FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

'Houve cenário em que um paciente aguardou mais de 12 horas por leito', diz diretora do Einstein

Claudia Laselva diz que, antes da pandemia, espera não superava mais de duas horas na unidade de pronto-atendimento do hospital, um dos mais importantes do País

Luiz Carlos Pavão, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2021 | 10h00

O agravamento da pandemia e a alta de internações pela covid-19 pressionam o sistema de saúde de São Paulo e autoridades temem colapso nas próximas semanas. Unidades de referência, como o Hospital Israelita Albert Einstein, têm registrado taxa de ocupação de leitos superior a 100%, com fila de espera, e transformam o fluxo de atendimento para absorver a demanda. Segundo o governo, 53 municípios do Estado já estão sem vagas de UTI para o novo coronavírus. 

"Antes desse cenário atual da covid-19, pacientes no Einstein nunca aguardaram por mais de duas horas por um leito na unidade de primeiro-atendimento. Hoje (ontem, na quinta-feira), houve um cenário em que um paciente aguardou mais de 12 horas por um leito hospitalar", diz Claudia Laselva, diretora de Operações e Práticas Assistenciais do Einstein. "É um cenário bastante complicado."

A unidade também transformou seu centro de imunização em área de leito hospitalar. Segundo ela, não houve suspensão de cirurgias eletivas (não urgentes) ou de recebimento de pacientes de outros Estados, mas não é possível atender todos os pedidos. Outras unidades, como o Sírio-Libanês, já decidiram recusar pacientes e cancelar procedimentos eletivos. 

 

Leia a entrevista com Claudia Laselva:

O Einstein tem 104% de ocupação de leitos. O que acontece com um paciente que chega ao pronto-atendimento do Einstein com sintomas da covid-19?

Estamos em um momento de elevadíssima ocupação no hospital. Para se ter uma ideia, a taxa média de ocupação do hospital em março está em torno de 93%. Em determinados momentos, trabalhamos com um cenário de 104%, hoje (ontem, quinta-feira) estava em 103% de ocupação. Sempre que houver ocupação acima de 90%, haverá espera. Há uma série de atividades que precisam ser feitas para um leito girar entre um paciente e outro. Então, neste período que temos trabalhado com uma ocupação nessa taxa, em alguns momentos, tivemos, sim, uma espera na nossa unidade de primeiro atendimento.

Vocês, com este cenário, mudaram algo para melhorar a atenção? O que mudou para fazer frente a essa demanda e espera de leitos para atendimento?

Mudamos muita coisa, mas não no pronto-socorro. Nessa área, para nós, tem de ser uma área de passagem e que não pode reter paciente. Tem de ser uma área de primeiro atendimento e que, brevemente, o doente seja alocado em um leito. O que fizemos foi olhar o fluxo cirúrgico, ambulatorial e clínico dos pacientes para garantir esses espaços. Alguns exemplos: diferente de alguns hospitais que cancelaram as cirurgias eletivas, aqui criamos uma classificação dos casos cirúrgicos baseada na literatura em que consideramos a questão da gravidade, do diagnóstico, do impacto, da sobrevida dos pacientes e também um critério de utilização de leitos e recursos. Há também a possibilidade de alguns pacientes se recuperarem no próprio centro cirúrgico ou uma recuperação anestésica. Isso também libera a necessidade de leitos.

Uma coisa que foi muito importante é que, ao invés de ocuparmos os espaços no nosso próprio pronto-socorro, olhamos todas as nossas áreas ambulatoriais. Hoje nosso centro de imunização, dentro do hospital, foi deslocado para as unidades externas e transformamos o centro de imunização em um espaço para leito hospitalar. Essa foi uma conduta importante que nos liberou uma série de leitos para internação, que foi transformar áreas ambulatoriais em áreas de atendimento de pacientes de clínica médica e cirúrgica e estes foram adaptados para unidades de terapia intensiva e semi-intensiva. Foram ações muito importantes que estão dando um fôlego para o nosso sistema. 

Há também a melhor gestão de todos os internados. Hoje se olha com muito critério as internações e os agendamentos de internações clínicas. Só entram no sistema de urgência  emergência ou realmente pacientes oncológicos e aqueles com doenças tempo-sensíveis. Também estamos com uma ação, que é garantir que o paciente fique internado estritamente o tempo necessário. Só hoje tivemos uma série de pacientes que puderam ter sua alta antecipada em um ou dois dias porque estamos garantindo a continuidade do cuidado na residência dele, oferecendo atenção com o serviço de home care e com a telemedicina. Como, por exemplo, pacientes que têm de tomar remédios antibióticos intravenosos, que têm um acompanhamento oferecido pelo hospital em sua casa. Tudo isso tem ajudado bastante a reduzir a permanência desnecessária do  paciente no hospital e, com isso, liberamos espaços e leitos para tratar outros pacientes que realmente requerem um maior número de recursos. 

Se uma pessoa chegar com oxigenação muito baixa demandando leito de UTI, ela espera no pronto-atendimento do Einstein ou o hospital já a direciona para outro hospital?

Não, não direcionamos nenhum paciente para outro hospital. Todo paciente que chegou ao nosso pronto-socorro tem garantia de atendimento. Pode até demorar algumas horas para ter o leito de UTI, mas, enquanto isso, na unidade de primeiro atendimento ele vai receber o cuidado intensivo que necessita.

No pronto-atendimento, os pacientes recebem quais tipos de cuidados? É possível, por exemplo, fazer ventilação não invasiva ou colocar cateter de oxigênio em pacientes no pronto-atendimento? 

Sim, se ele precisar de oxigênio, entubação, ventilação, respirador, ele vai ter. Todos os recursos vão estar disponíveis para atender prontamente a esse paciente na unidade de primeiro atendimento e, assim que possível, vai ser transferido para um leito de UTI. Isso é praxe, todo paciente que entra em uma instituição, de urgência ou emergência, entra pelo primeiro atendimento, onde recebe os primeiros cuidados, são feitas as primeiras medidas de recuperação, ressuscitação. E, na sequência, ele é alocado no melhor leito conforme a sua necessidade. Temos casos de pacientes com covid-19 que entram direto quando há transferência de outros hospitais. Ele sim pode ser encaminhado diretamente para UTI e não passar pelo pronto-socorro, mas este é um caso em especifico.

Há alguma orientação para que pacientes não procurem o Einstein ou se direcionem a outros hospitais de referência?

Não há nenhuma orientação nesse sentido. Os pacientes que necessitarem têm acesso ao nosso serviço. Não tem nenhuma orientação para não procurar o hospital. O Einstein está pronto, preparado para atender todos os cenários de urgência e emergência, seja um paciente que tenha um sintoma respiratório relacionado à covid ou com outras necessidades. 

O Einstein tem recebido pacientes transferidos de outros Estados?

Essas transferências, neste momento, estão sendo sempre reavaliadas. Temos sim um número grande de solicitações por transferência de outros Estados e cidades, mas realmente não temos conseguido atender na totalidade, porque o número tem sido bastante grande de pedidos. Temos procurado atender a essas transferência na medida em que o paciente tem acesso ao nosso serviço.

O Einstein está fazendo priorização de cirurgias já marcadas?  Como definir quais cirurgias são mais urgentes? 

Elas estão acontecendo a depender dos critérios dos casos cirúrgicos baseados na literatura em que consideramos a questão de gravidade, diagnóstico, impacto da sobrevida do paciente e também um critério de utilização de leitos e de recursos. Baseados em todos esses critérios, conseguimos ter controle de agendamento cirúrgico responsivo a essas necessidades desses pacientes, baseado em inteligência artificial.

Sabemos que determinadas cirurgias ocupam um espaço ambulatorial, não utilizam um leito de internação. Essa cirurgia é possível de alocar na grade sem impactar na demanda de atendimento. Temos um centro cirúrgico em uma unidade ambulatorial em Perdizes (zona oeste), conseguimos deslocar várias cirurgias para lá.

 

O que mais é importante destacar?

Gostaria de ressaltar a todos os indivíduos a adesão das medidas de prevenção, como a utilização da máscara para evitar a disseminação do vírus, de distanciamento social, importante neste momento, principalmente em locais fechados. É evitar também aglomerações. É um apelo que todos os profissionais de saúde têm feito, pois estamos em um cenário muito crítico no País. Os profissionais de saúde estão exaustos no combate à pandemia. Nunca enfrentamos um momento tão crítico. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.