Arquivo pessoal
Sylvette Laniado, de 77 anos, que está tomando providências para evitar contágio de covid-19. Arquivo pessoal

Idosos e coronavírus: quando a idade e a ameaça viral causam ansiedade e sofrimento

Saber que faz parte do grupo de risco pode ser angustiante para parcela da população

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 14h00

Há pouco mais de duas semanas, quando o surto de coronavírus atingia em cheio a Itália, o maior número de casos de morte eram registrados na população idosa. Não é à toa que este foi considerado um dos grupos de risco para a covid-19. No Brasil, muita gente acabou subestimando a disseminação do vírus e tentou minimizar os efeitos considerando que a doença “só era mais grave para grupos de risco”.


O psiquiatra Ricardo Abel Evangelista avalia: “No caso de comentários assim serem feitos com seriedade, isso certamente apontaria para uma visão de mundo egoísta e com elevado grau de insensibilidade ao sofrimento do outro, afinal não apenas quem morre da doença sofreu, mas também todos os entes próximos que ficam vivos sentem a perda irreparável” analisa.

Atualmente, o indivíduo chega aos 60 anos de idade com uma certa vitalidade e disposição para realizar as mais diversas atividades. Deixar de fazer essas tarefas e serem obrigados a ficar em quarentena não é fácil.

Sylvette Laniado, de 77 anos, está angustiada e apreensiva com a atual situação. “Rezo para não pegar esta doença viral. No momento, trabalho a minha mente para não me deixar influenciar pela enxurrada de noticiário pessimista”, relata ao responder para a reportagem do Estado pelo celular. 

Sobre aqueles que minimizam a situação, a aposentada dá um recado: “Estamos no mesmo barco planetário. Eu sou idosa, mas acho que alguns jovens, dependendo da educação recebida, estão mais conscientes que podem representar um perigo para outros e se importar com seu semelhante. Infelizmente também já houve casos de jovens partirem”.

Para ocupar o tempo durante a quarentena preventiva, Sylvette pretende organizar atividades que não a coloquem em risco. “Continuar o máximo que eu puder as minhas atividades de forma virtual, ler, organizar as minhas gavetas e pensamentos, sem esquecer do nosso amigo IR (Imposto de Renda) que deverá ser apresentado e assim por diante. Ah, e sem esquecer os exercícios físicos para manter a saúde”, conclui. 

O medo, por si só, não é uma emoção ruim. Em todas as espécies, ele tem a função de preservação da vida. E não é diferente com os humanos, como pondera o psiquiatra Ricardo Abel Evangelista. “Na dose certa, o medo é protetivo pois faz com que o indivíduo adote comportamentos que evitem a exposição ao risco de lesão ou de morte. Contudo, este sentimento pode se tornar excessivo (medo patológico) e aí o sofrimento psíquico e ansiedade são constantes”, afirma.

Os idosos podem se sentir mais angustiados por causa do avanço da covid-19, com problemas para dormir, dificuldades para relaxar, pensamentos prevalentes monotemáticos e até outros sintomas físicos. 

Idoso pode adoecer por excesso de informações?

Com o isolamento, muitos idosos podem se tornar reféns de todo o tipo de informações, via internet, redes sociais, televisão e rádio. Até que ponto isso pode ser prejudicial? Para o psiquiatra Ricardo Abel Evangelista, que é especialista em idosos, acompanhar as notícias é importante, mas é preciso cautela.

“Caso a busca por informações se torne algo excessivo, uma verdadeira obsessão, este comportamento pode facilmente alimentar uma espiral ascendente de ansiedade e tensão. Apesar de parecer que a prevenção para tal cenário seja então promover uma alienação dos fatos, isto seria igualmente problemático, pois aí o idoso não teria as informações essenciais para que ele adote as necessárias medidas preventivas contra o contágio pelo vírus”, diz. 

Assim, quem está na terceira idade deve se informar o suficiente para entender o que está acontecendo e quais as orientações das autoridades de saúde. Evitar os sensacionalismos sempre é boa prática. 

Dica para os idosos durante a quarentena

Apesar de totalmente justificada, desta restrição de convívio pode derivar sentimento de insegurança e solidão. Da solidão, sentimentos de tristeza. 

Manter a comunicação viva por meio de telefonemas, mensagens de texto ou por vídeo-chamadas pode amenizar essas sensações muito paliativamente, mas é o que agora é o mais sensato a se fazer.

No cenário de epidemia, as pessoas têm suas rotinas e hábitos sociais drasticamente afetados como cumprimentar com as mãos, dar beijos, abraços e fazer visitas precisam ser evitados. 

“São costumes validados culturalmente e ter que suspendê-los pode ser muito estranho para a maioria das pessoas. No caso dos idosos, estes frequentemente estão aposentados e têm rotinas restritas, muitas vezes voltadas para os costumes da família como as habituais visitas para conversar, conviver, ver os netos. Infelizmente, tudo isso deve ser evitado já que os jovens podem mascarar sintomas da infecção e servir de veículo do vírus para os mais velhos, que são mais vulneráveis”, ressalta o psiquiatra Ricardo Abel Evangelista. 

Gabriel Abuhad tem 88 anos de idade e está ansioso com a atual situação de pandemia. Em quarentena voluntária, ele praticamente não está saindo na rua. “Impaciente, pois estou seguindo as recomendações de cautela para idosos e quase não saio de casa. Vou ficar em quarentena e usar o tempo para exercício físico em casa, tocar bandolim, fazer sudoku no celular/computador, ler , assistir noticiário e filmes na TV”, conclui.

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Paciente que morreu por coronavírus em SP não estava em lista de casos confirmados

Governo de São Paulo só confirmou covid-19 em vítima um dia após a morte; equipe estadual estuda ampliar testes

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2020 | 17h19
Atualizado 03 de abril de 2020 | 18h22

SÃO PAULO – A primeira morte pelo novo coronavírus no Brasil foi de uma pessoa que estava fora da contagem oficial de infectados, que é informada diariamente pelo Ministério da Saúde. O governo de São Paulo, que assim como os demais Estados repassa a Brasília os dados locais, não tinha confirmado a contaminação do paciente até as 10h30 desta terça-feira, 17.

O óbito ocorreu na segunda, 16. A Secretaria Estadual da Saúde, agora, diz que estuda formas de ampliar os centros de diagnóstico para mapear melhor o crescimento do surto de coronavírus no Brasil. 

A vítima, um paulistano que não havia viajado para o exterior, ficou seis dias internado em um hospital de uma rede particular de São Paulo. O resultado do teste só foi recebido após o óbito. Essa rede teve mais quatro mortes em que há suspeita de infecção pelo novo coronavírus. 

De acordo com informações divulgadas pelo jornal O Globo, parentes da vítima também apresentaram sintomas semelhantes aos do coronavírus, mas ainda não foram submetidos ao teste. Segundo a reportagem, a vítima teve convívio próximo com o pai, de 83 anos, a mãe, de 82, o irmão, de 61, e duas irmãs, de 60 e 55.

O irmão disse que procurou atendimento e pediu pelo teste, mas disseram que não tinha. Agora, ele está evitando sair de casa. Uma das irmãs chamou o Samu e teria sido internada, segundo relato dos parentes à reportagem. "A gente tentando sempre tomar cuidado, indo no médico direto. Agora não sei mais o que vai ser. Pegou uma família inteira. Estamos na mão de Deus", disse o irmão da vítima. 

Sem exames em massa, que é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), o governo de São Paulo não tem o dado exato de quantos pacientes em estado grave (com risco de morte) estão internados no Estado neste momento.

Até esta terça-feira, o País tinha 291 casos confirmados de coronavírus, segundo o Ministério da Saúde. Em São Paulo, há 162 casos confirmados, mas não há dado exato sobre quantos correm risco de morrer. A estimativa das autoridades, baseada em pesquisas já publicadas sobre o coronavírus, é de que 8% dos pacientes infectados evoluam para estado grave, segundo o infectologista David Uip, que coordena a equipe de combate à pandemia no Estado. 

Até segunda-feira, Uip se mostrava contrário à ampliação dos exames, dizendo que a massificação de testes era “ideal”, mas não “real”. Ontem, ele disse que seu grupo de trabalho irá fazer a recomendação ao governador João Doria (PSDB) para ampliação do centro de diagnóstico do Estado. 

Uip disse que há “a missão de arquitetar essa possibilidade de ampliação dos centros de diagnóstico em todo o Estado” para, depois, buscar recursos para operá-lo. “Vamos aguardar também a orientação do Ministério da Saúde, que é o órgão maior que deve fazer a política e disponibilizar recursos”, disse Uip.

O secretário estadual da Saúde, José Henrique Germann, também sinalizou nesse sentido. “Entendemos que é adequado tentar ampliar os centros de diagnóstico”. Ele destacou, entretanto, que o centro de diagnósticos público não é voltado para análises e entregas de resultados individuais para pacientes, mas sim para orientar com dados as políticas públicas. 

“O laboratório de saúde público tem que ampliar a sua rede mas a finalidade dele é ampliar a vigilância para o controle da epidemia. Nós já temos informação suficiente para ver que a epidemia está subindo rapidamente, os números crescem a cada dia”, disse o coordenador do Centro de Doenças (CCD) de São Paulo, Paulo Menezes. 

Nesta segunda, depois da orientação da OMS sobre massificação dos testes, o Ministério da Saúde já havia sinalizado a possibilidade de ampliar os exames, embora sem ações concretas. O entendimento anterior era que os exames em pacientes internados só deveriam ser feitos até a constatação de transmissão comunitária (quando o vírus já circula em determinada região). Constatada essa transmissão, segundo o ministério, já não haveria sentido em testar todo caso suspeito, pois já se saberia da circulação do vírus no território, o que seria o fator determinante para o planejamento das ações públicas. 

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Uma das vítimas mais jovens do coronavírus na Itália era operador do serviço de ambulâncias

Segundo jornal italiano, Diego Bianco, de 46 anos, atendia às ligações que chegavam em uma central de Bérgamo; jornada desses trabalhadores torna-se cada vez mais exaustiva

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2020 | 14h30

O italiano Diego Bianco, de 46 anos, tornou-se uma das vítimas mais jovens do coronavírus no País. Ele trabalhava como operador em um serviço de ambulâncias na Itália. Conforme relatou o jornal local Corriere Della Sera, ele passou as últimas semanas "em turnos estressantes" no telefone em uma central de Bérgamo para lidar com a onda da covid-19 que já matou mais de duas mil pessoas no País.

De acordo com o jornal, ele começou a vida trabalhando como motorista de ambulância em uma casa de repouso com o pai. Depois, desempenhou o papel de socorrista a bordo de ambulâncias nos hospitais de  Seriate e Treviglio. Quando foi organizado o serviço regional de emergência, Bianco foi uma das primeiras pessoas a ser contratada, em 2011. “Ele sempre foi muito calmo, mesmo em emergências”, lembra Oliviero Valoti, chefe do serviço à época.

Diego não foi o único a ser atingido pela doença no ambiente de trabalho. Quando ele começou a ter febre alta, de 39 graus, em 7 de março, dezenas de colegas já tinham sido infectados. No mesmo dia em que apresentou os sintomas, outros oito operadores, seis enfermeiras e quatro médicos foram enviados para casa em isolamento. Os demais foram transferidos para Milão e o local onde Bianco trabalhava foi totalmente higienizado.

Ele faleceu na manhã de 13 de março na casa onde morava com a esposa e o filho de oito anos. Segundo os colegas relataram ao Corriere Della Sera, Bianco acreditava que iria se recuperar. Ele mantinha o otimismo, mas tinha medo de deixar sua família. Diego Bianco morreu antes de receber o teste que confirmou a infecção por coronavírus.

Rotina exaustiva

Raniero Frizzini, diretor do centro operacional de ambulâncias de Bérgamo, onde Diego trabalhava, contou ao Corriere que todos os dias são classificados até 1.300 pedidos de ajuda. Para dar conta do trabalho, parte das chamadas são enviadas a outras províncias conectadas. Na região de Bérgamo, as 70 ambulâncias já não davam conta da demanda e outras 40 foram enviadas.

No lugar onde Diego atendia, existem 80 operadores que se alternam em três turnos. "Mas há pessoas que fazem turnos duplos, que pulam dias de folga. Não tenho mais palavras para agradecer a todos os operadores pelas horas extras que realizam”, declarou Frizzini ao jornal italiano.

Cada operador recebe entre 70 e 80 ligações por dia. "Para todos nós, esse é um esforço mais psicológico do que físico. Estamos acostumados a combater doenças e emergências, mas ninguém experimentou isso. Em um determinado momento, parece que as chamadas se acalmam, mas tudo começa novamente. É ainda pior quando você percebe por telefone que o paciente está ficando fora de controle", contou o diretor ao Corriere Della Sera. "E, ao final do dia, a angústia é realmente grande para todos", finalizou.

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