AMANDA PEROBELLI | ESTADAO CONTEUDO
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Idosos dividem memórias com jovens

Eles trocaram cartas durante o ano e depois se encontraram em projeto desenvolvido pela USP

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2016 | 21h52

A plateia aguarda agitada pelo encontro, marcado em uma quadra poliesportiva. Cerca de cem adolescentes estão sentados na arquibancada. O atraso da “grande atração” já completara uma hora. Preocupada com a crescente agitação do grupo de jovens de 13 e 14 anos, a professora de Português e uma das coordenadoras do evento, Janete Aparecida, zanza na lateral da quadra. De repente, ela convoca: “Vamos entrar calmamente. Eles estão chegando. Procurem o nome do seu velhinho colado atrás da cadeira e sentem no grupo”.

Os jovens pulam da arquibancada. Do outro lado, 19 idosos descem tranquilamente a rampa de acesso. Era a primeira vez que se conheceriam pessoalmente. Desde o início do ano, alunos do 8.º ano do Centro Educacional da Fundação Salvador Arena trocam cartas com velhinhos do projeto Estação Memória, iniciativa de um grupo de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP).

Os adolescentes vão se acomodando aos poucos. Dezenove idosos, a maioria imigrante, buscam os nomes nas cadeiras. “Quem escreveu carta para mim?”, aproxima-se uma senhora com uma pasta com textos e fotos enviados pelos alunos. Nas mãos de um jovem em cada grupo também havia material recebido por correspondência.

Experiências. Projeto que existe desde 1997 com foco em estudo da memória, a edição do Estação Memória deste ano teve como tema brincadeiras infantis. Compõem o grupo, coordenado pelo Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicação e Artes (ECA), velhinhos de 70 a 90 anos.

Atualmente, são 30 participantes do projeto. Para recebê-los, o Centro Educacional Fundação Salvador Arena pediu que os alunos levassem jogos e brincadeiras dos pais à escola. De elástico a 5 Marias, do telefone sem fio à cama de gato: não tardou para a diversão sair das cartas e se concretizar no meio da quadra. “Nós falávamos cada segredo, né?”, disse uma das senhoras, com o telefone sem fio, a uma colega do projeto.

Nas conversas com os jovens, os idosos contaram sobre as brincadeiras tradicionais das décadas de 1940 e 1950, como o “sangue do diabo”, uma substância de álcool e etileno que era comum ser espirrada na roupa dos foliões durante o carnaval. O líquido coloria os tecidos de vermelho e, em seguida, sumia. A brincadeira foi contada em carta por uma idosa. E os jovens pediram à professora de Química para reproduzir em sala.

“O sangue do diabo é legal porque evapora rápido. Aprendi isso e muito mais com eles. Notei também que a gente já não vê mais criança pequena brincando na rua ou de boneca, como faziam os velhinhos do projeto. Hoje é só no celular”, observa Vagner Eduardo Torres, de 13 anos.

Com nostalgia, membros do Estação Memória resgataram jogos e traquinagens de rua. Alguns adolescentes lamentaram que nunca puderam brincar fora de casa por falta de segurança.

Para Leonardo Araújo, de 13 anos, o que mais chamou a atenção foi a “perda do brinquedo físico” com o passar das gerações, uma vez que agora as brincadeiras são virtuais. “Nem me lembro a última vez que brinquei fora do celular ou do computador”, afirma.

Festa. A professora aposentada Maria Aparecida Lopes, de 77 anos, uma das participantes do projeto, estava de cama na noite anterior ao encontro. Mas não queria perder a chance única no ano de trocar experiências com os jovens com quem se correspondeu. “A gente sente o carinho desses meninos. É um sentimento bom. Quando chegamos, é sempre uma festa”, conta ela, que integra o Estação Memória desde 2007.

Imigrante italiana, a artista plástica Anna Maria Amato Nardelli, de 83 anos, também vê o encontro como uma “festa”. Ela participa do grupo há 12 anos. “Os jovens ficam olhando meus cabelos e acham bonito que sejam brancos. Para eles é uma festa encontrar pessoas de cabelo branco”, diz.

Mesmo tendo vivido a infância durante a Segunda Guerra Mundial na Itália, Anna conta que os amigos, primos e irmãos encontravam formas de se divertir dentro de casa. “Contei aos adolescentes que fui alfabetizada em casa, com as minhas irmãs. Certa vez, o professor deixou o chapéu no cabideiro e, quando ninguém estava olhando, fui lá e coloquei um creme gorduroso. Os meninos adoraram essa história quando contei na carta”, ri a artista plástica.

Na opinião de Manoel do Vale Júnior, jornalista aposentado de 76 anos e membro do projeto desde 2009, os encontros com os jovens são como uma “reciclagem”, em que é possível também se atualizar sobre as novidades tecnológicas. Ele defende que a iniciativa seja expandida para escolas públicas e outros centros educacionais.

A coordenadora do Estação Memória, Ivete Pieruccini, destaca que o projeto une informação e educação, com a proposta de manter viva nos mais novos a memória das gerações mais velhas. “A cultura estará perdida se não formos capazes de mantê-la. O velho é uma fonte de informações fantásticas. Por que não educamos e formamos os jovens para valorizarem essa fonte de memória viva?”

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