Pichi Chuang/Reuters
Pichi Chuang/Reuters

Homens e a 'masculinidade tóxica': o ponto cego na luta contra aids

Relatório divulgado no dia mundial de combate à doença mostra que o preconceito afasta de testes para o HIV e do tratamento

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2017 | 23h01

RIO - Um novo relatório divulgado no Dia Mundial de Combate à Aids, celebrado nesta sexta-feira, 1º, revela que os homens são o grande ponto cego na luta contra a infecção. Os números do Programa de Aids das Nações Unidas (Unaids, na sigla em inglês) revelam que eles têm menos probabilidade de fazer o teste para o HIV, são menos propensos a buscar o tratamento e, consequentemente, têm mais chances de morrer por complicações relacionadas à doença. E tudo isso por preconceito.

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O documento mostra que, globalmente, menos da metade dos homens soropositivos está em tratamento - em comparação a mais de 60% das mulheres.

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"Enfrentar as desigualdades que colocam as mulheres e meninas em risco de infecção pelo vírus está em primeiro plano na resposta à aids", afirmou o diretor do Unaids, Michel Sidibé. "Mas há um ponto cego em relação aos homens: eles não estão usando os serviços de prevenção e testagem para o HIV e não estão buscando acesso ao tratamento na mesma escala que as mulheres."

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Para a diretora do Unaids no Brasil, Georgiana Braga Orillard, existe uma "masculinidade tóxica" que prejudica muito a resposta à epidemia. Por uma questão de estereótipo, de parecer mais forte, o homem tende a não querer "demonstrar fraquezas".

"Quando comecei a trabalhar no Unaids, em 1999, a campanha do Dia Mundial foi sobre meninos e homens. Mas, desde então, o enfoque maior foi para as mulheres porque elas são, de fato, muito impactadas", afirmou Georgiana. "Achei legal voltarmos a este assunto para não esquecermos daquele ponto cego."

Na África Subsaariana, a região mais atingida pela epidemia, as chances de homens e meninos soropositivos saberem o seu estado sorológico são 20% menores do que as de meninas e mulheres. As probabilidades de eles buscarem tratamento são 27% menores. 

Na África Ocidental e Central, apenas 25% dos homens que vivem com HIV recebem o coquetel. 

Pessoas que não estão em tratamento são mais propensas a transmitir o vírus, lembram especialistas. Para piorar a situação o uso de preservativos é muito baixo entre os homens mais velhos: apenas 10% dos que têm de 55 a 59 anos afirmaram usar camisinha.

"Quando os homens têm acesso a serviços de prevenção e tratamento do HIV, cria-se um bônus triplo", disse Sidibé. "Eles se protegem, protegem seus parceiros sexuais e protegem suas famílias." 

Os homens que fazem sexo com homens, segundo o relatório, são 24 vezes mais propensos à infecção pelo HIV do que os homens na população em geral. A prevalência do vírus neste segmento da população é de 15% ou até mais em muitos países. O relatório mostra que eles têm dificuldades particulares no acesso aos serviços de HIV, por problemas como discriminação, assédio e até recusa de atendimento.

O uso do preservativo entre homens que fazem sexo com homens também está caindo na Austrália, na Europa e nos Estados Unidos. No país da América do Norte, por exemplo, entre homossexuais e outros homens que fazem sexo com homens, que são HIV negativos, o porcentual dos que têm relações sexuais sem preservativo aumentou de 35% para 41% entre 2011 e 2014.

Segundo Georgiana, a "masculinidade tóxica" também atinge os homens que fazem sexo com homem porque muitos deles "não são abertamente gays, não falam sobre a sua sexualidade".

O relatório Ponto Cego mostra que cerca de 80% das 11,8 milhões de pessoas que usam drogas injetáveis são homens e que a prevalência do HIV entre esse segmento passa de 25% em vários países. O uso do preservativo é quase universalmente baixo entre os homens dessa população-chave.

 

Nas prisões, onde 90% dos detentos são homens, a prevalência do HIV é estimada entre 3% e 8%, mas os preservativos e os serviços de redução de danos raramente estão disponíveis. Embora a testagem para o HIV esteja alcançando as mulheres, particularmente as que utilizam serviços pré-natais, os mesmos pontos de entrada não foram encontrados para os homens, limitando a aceitação do teste do HIV entre eles.

"O conceito de masculinidade nociva e os estereótipos masculinos criam condições que fazem com que relações sexuais mais seguras, testagem para o HIV, acesso e adesão ao tratamento- ou mesmo conversas sobre sexualidade - sejam desafiadoras para os homens", disse Sidibé. "Mas os homens precisam assumir essa responsabilidade. Essa bravata está custando vidas."

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