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Idosa, hipertensa e transplantada, técnica de enfermagem demorou a ser afastada de hospital

Por ser profissional de saúde - atuava no Hospital Municipal do Tatuapé, na zona leste de São Paulo -, Juraci estava mais exposta a uma eventual infecção pelo vírus. E pior: na época, faltavam equipamentos de proteção individual (EPIs) na unidade

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 11h00

Apaixonada pela profissão, a técnica de enfermagem Juraci Augusta da Silva seguia trabalhando aos 72 anos, mesmo após a aposentadoria por idade. Não abandonava a rotina de cuidado ao outro nem quando estava fora dos hospitais. Nos dias que tinha uma folga mais longa, dirigia até a Bahia ou a Minas com um grupo de amigas para atuar em trabalhos assistenciais.

Quando o coronavírus chegou a São Paulo, em 25 de fevereiro, as filhas e netos de Juraci ficaram preocupados. Além da idade avançada, o que já é um fator de risco para complicações da doença, Juraci era hipertensa e transplantada. “Ela fez transplante de rim há três anos. Tomava aqueles medicamentos de imunossupressão, o que aumenta ainda mais o risco de ter baixa imunidade”, conta uma das filhas, a enfermeira Ana Paula da Silva, de 51 anos.

Por ser profissional de saúde - atuava no Hospital Municipal do Tatuapé, na zona leste de São Paulo -, Juraci também estava mais exposta a uma eventual infecção pelo vírus. E pior: na época, faltavam equipamentos de proteção individual (EPIs) na unidade, segundo relato da idosa à filha. “Ela tinha de ter sido dispensada logo no início. Como eles não liberaram inicialmente, falei para ela pelo menos tomar todas as precauções. Ela dizia que tomava cuidado quando dava, porque não tinha máscara para todo mundo.”

De acordo com a filha, Juraci só foi liberada do trabalho em 16 de março, 20 dias após o primeiro caso ser registrado na cidade e quatro dias após a capital já ter confirmada a transmissão comunitária da doença. Em 19 de março, a técnica de enfermagem começou a se sentir mal. “Começou com diarreia. Ela até achou que podia ter a ver com o transplante. Chegou a ir ao hospital, foi medicada, mas voltou para casa”, conta Ana.

Juraci piorou nos dias seguintes e começou a apresentar febre, tosse e falta de ar. “No dia 22, levei ela ao hospital de novo e já foi entubada na mesma madrugada. De lá não saiu mais. Morreu cinco dias depois”, lamenta a filha. A família acredita que ela tenha sido infectada no trabalho, pois outros profissionais do hospital adoeceram na mesma época. “Um colega do mesmo plantão dela morreu na mesma semana. Eles tinham que ter afastado mais cedo todos que eram do grupo de risco.”

Questionada pelo Estadão, a Prefeitura disse que lamenta a perda de Juraci e afirmou que ela estava afastada de suas atividades para tratamento de saúde desde 14 de março. Informou ainda que todas as unidades de saúde da capital seguiram a portaria que estabeleceu que servidores com mais de 60 anos, em funções administrativas, poderiam ser direcionados para o teletrabalho. A Prefeitura não deixou claro qual era a regra seguida para funcionários que não eram da área administrativa, como Juraci.

Sobre a falta de EPIs, a administração municipal afirmou que garante os objetos para seus colaboradores e pacientes e que o consumo de máscaras cirúrgicas nos 11 hospitais administrados pela Autarquia Hospitalar Municipal, da qual a unidade do Tatuapé faz parte, passou de 75 mil em fevereiro para 280 mil em março e abril. “Vale ressaltar que, mesmo diante da escassez mundial de produtos de proteção, todas as unidades de saúde tiveram seus estoques abastecidos”, disse a Prefeitura.

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