EFE/EPA/JEROME FAVRE
EFE/EPA/JEROME FAVRE

Homem de Hong Kong é o primeiro caso de reinfecção do novo coronavírus no mundo

Paciente recebeu alta após ser curado do vírus em abril, mas no início deste mês ele testou positivo novamente após retornar da Espanha; OMS pede que não sejam tiradas conclusões precipitadas

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2020 | 11h01

Um homem de Hong Kong, de 33 anos, se tornou o primeiro caso documentado de reinfecção da covid-19 no mundo, segundo informaram pesquisadores da Universidade de Hong Kong, nesta segunda-feira, 24. O paciente recebeu alta após ser curado do vírus em abril, mas, no início deste mês, ele testou positivo novamente após retornar da Espanha.

Segundo as autoridades sanitárias da cidade, a princípio, pensou-se que o homem poderia ser um "portador persistente" do Sars-CoV-2 - o vírus causador da covid-19 -, mantendo o agente em seu corpo desde a infecção anterior.

No entanto, os cientistas afirmaram que as sequências genéticas das cepas de vírus contraídas pelo homem em abril e agosto são "claramente diferentes". Essa descoberta pode ser um retrocesso para quem baseia sua estratégia contra a pandemia na suposta imunidade obtida após a transmissão da doença.

"Muitos acreditam que os pacientes recuperados da covid-19 têm imunidade contra reinfecções porque a maioria desenvolveu uma resposta baseada em anticorpos neutralizantes no soro", observa o estudo da Universidade de Hong Kong. Os pesquisadores lembram ainda que “há evidências de que alguns pacientes apresentam níveis decrescentes de anticorpos após alguns meses”.  O estudo foi aceito pela revista médica Clinical Infectious Diseases e publicado pela Universidade de Oxford, do Reino Unido

O paciente não teve sintomas na 2ª vez, sugerindo que apesar da exposição prévia não ter prevenido a nova infeccção, a indicação é de que o sistema imune preservou algum tipo de memória em relação ao vírus. "A segunda infecção foi completamente assintomática - o sistema imune dele preveniu que a doença se agravasse", afirmou ao The New York Times Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale que não participou do estudo, mas analisou a publicação científica a pedido do jornal americano.

De acordo com Jeffrey Barrett, especialista integrante do Projeto Genoma do Instituto Wellcome Sanger do Reino Unido. "dado o número de infecções globais, ver um caso de reinfecção não é surpreendente" e que uma observação única não é forte o suficiente para fazer uma inferência definitiva. 

A líder técnica da resposta à pandemia da Organização Mundial da Saúde (OMS), Maria Van Kerkhove, comentou o caso nesta segunda-feira, durante coletiva de imprensa. "Não precisamos tirar conclusões precipitadas, mesmo que este seja o primeiro caso de reinfecção documentado".

Ela acrescentou que embora a reinfecção seja possível, porque em outros coronavírus a resposta imune decai após um período, ainda não há estudos conclusivos quanto à duração da imunidade ao Sars-CoV-2. Segundo Maria, pesquisas longitudinais - em que os mesmos participantes são analisados ao longo do tempo - mostraram forte resposta imunológica que permanece sem quedas até o momento.

A OMS pediu que países continuem a observar e documentar casos e que, se possível, identifiquem o genoma do vírus, para ter evidência de que se trata de nova infecção. "Temos mais de 24 milhões de casos registrados até o momento e precisamos olhar pra isso a nível populacional", disse a líder técnica.

De acordo com especialistas, "o Sars-CoV-2 pode persistir na população humana, como é o caso de outros coronavírus humanos comuns associados a resfriados, embora os pacientes tenham adquirido imunidade por meio de de uma infecção natural". Portanto, eles recomendam que os pacientes recuperados continuem a usar máscaras e respeitar o distanciamento social.

Da mesma forma, a ausência de uma imunidade natural de longa duração implicaria que aqueles recuperados da doença não dispensariam a imunização com uma possível vacina. "Como a imunidade pode ter vida curta (...), também deve ser considerada vacinação para aqueles que tiveram um episódio de infecção."

Em meados de julho, a OMS expressou sua esperança de que aqueles recuperados da covid-19 mantivessem algum grau de imunidade por vários meses. A líder técnica da organização disse que "em outros coronavírus, como Mers ou Sars, a imunidade foi prolongada por cerca de doze meses ou até um pouco mais". Mas, apesar de os infectados desenvolverem uma resposta imune, ainda não se sabe até que ponto ela é sólida ou sua duração.

USP estuda caso de reinfecção de técnica de enfermagem no interior paulista

Uma técnica em enfermagem de 24 anos voltou a apresentar sintomas da covid-19 pouco mais de um mês após ter testado positivo em um exame molecular (do tipo mais preciso), que identificou o novo coronavírus no seu organismo em 13 de maio e, depois, em 27 de junho, segundo o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, em estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) na cidade. 

Ela começou a apresentar os primeiros sintomas em 6 de maio, dois dias após ter contato com um colega que testou positivo. Mesmo usando máscara cirúrgica, ela se infectou e sentiu dores de cabeça, mal estar, febre, fraqueza muscular, leve dor de garganta e congestão nasal.  Os sintomas acabaram em 10 dias e a ela passou os 38 seguintes assintomática, trabalhando normalmente.

Em 27 de junho,  acordou com forte dores de cabeça, muscular e de garganta, mal-estar, febre, perda de olfato e de paladar e, nos dias seguintes, seu quadro clínico piorou, apresentando diarreia e tosse. Nesse período, dois parentes também foram diagnosticados. Já no 5º dia em que os sintomas voltaram a surgir, seu exame deu positivo novamente. 

Os sintomas sumiram 12 dias após o início da "segunda infecção”, mas a dor de cabeça e a perda parcial do olfato persistiram até 6 de agosto, quando a pesquisa foi divulgada. Na época, os cientistas também disseram  que, mesmo 33 dias após a reincidência dos sintomas, a paciente ainda testa positivo.

HC cria ambulatório específico para analisar pacientes com sinais de reinfecção

O Hospital das Clínicas de São Paulo reservou um ambulatório específico para analisar pacientes que indiquem sinais de possível reinfecção. “Existe um pequeno número de pessoas que apresentaram sintomas muito compatíveis. Porém, através de exames, ainda se mantinha a perpetuação da identificação do vírus”, explicou o secretário estadual da Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn. 

O objetivo, de acordo com o governo estadual, não é só dar seguimento ao atendimento, mas saber se houve recorrência de reinfecção ou há outro vírus em curso que não o covid-19. 

Coreia do Sul relatou suspeitas do tipo em abril

Em meados de abril, a Coreia do Sul relatou que ao menos 116 recuperados da infecção voltaram a testar positivo. Uma semana antes, o país havia descrito 51 casos desse tipo.

Uma das hipóteses levantadas na ocasião dizia que se tratava, na verdade, de reativação do vírus, que não foi totalmente eliminado e permaneceu “escondido” no organismo. Outra suposição era que os exames pudessem apresentar resultados imprecisos./ Com AGÊNCIAS INTERNACIONAIS e The New York Times

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