Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Hospitais privados de SP suspendem cirurgias, recusam pacientes e atendem em pronto-socorro

Ocupação de UTI é superior a 91% em oito de cada dez hospitais particulares do Estado; Sírio-Libanês vê cenário crítico e Einstein prioriza procedimentos urgentes

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2021 | 18h48

Hospitais privados de São Paulo suspendem cirurgias eletivas, recusam pacientes e atendem em prontos-socorros diante do agravamento da pandemia. Pacientes mais jovens agora ocupam leitos de terapia intensiva por mais tempo, com quadros graves. “As altas hoje são por óbito. É dramático”, disse o presidente do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp), Francisco Balestrin. O Hospital Sírio-Libanês já informou que teve de suspender cirurgias eletivas e o Hospital Albert Einstein está priorizando os procedimentos mais urgentes. 

Balestrin vê pressão no sistema hospitalar privado paulista superior ao pico da primeira onda no ano passado. O aumento de demanda, diz, faz surgir cenas como pacientes recebendo ventilação e cateter de oxigênio nos prontos-socorros de hospitais particulares, enquanto aguardam leitos de UTI. Antes, o paciente seria imediatamente levado para terapia intensiva. 

Prontos-socorros também deixam de receber pacientes - o espaço pode até ficar aberto para receber outras doenças, mas para de atender infectados pela covid-19. Nesses casos, o hospital transfere ou sugere que o doente vá a outro hospital uma vez que a espera, ali, pode demorar “horas a fio”, segundo Balestrin. Pesquisa do SindHosp mostra que 32% dos hospitais não conseguem aumentar o número de leitos para covid-19 e 15% só conseguem disponibilizar mais leitos clínicos.

O levantamento, feito de 8 a 11 de março, também indica que 83% dos hospitais estão cancelando cirurgias eletivas. A suspensão das cirurgias ocorre porque, em muitos casos, o pós-operatório tem de ser realizado em uma UTI e essas unidades estão sendo ocupadas com pessoas infectadas pela covid-19. 

82% dos hospitais privados de São Paulo relataram ocupação superior a 91% de leitos de UTI. A pesquisa foi realizada com 93 hospitais da rede privada, que possuem 6.517 leitos clínicos e 3.009 leitos de UTI. Participaram do levantamento 38 hospitais da Grande São Paulo e 55 do interior.  O SindHosp representa 400 hospitais em todo o Estado. Na rede de hospitais São Camilo, em São Paulo, a ocupação era total nas UTIs e de 93% na enfermaria para covid-19. “Novos leitos estão sendo providenciados para suprir a alta demanda", informou o São Camilo. 

Referência em todo o Brasil, o Hospital Sírio-Libanês recusou receber pacientes transferidos de outras unidades e suspendeu cirurgias eletivas. “Há muitos pedidos de transferência e não temos como atender. Cancelamos todas as cirurgias eletivas”, disse o CEO do Sírio, Paulo Chapchap. 

“Tenho 36 pacientes que pediram transferência para o Sírio e não estou atendendo. Hoje (quarta) não tinha nenhuma vaga em UTI. Estamos convertendo o maior número possível de leitos, mas o sistema não aguenta um tsunami”, falou Chapchap em um evento restrito. A declaração foi confirmada ao Estadão

Já o Hospital Israelita Albert Einstein, na zona sul de São Paulo, disse estar priorizando cirurgias de acordo com a urgência. Procedimentos sem urgência já marcados podem ter data alterada para dar lugar a cirurgias mais graves. Nesta quinta, o hospital tinha ocupação geral (covid-19 e outras doenças) de 104% - eram 200 pacientes com covid-19, 101 deles na UTI. O pronto-atendimento continua aberto. Segundo o Einstein, o paciente com covid-19 que chega ao hospital espera por um leito no pronto-atendimento, recebendo todos os cuidados necessários.

No Hospital Oswaldo Cruz, que tinha nesta quinta-feira 97% dos leitos de UTI para covid-19 ocupados, as cirurgias eletivas vão passar por análise de prioridade considerando gravidade, urgência, complicações possíveis em relação ao adiamento e comprometimento funcional. “Algumas cirurgias previamente agendadas poderão exigir reagendamento, sendo cada caso discutido com a equipe médica previamente”, informou o hospital. 

Para atender pacientes que aguardam leitos, o Oswaldo Cruz instalou há algumas semanas uma “área de internação transitória” no pronto-atendimento voltado para a covid. Os 23 leitos nessa área transitória têm equipamentos para atendimentos mais críticos. O serviço foi ampliado nesta semana, de acordo com o hospital. 

Permanência em leito aumenta e faixa etária de internados cai

Na segunda onda da pandemia no Estado, os internados com a doença levam mais tempo em terapia intensiva. “A média de permanência aumentou e caiu a idade de internação”, disse Balestrin. Se na primeira onda a faixa etária média dos pacientes hospitalizados era de 60 a 70, agora caiu para 45 a 55 anos, calcula. 

A mudança de perfil dos internados é relatada pelos hospitais. Mais da metade das unidades afirmaram que os casos de covid-19 estão chegando com maior gravidade aos hospitais ou apresentam rápida progressão; 54% dizem que diminuiu a faixa etária dos pacientes internados; 47% afirmam que aumentou o número de internações de crianças e adolescentes; e 46% garantem que aumentou o tempo médio de permanência dos internados pela covid-19 em UTI.

Com quadros graves, até mesmo adultos jovens, na faixa de 30 anos, acabam morrendo. “Mesmo esses evoluem para óbito e, se não evoluem para óbito, usam mais tempo a UTI. A rotatividade do leito é menor”, afirmou Balestrin. A maioria das altas hoje, diz, são por morte e não porque o paciente se recuperou da doença.

 

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