Wether Santana|Estadão
No Hsanp, ainda há receio, após mais de 4 mil atendimentos Wether Santana|Estadão

No Hsanp, ainda há receio, após mais de 4 mil atendimentos Wether Santana|Estadão

Hospitais público, particular e de referência de SP vivem expectativas diferentes

Depois de mais de 100 dias, o combate ao coronavírus produz realidades diferentes nos hospitais de São Paulo de acordo com a região da cidade, perfil do público atendido, regime de administração e tamanho

Gonçalo Junior , O Estado de S.Paulo

Atualizado

No Hsanp, ainda há receio, após mais de 4 mil atendimentos Wether Santana|Estadão

Depois de mais de 100 dias, o combate ao coronavírus produz realidades diferentes nos hospitais de São Paulo de acordo com a região da cidade, perfil do público atendido, regime de administração (público e privado) e o próprio tamanho da instituição. Independentemente do tipo de hospital, no entanto, existe preocupação comum em relação ao avanço da pandemia e à possibilidade de aumento do número de casos nas próximas semanas em função da flexibilização da quarentena.

A partir de relatos de profissionais e funcionários desses hospitais e de familiares de pacientes internados na ocasião, o Estadão mostra três retratos bem distintos ao redor da capital. O Hospital Municipal Prof. Dr. Alípio Corrêa Netto, em Ermelino Matarazzo, zona leste, enfrenta problemas estruturais e altos índices de ocupação. Ali faltam especialistas nos fins de semana, por exemplo. As equipes do Hsanp, hospital privado de médio porte localizado da zona norte, afirmam estar preparadas para as próximas semanas, com equipamentos, profissionais e leitos. Já o Hospital Albert Einstein continua mobilizado pela covid-19, mas registra queda dos pacientes internados nas últimas semanas. No hospital que diagnosticou o primeiro caso no País, o desafio é continuar tratando dos pacientes, cuidar das doenças crônicas e dos problemas relacionados à covid-19, como depressão e ansiedade.

No Hsanp, ainda há receio, após mais de 4 mil atendimentos

O risco de aumento dos casos de covid-19 em São Paulo causa preocupação, mas não temor aos profissionais do hospital Hsanp, em Santana, na zona norte da cidade, que trata de pacientes com a doença. Com 95% de ocupação dos 13 leitos de UTI, a unidade garante estar preparada para as próximas semanas. “Estamos preocupados porque algumas pessoas pensam que a pandemia acabou. Ela não acabou. Mas estamos preparados para o aumento de casos”, garante a infectologista Juliane Gomes, vice-diretora do centro médico.

O Hsanp (novo nome do antigo San Paolo) é um hospital de médio porte. São 124 leitos, mas existem obras em andamento para uma nova torre e expansão para 200 acomodações. Para enfrentar a pandemia, o hospital praticamente se dividiu. Existem duas enfermarias, uma para as demais enfermidades e outra para a covid-19. O mesmo acontece com o pronto-socorro e as UTIs. O objetivo é evitar o risco de contaminação intra-hospitalar. Já foram mais de 4,2 mil atendimentos de covid-19 entre casos suspeitos e confirmados. Dos 267 casos positivos, 237 tiveram alta e 14 ainda estão internados. A taxa de mortalidade é de 1,95% do total de pacientes internados.

Como a maioria dos hospitais, houve momentos difíceis. A UTI chegou a 100% de ocupação, mas o hospital não chegou a recusar pacientes. Enfermeiro há 14 anos, Milton Alves Monteiro Junior atua no Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hsanp. Ele se lembra de uma paciente com 51 anos ainda no início da pandemia, em março. Ela foi entubada e submetida à assistência específica que estava ainda em análise naquele momento.

A evolução foi lenta e gradativa, à qual ela respondia com movimentos da face ou piscar de olhos. “Foi a primeira paciente a receber os aplausos dos profissionais de saúde e de seu filho, que, muito emocionado, agradeceu os cuidados do hospital e a nova oportunidade de vida da mãe”, relembra.

O avanço da pandemia provocou baixas na própria equipe do hospital. Dos 838 colaboradores, 132 foram afastados com suspeita de covid-19. Desses, 82 foram casos confirmados; 50, negativos. Um dos contaminados foi a infectologista Juliane Gomes. Depois de 13 dias de afastamento em casa, já com diagnóstico confirmado, a médica de 55 anos foi internada no dia 5 de maio. Tinha acometimento pulmonar bilateral, mas ainda não apresentava sintomas. Em menos de três horas, seu estado piorou e ela teve insuficiência respiratória.

Nos cinco dias de internação, quase precisou ser entubada. “Uma coisa é ser especialista e trabalhar na linha de frente. Outra coisa é estar na pele de quem está sofrendo a doença. Isso me deu sentimento ainda maior de gratidão.” A médica teve alta no dia 18 de maio, dia do aniversário, e ganhou festa da sua equipe de trabalho, responsável pela sua cura. “Acontece, mas não é comum o paciente voltar e agradecer. Eu tive essa oportunidade. As pessoas que trabalham comigo cuidaram de mim.” 

Estrutura e pessoal são desafios em Ermelino Matarazzo

Falta de monitores para acompanhar os sinais vitais dos pacientes, ausência de profissionais nos fins de semana e problemas estruturais, como a escassez de tomadas elétricas, são alguns dos problemas do Hospital Municipal Prof. Dr. Alípio Corrêa Netto, em Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, de acordo com os relatos de funcionários e familiares de pacientes. Alguns desses problemas já existiam. Com a pandemia, foram mais sentidos no hospital, um dos 20 endereços da rede municipal. Não é referência, ou seja, não tem foco específico na covid-19. 

A sala de emergência, chamada Choque I, recebe os pacientes graves. O setor possui oito monitores multiparamétricos, aparelhos que medem os sinais vitais, e oito respiradores. O local normalmente acolhe o dobro de pacientes. Com isso, doentes entubados ficam sem o acompanhamento ideal. Há tensão nos profissionais.

Na sala do Choque II (Sutura), ficam pacientes que precisam de cuidados de unidade semi-intensiva. Aqui o problema é a falta de profissionais. Não há fisioterapeutas, principalmente à noite e aos fins de semana, para fazer o manejo respiratório dos pacientes, ou seja, a recuperação do pulmão. A mesma carência é observada em outro setor recém-inaugurado para atender novos casos, adaptado no antigo pronto-socorro infantil. Ali, no Choque III, são mais nove leitos com entubados.

Até a semana passada, faltavam camas hospitalares na UTI covid-19. A maioria dos pacientes ficava em macas ou macas hidráulicas, o que dificulta a recuperação. Em doenças respiratórias, o paciente tem de ficar em decúbito elevado (barriga para cima, com ombros ligeiramente elevados) para favorecer a recuperação dos pulmões. O problema foi resolvido. Outro problema da infraestrutura se localiza também no Choque II. Faltam tomadas elétricas para bombas de infusão, equipamento eletrônico que aplica de forma contínua a medicação. Faltou planejamento, na visão dos funcionários, sobretudo ter revisado a parte elétrica.

Os problemas estruturais no hospital, no entanto, não impedem boas experiências de atendimento. João Evange Lacerda foi internado no dia 15 de maio para colocação de um marcapasso. Ele foi diagnosticado com covid-19 e teve de ir para a área de isolamento por nove dias. Após o período, o paciente foi submetido à cirurgia no dia 16 de junho. Deu tudo certo. A mulher, Zuleide, afirma que ele foi bem tratado. “Meu marido foi bem cuidado no hospital.”

A Secretaria Municipal da Saúde informa que a Sala de Choque I do Hospital de Ermelino Matarazzo tem os equipamentos necessários para o atendimento de urgência e emergência e estabilização do quadro dos pacientes. Sobre a sala de Choque II ou Sala Laranja, a pasta informa que, depois de estabilizados, os pacientes são transferidos para outras áreas que dispõem de equipe capacitada para o manejo respiratório dos pacientes e fisioterapeutas para atender todas as alas. Embora a unidade não seja referência para covid-19, o Hospital de Ermelino reservou a Sala de Choque III para o atendimento de casos de emergência e estabilização da doença. 

Einstein se prepara para nova onda, até de casos represados

O Hospital Albert Einstein registra atualmente menos pacientes internados do que nas últimas semanas. Hoje, são 39 pessoas internadas na unidade de terapia intensiva (UTI) covid. A média girou em torno de 60 entre maio e início de junho e já foi de 110 em abril. Os números estão baixando. O tempo de internação também diminuiu de sete para quatro dias. 

A redução se verifica na unidade do Morumbi, localizada na zona sul, mas a tendência também se observa nos hospitais públicos administrados pelo Einstein, como os municipais Doutor Gilson de Cássia Marques de Carvalho (na Vila Santa Catarina) e Doutor Moyses Deutsch (M’Boi Mirim, também na zona sul).

Para Claudia Regina Laselva, diretora de Operações, Enfermagem e Experiência do centro médico, a equipe acumula lições importantes no trato da doença. “Do ponto de vista epidemiológico, temos um aprendizado que contribui na redução do tempo médio de internação, por exemplo.”

Outro fator que influencia na redução de casos é a interiorização da doença. Mas a redução atual da pressão nos leitos hospitalares não modifica a estratégia do hospital. Há expectativa de aumento do número de casos nas próximas semanas. Com ocupação geral em torno de 80%, o hospital, referência no tratamento do coronavírus entre os hospitais privados continua mobilizado.

O centro ainda espera uma espécie de “retomada” mais intensa do tratamento de outras doenças crônicas, pois vários pacientes evitaram os hospitais por causa do medo de se contaminar. A procura de oncologistas, por exemplo, caiu 70%. Para atender pacientes covid-19 e não covid-19, o Einstein praticamente criou dois hospitais. 

No Morumbi, uma das torres foi destinada somente para doentes do novo coronavírus, com elevadores, corredores, pronto-socorro e unidades de internação específicas. “O momento atual ganhou amplitude. Além da covid, estamos tratando mais casos de doenças crônicas e problemas derivados da covid, como a reabilitação, depressão e ansiedade”, diz a especialista. 

Após praticamente quatro meses de dedicação intensa, os profissionais da linha de frente se sentem mais seguros. Nenhum profissional de saúde do hospital morreu, e a taxa de afastamento por covid-19 é de 10% a 12%, inferior aos 15% observados em outros hospitais. Por outro lado, há desgaste emocional. A perda de um paciente, a ausência dos acompanhantes e o medo de levar a doença para casa trazem um pesar maior a longo prazo, na opinião de Claudia Laselva.

Nesse contexto, as histórias de superação, dos colegas e dos pacientes, garantem a energia desses profissionais para seguir em frente no combate à covid. No final do mês passado, um enfermeiro retornou ao trabalho depois de 45 dias de internação, em que chegou a ficar em estado gravíssimo, mais 15 dias de afastamento das funções. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.