‘Houve avanço, mas de forma restritiva’, diz pai de criança medicada com canabidiol

‘Houve avanço, mas de forma restritiva’, diz pai de criança medicada com canabidiol

Ele questiona motivo de pediatras não poderem receitar medicamento derivado da maconha

Entrevista com

Norberto Fischer

FELIPE RESK, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 03h00

Portadora de uma síndrome rara e sem cura, Anny Fischer, uma garotinha de 6 anos, se tornou uma espécie de símbolo da luta pela legalização da maconha medicinal no Brasil. Em abril, a família recebeu autorização da Justiça para importar medicamentos à base de canabidiol (CBD), composto proibido no País, que é extraído da Cannabis sativa e não produz efeitos psicoativos ("barato"). O Estado conversou com o pai dela, Norberto Fischer, sobre a decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) de autorizar médicos brasileiros a prescreverem o CBD.

O que vai mudar a partir da autorização para a prescrição?

Várias famílias que precisam importar o medicamento relatam que a principal dificuldade é conseguir a prescrição médica. Os médicos não prescrevem porque é uma substância proibida e eles podem ser punidos por isso. Com a resolução, isso deveria deixar de ser uma barreira, mas, na forma como foi feita, apenas uma parcela dos médicos vai poder prescrever. Isso esbarra em um outro problema, que é a falta desses profissionais no Brasil. O pediatra, por exemplo, lida diretamente com a criança. Por que ele não pode receitar o medicamento?

Qual o significado da decisão para quem luta pela legalização do CBD?

De certa forma frustra. Antes, sem um posicionamento oficial, qualquer médico poderia, em tese, prescrever. Agora mudou. Houve regulamentação, mas de forma restritiva. Pela resolução, a Anny só vai poder ser medicada duas vezes ao dia, mas o tratamento dela é com três doses. Eu não vou deixar de medicar minha filha por causa do CFM. Em parte, a resolução é uma avanço, já que representa uma certa ruptura com o preconceito. Mas ainda há muitas barreiras para superar.

Quais seriam essas barreiras?

As lutas continuam as mesmas: melhorar a resolução do CFM, conseguir que a Anvisa reclassifique o canabidiol como medicamento, para que deixe de ser uma substância de uso proscrito (proibido), e simplificar o processo de importação junto à Receita Federal.

Apesar da permissão, o senhor acredita que parte dos médicos vai continuar reticente em prescrever o CBD?

Com certeza, e isso já acontece hoje. Muitos médicos dizem que desconhecem o produto e que ele faz mal para as crianças. O que eu fico me perguntando nesses casos é: se ele não conhece o CBD, como pode afirmar que faz mal?

Como vocês descobriram o tratamento?

Anny teve a primeira crise convulsiva com 45 dias de vida, nos braços da mãe (Katiele Fischer). Aos quatro anos, depois de passarmos por vários especialistas, ela foi diagnosticada com CDKL5 (uma doença genética rara). Tentamos diversos medicamentos, nada funcionava: Anny chegou a ter 80 crises por semana, o que quer dizer uma convulsão violenta a cada duas horas. Katiele viu em um site americano que uma criança com a mesma síndrome tinha as crises controladas por CBD. Então, resolvemos importar, mesmo sendo ilegal. Em nove semanas de tratamento, as crises de Anny zeraram.

Vocês conseguiram a autorização da Justiça para importar CBD em abril. Como Anny está hoje?

Ótima. Em novembro, ela teve algumas crises, mas está muito melhor do que era antes. Antes do tratamento com CBD, ela não conseguia andar, não tinha controle cervical, não conseguia sentar… hoje ela faz tudo isso. A gente costuma dizer que a felicidade voltou para as nossas vidas.

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