Strickland/The New York Times
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Homem com 17.700 frascos de desinfetante para mãos acaba de doá-los

Matt Colvin virou alvo de ataques de ódio nos Estados Unidos após comprar estoque de desinfetante para revender em meio à pandemia do novo coronavírus

Jack Nicas, The New York Times

16 de março de 2020 | 12h55

O homem do Tennessee que se tornou alvo de desprezo nacional depois de estocar 17.700 frascos de desinfetante para as mãos doou todos os suprimentos neste domingo, 15, enquanto o gabinete do procurador-geral do Tennessee começava a investigá-lo por manipulação de preços.

Na manhã de domingo, Matt Colvin, vendedor da Amazon nos arredores de Chattanooga, Tennessee, ajudou voluntários de uma igreja local a carregar dois terços de seu estoque de desinfetante para as mãos e lenços antibacterianos em um caminhão para a igreja distribuir às pessoas necessitadas.

Funcionários do gabinete do procurador-geral do Tennessee levaram o outro terço também neste domingo, planejando entregá-lo a seus colegas do Kentucky para distribuição. (Colvin e seu irmão Noah compraram alguns suprimentos no Kentucky este mês).

As doações culminaram em 24 horas tumultuadas para Colvin. Na manhã de sábado, 14, o The New York Times publicou uma matéria contando como ele e seu irmão limparam as lojas de desinfetantes e lenços, na tentativa de lucrar com o pânico do público diante da pandemia do novo coronavírus. Colvin vendeu 300 frascos de desinfetante para as mãos na Amazon antes que a empresa removesse suas ofertas e avisasse aos vendedores que eles seriam suspensos por manipulação de preços.

O resultado foi que Colvin ficou com uma enorme reserva de desinfetantes e lenços, enquanto grande parte do país procurava por esses produtos em vão.

A matéria no jornal imediatamente provocou indignação generalizada, com milhares de pessoas postando comentários irados na internet. Muitas dessas pessoas também entraram em contato direto com Colvin, enviando mensagens de ódio e ameaças de morte. Um homem chegou a bater à porta da casa de Colbin na noite de sábado.

Em uma entrevista no domingo, Colvin expressou remorso por suas ações e disse que, quando decidiu estocar os desinfetantes e lenços, não percebeu a gravidade do surto do novo coronavírus nem da escassez de produtos.

“Compro e vendo coisas há dez anos. Uma série de produtos que vendiam muito. Mas o negócio é que sempre havia mais produtos na prateleira”, disse ele. “Quando fizemos essa viagem, eu não fazia ideia de que as lojas talvez não fossem reabastecidas”.

Ele disse que a onda de ódio tem sido assustadora para ele e sua família. Contou que pessoas ligaram sem parar para seu celular, postaram seu endereço online e mandaram pizzas para sua casa. Sua caixa de entrada ficou inundada com mensagens pesadas, disse ele. Um e-mail que ele compartilhou com o Times dizia: “Seu comportamento provavelmente vai fazer alguém matar você, sua esposa e seus filhos”.

“Nunca foi minha intenção deixar os suprimentos médicos necessários fora do alcance das pessoas que precisavam deles”, disse ele, chorando. “Não sou esse tipo de pessoa.”

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Agora Colvin está enfrentando as consequências. Ele foi suspenso da Amazon e do eBay, e é como vendedor dessas plataformas que ele ganha a vida há anos. A empresa onde ele alugou uma unidade de armazenamento o expulsou. E o gabinete do procurador-geral do Tennessee enviou a ele uma ordem judicial e abriu uma investigação.

“Não toleraremos a manipulação de preços neste momento de necessidade excepcional e tomaremos medidas agressivas para detê-la”, disse o procurador-geral Herbert H. Slatery III, do Tennessee, em um comunicado.

A lei de manipulação de preços do Tennessee proíbe cobrar preços “excessivamente altos” por uma variedade de produtos, entre eles alimentos, gás e suprimentos médicos, depois que o governador declara estado de emergência. O estado pode multar as pessoas em até US $ 1 mil por violação.

A letra da lei pode beneficiar Colvin. O governador do Tennessee, Bill Lee, declarou estado de emergência em 12 de março, ativando a lei de manipulação de preços. Os irmãos Colvin compraram todos os desinfetantes e lenços em questão antes dessa data, e Colvin disse que não vendeu nada depois disso.

Uma porta-voz do gabinete do procurador-geral do Tennessee disse que, mesmo que os irmãos Colvin não tenham comprado ou vendido nenhum dos suprimentos após 12 de março, as autoridades estaduais “pensarão em todas as opções sob as leis dos consumidores”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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