Hospitais querem mudar a forma de cobrar por serviços

Sistema de conta aberta impede que cliente saiba quanto irá pagar ao se internar em um hospital privado

Valéria França, ESPECIAL PARA O ESTADO

17 Julho 2014 | 14h35

SÃO PAULO - Taxas e impostos sobre produtos e aparelhos e mão de obra qualificada são alguns do quesitos que fazem o custo da saúde ser alto no Brasil. Mas há um outro fator que complica muito a vida dos doentes: a falta de previsibilidade das contas hospitalares. O paciente não tem como saber, por exemplo, quanto vai custar uma internação, e não consegue avaliar se a cobrança é de fato justa.

O Brasil tem um sistema de conta aberta. Isso quer dizer que tudo que for usado no procedimento contratado, do esparadrapo à linha de sutura, será relacionado na lista e cobrado por item. Há ainda os serviços dos profissionais envolvidos, entre outros custos. Ao pegar a conta nas mãos, o paciente não tem como saber se a lista está correta. O grande problema da conta aberta é que quanto mais o paciente consumir , maior o lucro do hospital.

“Parece uma forma transparente de se trabalhar, mas gera distorções”, diz Claudio Lottenberg, diretor do Hospital Israelita Albert Einstein. “Hoje os hospitais estão sobrevivendo dos insumos, serviços e preços das diárias. Quando isso acontece, vira-se parte de uma cadeia de distribuição. E não é essa a função do hospital”, diz Lottenberg. É prática dos laboratórios exercer uma certa pressão para que os médicos usem seus medicamentos.

As seguradoras de saúde são remuneradas por pacotes de procedimentos, previamente negociados com o hospital. Como concentram um grande demanda, possuem mais poder de negociação que um paciente que vai pagar a conta na boca do caixa do hospital, laboratório ou consultório, por exemplo.

Repasse de riscos. “Os planos de saúde repassam todos os custos e riscos para o associado”, diz Gonzalo Vecina Neto, superintendente corporativo do Hospital Sírio-Libanês e ex-secretário municipal da Saúde de São Paulo. “A população ainda vai envelhecer mais, porém, já envelheceu bastante. Não vai demorar para ter uma epidemia de centenários, que custam mais para os planos. Esse valor é repassado e diluído entre todos os associados”, diz Vecina Neto. Em geral, o usuário do plano não fiscaliza o que o prestador de serviço está cobrando. “Ele gasta sem fiscalizar, como se isso não fosse impactar na mensalidade que paga para a seguradora”, diz Vecina Neto.

O excesso de exames, que os médicos pedem hoje em dia são vistos como excessivos. “Nem todos são necessários”, diz Vecina Neto. “O médico pede para se garantir, porque não conhece o paciente e vai resolver apenas um problema pontual. O sistema está errado.”

No Sírio-Libanês, há uma série de procedimentos que os planos não pagam, e que são necessários. “Um paciente idoso que fica mais de 48 horas na cama, com problema vascular, precisa de um massageador de panturrilha. Evita trombose. O convênio não paga.”, diz Vecina Neto, “Se o paciente não usar, pode ter embolia. Daí a seguradora paga. Isso precisa mudar.”

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