FELIPE RAU/ESTADÃO
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Hospitais de São Paulo apostam em programas para captar doações

Apesar de pouca cultura de ajuda financeira voluntária no Brasil, unidades de referência – como Hospital das Clínicas, Incor e A.C.Camargo Cancer Center – têm investido em campanhas publicitárias e escritórios para fazer busca ativa de filantropos

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2018 | 03h00

Em comparação com os Estados Unidos, é normal se ouvir que o Brasil tem pouca ou quase nenhuma cultura em doações. Mas esse pouco – que em alguns casos chegam a ser doações milionárias – tem feito a diferença para o funcionamento de hospitais de excelência de São Paulo que atendem pelo SUS, como Hospital das Clínicas, Incor e A.C. Camargo. E começa a ganhar força um movimento em várias dessas instituições para profissionalizar seus mecanismos de captação de doações.

O Incor, por exemplo, planeja lançar até o final do ano o programa Incor+100 que tem a expectativa de alcançar, em algum momento no futuro próximo, um volume de R$ 100 milhões em doações por ano para atividades de assistência, ensino e pesquisa.

O Hospital das Clínicas, depois de receber algumas doações recentes que permitiram a reforma de alas inteiras, desenvolveu uma metodologia de elaboração de projetos para captar de modo mais consistente em várias áreas. 

E o A.C. Camargo Cancer Center – que vinha contando só com doações de empresas por meio de projetos de incentivos fiscais como os programas federais Pronon (para oncologia) e Pronas (pessoas com deficiências) – também está abrindo um escritório especificamente para fazer a busca ativa por doadores.

"As pessoas têm vontade de doar, até existem doações voluntárias, mas são pequenas porque não temos políticas que facilitem isso", comenta Vilma Regina Martins, cientista e superintendente de Pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center, instituição privada, que dedica 60% de seu atendimento ao SUS.

Até não muito tempo atrás, essas instituições se valiam, por um lado, dos bons contatos de médicos de ponta que também atendem nos principais hospitais privados da capital, e por outro de filantropos que se dispunham a doar por conta própria. É o que agora se busca mudar.

"Doações são sempre bem-vindas, mas o que recebemos hoje ainda é muito pouco, principalmente porque não temos uma estrutura de captação própria", afirma Roberto Kalil Filho, presidente do conselho diretor do Incor. Entre 2010 e 2017, doações de pessoas físicas e jurídicas somaram cerca de R$ 10 milhões. "Queremos pelo menos quintuplicar já no próximo ano e para isso estamos planejando em agir em várias frentes", diz.

O trabalho de profissionalização das captações foi iniciado há dois anos. No começo de 2018, foi criado um Comitê Comunitário, coordenado pelas organizadores de eventos Bia Aydar e Fabiola Lutfalla, que passou a liderar o esforço de arrecadação para projetos prioritários. Um deles é a reforma da cozinha, estimada em R$ 20 milhões. Outro é a criação de um centro de cardio-oncologia, para estudar os efeitos colaterais que químio e radioterapia podem ter no coração.

Além da busca ativa por doadores, outras duas estratégias de arrecadação são o lançamento de uma campanha publicitária para tornar o Incor mais conhecido no País – doada pela agência África – e um serviço “tipo Teleton”, como define Kalil, para o recebimento de doações por um telefone 0500, que está em análise no Ministério das Comunicações.

Metodologia

A necessidade dessa profissionalização é algo foi percebido já há algum tempo pelo urologista Miguel Srougi, professor da Faculdade de Medicina da USP. Ele era professor da Escola Paulista de Medicina quando conseguiu sua primeira grande doação – R$ 13 milhões, em 1998, para uma reforma no Hospital São Paulo

“O Brasil já há alguns anos vive limitações na saúde pública. Estávamos precisando de uma reforma, fui atrás. Foi tão fácil que me surpreendi, e resolvi me envolver com isso. Estudei bastante, porque há muito espaço para isso no País, mas ainda não temos a cultura. Fui entender os princípios de fundraising, de como é preciso ter experiência no que se faz e tocar fundo os doadores”, diz.

Srougi desenvolveu uma metodologia para elaborar projetos e pedir doações e levou a experiência para o HC. Uma das doações conseguidas, de R$ 5,3 milhões, permitiu reformar a ala de pediatria da Urologia. É um projeto que melhorou a qualidade de vida de crianças com situações bastante delicadas, como a do menino Davi Lukas, de 4 anos, que nasceu com síndrome de Prune Belly, sem testículos nem pênis, entre outras complicações.

“Assim que ele nasceu já passou por duas cirurgias (no interior de Minas, onde vivem). Agora aguardamos a terceira aqui, mas ainda temos um longo caminho pela frente”, conta a mãe, Luciene Maria dos Santos, grávida e com mais dois filhos esperando em casa, em Cariaçu. No dia que a reportagem visitou o hospital, ela só conseguia descontrair Davi na nova brinquedoteca. A diversão do pequeno era desenhar peixinhos-palhaços.

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Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2018 | 03h00

Foi durante um tratamento de linfoma no Hospital Sírio Libanês há cerca de dois anos que o empresário José Roberto Lamacchia, dono da Crefisa, tomou conhecimento de um dilema que estava enfrentando o hematologista Vanderson Rocha.

O médico, que coordena a área de transplantes de medula óssea no hospital particular, tinha recentemente assumido a diretoria do Serviço de Hematologia do Hospital das Clínicas da USP e estava tentando lutar contra o fato de que havia muitos casos de infecções entre os internados do setor.

“São pacientes imunodeprimidos, que passam muito tempo hospitalizados, ficam um mês internados depois do transplante, e vi que precisava de algumas mudanças para poder fazer medicina de ponta ali”, conta Rocha, que vinha de uma experiência de 20 anos trabalhando na França e Inglaterra. “Mas em tempos de crise é difícil ter apoio público.”

Foi quando um caminho apareceu em família. Seu cunhado Marcelo Oliveira era então técnico do Palmeiras, time patrocinado pela Crefisa. Uma coisa levou à outra e Rocha conseguiu apresentar um projeto de modernização da ala para o casal Lamacchia e Leila Pereira.

“Fui conhecer o HC, o trabalho do Vanderson e vi a situação que estava a hematologia. Era absurdo o Beto (José Roberto) poder ser tratado de modo tão impecável no Sírio e o HC daquele jeito. Falei para ele que a gente precisava ajudar. Quando passamos por algumas provações na vida, têm de ter um porquê”, conta Leila.

Era o início de uma parceria que resultaria, no total, segundo cálculos de Leila, em cerca de R$ 35 milhões e a reforma de duas alas do hospital, previstas para serem inauguradas em agosto.

A enfermaria de 12 leitos da Hematologia foi toda reformulada e ganhou um sistema de automação, com filtragem do ar e da água, além de mobiliário e banheiros mais fáceis de limpar, com material que não acumula poeira. Mas o ganho do qual Rocha mais se orgulha parece até simples: a garantia de que médicos e enfermeiros vão fazer uma boa higienização antes de ter contato com os pacientes mais debilitados.

“Antes de entrar no quarto eles passam por uma antecâmara com um sensor que mede o tempo em que o médico lava as mãos. A porta nem abre se lavar por menos de um minuto”, explica.

Ao saber da doação, o urologista William Nahas, também médico de Lamacchia no Sírio, levou para ele um projeto de reformulação do setor de transplantes de rim do HC. “A gente chora para todo mundo. Fazia 40 anos que o setor não passava por uma modernização. O Zé Roberto e a Leila acabaram abraçando a ideia e a área foi totalmente reconstruída”, diz.

A enfermaria de transplantados, que tinha 20 leitos, passou a ter 24, em 12 quartos climatizados e com banheiros, além de uma estrutura mais humanizada. “Tira um pouco a cara de quarto de hospital”, comenta o médico, sobre o fato de os equipamentos de gases ficarem escondidos na parede. Também foram doados móveis e camas.

Multiplicação de projetos

Os dois projetos incentivaram outros departamentos a também buscarem recursos de doações. O centro de engenharia e arquitetura do hospital, que coordenou as duas reformas, vem usando a experiência adquirida para desenvolver estudos e fazer outros projetos.

Já estão na fila a Otorrinolaringologia, a Endocrinologia e a Geriatria, além de um outro projeto da Hematologia para a criação de um instituto do sangue e terapia celular para o combate ao câncer.

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Filantropia responde por até 60% do recurso no Hospital de Câncer de Barretos

Experiência de captação foi desenvolvida ao longo de anos; são diversas fontes de verba: de leilão de gado a show sertanejo

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2018 | 03h00

Para o Hospital de Câncer de Barretos, vale tudo: leilão de gado, renda de show de sertanejos, repasse de nota fiscal paulista, leis de incentivos fiscais.

Talvez um dos maiores “cases de sucesso” no Brasil por busca de doações na saúde, a instituição, que recentemente adotou o nome Hospital de Amor, tem a maior parte do seu funcionamento (até 60%, em alguns anos), amparada em doações.

O hospital privado, que atende 100% pelo SUS, tem nos repasses federais verba para custear somente algo entre 40% e 42% do valor total operação. E, para manter os recursos em tempos de crise, a instituição não tem vergonha de pedir. No site do hospital, pedidos de “faça sua doação” estão por todos os lados.

É uma expertise que foi sendo construída ao longo dos anos e se baseia em grande parte na cultura sertaneja, da qual o hospital, que nasceu no interior de São Paulo em uma família de pecuaristas, faz parte. Pouco mais de um terço dos recursos vem de pelo menos 800 leilões de gado por ano.

“A pessoa compra e devolve para ser leiloado de novo. É assim com cada boi, cachorro, galinha. Outro dia uma galinha carijó botou ovo na frente das pessoas e o ovo foi leiloado também. Rendeu uns R$ 5 mil”, conta Henrique Moraes Prata, diretor de responsabilidade social do hospital, que cuida da área de incentivos fiscais.

É de onde vem outro terço dos recursos. O hospital usa quase todos os programas do governo federal de isenções, sendo que a maior parte das captações vem da Lei do Idoso – que permite a empresas doarem 1% do imposto a pagar. Só dessa fonte, diz Prata, é possível custear o tratamento de todos os pacientes com mais de 60 anos.

Gargalo

Ele afirma, porém, que muito mais poderia ser doado se houvesse mais incentivos. “Só 20% das empresas que fazem apuração pelo lucro real (instrumento pelo qual é possível obter isenções) doam no País. E das pessoas físicas que fazem declaração completa do Imposto de Renda, só 3% doam”, diz, citando a Pesquisa Doação Brasil, de 2015, do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social.

Prata questiona também os dois únicos programas específicos de saúde, o Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon) e o Pronas (para pessoas com deficiência), que também preveem 1% de doação do imposto devido, mas não são de captação livre – é fixado um limite de isenção fiscal. Para ele, isso prejudica os projetos que querem captar dessas fontes.

O Ministério da Saúde informou que as portarias trazem os recursos máximos previstos para cada ano, podendo variar de acordo com os recursos captados por projeto. Mas disse que eles podem ser readequados para mais ou menos.

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