que estão fazendo com o País. No fim das contas, vale torcida contra, torcida a favor… futebol é paixão. E ninguém manda no coração.

*É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV, JORNALISTA E TEM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.