Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Idosos resistem a trocar favelas por hotéis para evitar covid-19

Apenas 11 pessoas aceitaram este tipo de acolhimento até agora, que disponibilizou mais de mil vagas espalhadas por 20 locais

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 08h06

A Prefeitura do Rio anunciou, no início da crise do coronavírus, um projeto que busca hospedar idosos moradores de favelas em hotéis. A ideia é tirar os integrantes de grupos de risco dos locais mais suscetíveis à infecção, dadas as condições sanitárias e de aglomeração das comunidades. Até esta quarta-feira, 1º, contudo, apenas 11 idosos aceitaram o acolhimento. Ao todo, mil vagas estão reservadas em 20 hotéis para essas pessoas.

O trabalho de acolhimento é feito pelos agentes de saúde que trabalham nas comunidades. A missão, no entanto, tem se revelado desafiadora. O baixo número de recrutados elucida a dificuldade que esses idosos têm de sair de seus lares e da rotina à qual já estão acostumados.

“As casas nas comunidades não costumam ser muito grandes, então não dá para deixar um quarto isolado para o idoso. As casas também são muito coladas umas nas outras. Queremos oferecer um espaço para ele ficar isolado”, diz a secretária municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Tia Ju. Ela lembra que, mesmo que não saia de casa, o idoso pode ter contato com outros integrantes da família que vão às ruas para trabalhar ou fazer compras, por exemplo.

Os 11 primeiros acolhidos são do Vidigal, favela na zona sul - área da cidade em que há o maior número de casos da covid-19. Agora, o processo passa a ter como foco a Rocinha, também na zona sul, onde há inclusive uma morte com suspeita da doença. O caso está em análise. Quatro idosos da comunidade, onde moram cerca de 100 mil pessoas, já teriam manifestado interesse no acolhimento.

Esses idosos são selecionados pelos médicos locais com base nas chances que têm de integrarem grupos de risco. Se um idoso já é conhecido na Clínica da Família por problemas respiratórios, por exemplo, ele passa a ser um possível escolhido para ir a um dos hotéis. A diária de R$ 120 é bancada pela Prefeitura.

Enquanto o projeto dos hotéis ainda se inicia, a Prefeitura considera bem sucedida outra ação de acolhimento, voltada para os moradores de rua. Foi inaugurado nesta semana no Sambódromo um abrigo que pode acolher até 400 pessoas. A primeira leva tinha 60 acolhidos, capacidade inicial máxima. Até a próxima segunda-feira, 6, segundo o município, chegam mais 60, e o número vai aumentando.  

O local, dividido em quartos de quatro camas, funciona no Centro Integrado de Educação Pública (CIEP) que existe sob as arquibancadas do Sambódromo - um projeto de 1984 do antropólogo Darcy Ribeiro, quando era vice-governador do Rio. A arquitetura daquele espaço, planejada por Oscar Niemeyer, trazia embutido esse papel social, simbolizado pela escola.

Além desse abrigo principal, está sendo construído um espaço menor no Santo Cristo, também no Centro da cidade, para acolher 100 homens em situação de rua. Ainda não há uma data exata para a inauguração dos alojamentos, mas na próxima semana já devem ser inaugurados alguns espaços de higiene no local. Neles, os acolhidos poderão lavar as mãos, tomar banho e trocar de roupa, por exemplo.

Outro abrigo seria construído em Honório Gurgel, na zona norte, mas problemas de segurança inviabilizaram o espaço. Foi encontrado, então, um terreno grande em Jacarepaguá, na zona oeste, cuja capacidade ainda não foi estimada.

A população em situação de rua no Rio é visivelmente enorme - e parece crescer a cada dia nas ruas do Centro. Segundo a Prefeitura, que diz não saber o número exato dessa camada de moradores da cidade, 3.400 pessoas já estão acolhidas em abrigos regulares. Com os construídos no âmbito da crise do coronavírus, a expectativa é de que mais 600 pessoas sejam protegidas.

Um levantamento feito no ano passado pela Defensoria Pública estimou em 15 mil o número de pessoas que vivem sem teto na cidade.

Além dos abrigos construídos, foram disponibilizados dois hotéis populares para os moradores de rua. Um deles tem 60 vagas para idosos; o outro, 55 para mulheres, inclusive transexuais.

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