Gabriela Valença/Arquivo pessoal
Gabriela Valença/Arquivo pessoal

Idosos respeitam isolamento e contato com a família afasta solidão, aponta pesquisa

Pesquisa do USP, InCor, HCor e ICESP mostra que no cenário de pandemia, 95,2% dos idosos reduziram as saídas de casa, mas apenas 5,3% disseram sentir solidão; levantamento também indica que eles estão mais sedentários na quarentena

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 11h00

Primeiros a serem citados como grupo de risco para o novo coronavírus, os idosos logo se viram na necessidade de se isolar para evitar a infecção por uma doença que poderia ser fatal. Assim, Orfeu, de 90 anos, deixou de fazer caminhadas à beira-mar. Norma, de 81 anos, só sai de casa para ir ao médico. No entanto, mesmo com a rotina alterada, eles não se sentem sozinhos e reproduzem o perfil encontrado por uma pesquisa realizada por quatro centros com serviço de geriatria que apontou que 95,2% dos idosos reduziram as saídas de casa, mas apenas 5,3% relataram sentir solidão.

Desde abril, os 557 participantes da pesquisa, que têm entre 60 e 100 anos, começaram a ser entrevistados por telefone para um levantamento que vai durar seis meses. Perguntas sobre medidas de prevenção adotadas, frequência de saídas, recursos de comunicação usados para falar com parentes e amigos, atividade física e saúde mental foram feitas no estudo. As conversas duram de 20 a 30 minutos.

"Quando começou a quarentena, a gente começou a receber muitas ligações dos pacientes, era muita ansiedade e percebemos que não ia ser fácil. Esperávamos um cenário muito mais difícil, mas eles estão aderindo bem às recomendações. Os idosos que relatam impacto são os que tinham vida muito ativa, com rotina na rua e atividades. No entanto, quando olhamos a escala de solidão, ela está em níveis baixos. O que eles falam é que recebem ligações todos os dias, que estão se sentindo mais acolhidos do que eram antes. Houve uma conscientização das famílias de que é uma população vulnerável", explica Daniel Apolinário, geriatra do HCor e um dos coordenadores do estudo, conduzido pelo serviço de geriatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), pela unidade de cardiogeriatria do Instituto do Coração (InCor), pelo Hospital do Coração (HCor) e pelo serviço de oncogeriatria do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP).

O aposentado Orfeu Muriccone, de 90 anos, aderiu ao isolamento social, mas não deixou de manter contato com as pessoas. Por telefone, fala diariamente com as duas filhas, uma mora em Sorocaba e outra, na capital. No prédio onde mora, na Praia Grande, no litoral sul paulista, interage com os vizinhos por meio dos quitutes que prepara. "Gosto de mexer na cozinha e eu sei cozinhar. Faço bolo, docinhos, pão. Quando faço, deixo na maçaneta da porta em um saquinho. Estou fechado em casa, mas tenho muita liberdade com o pessoal do prédio."

Antes da pandemia, ele costumava caminhar na orla, fazia pilates e fisioterapia. O aposentado tem enfisema pulmonar e problemas cardíacos. Com a disseminação do vírus e a necessidade de se isolar, ele tem ocupado o tempo com jogos no computador, vendo televisão e mantendo contato com os familiares e amigos. "Com essa doença, não me preocupei comigo. O problema seria eu pegar e levar para os outros. Em uma ocasião, pensei que estava me dando sentimento de solidão, mas faço uma coisa, faço outra. A tristeza não me pegou."

A redução da prática de atividades físicas foi um dado que preocupou o grupo de pesquisadores. De acordo com o estudo, 57,8% dos idosos afirmaram que, em fevereiro, não faziam exercícios. Em abril, 72,8% afirmaram que estavam sedentários e o índice subiu para 77,8% em junho. Entre os ativos, 17,2% afirmaram que se exercitavam antes da quarentena. O número passou para 9,2% em abril e atingiu 4,5% em junho.

"Teve uma queda violenta de níveis de atividade física e essa é uma preocupação em longo prazo. O exercício faz muita falta, porque o idoso perde massa muscular, pode sofrer uma queda, tem impacto em tudo na saúde. Como é uma população de alto risco, ainda vai ficar muito tempo em quarentena. Eles foram os primeiros a entrar e devem ser os últimos a sair", diz Apolinário. O grupo, além de fazer o estudo, oferece orientações de saúde e exercícios.

Também chamou atenção a ansiedade dos participantes. "A taxa de ansiedade é relativamente alta. Em geral, nos estudos, ansiedade e depressão têm prevalência semelhante. Aqui, a taxa de ansiedade é quase o dobro da de depressão e ela foi tendo padrões diferentes. No começo, eles tinham medo de se infectar, teve a preocupação com a situação do desemprego. A  ansiedade aparece mais rápido quando tem um fator estressante." Em abril, 17% relataram ansiedade e o número chegou a 19,5% em maio. Em junho, caiu para 14,9%. No caso da depressão, os índices foram 8,5%, 11,9% e 9%, respectivamente. Já de solidão, foram 15,4%, 7% e 5,3%.

A dona de casa Norma Alvarenga Peixoto da Costa Lobo, de 81 anos, se classifica como uma "mulher biônica". Com problemas cardiovasculares, ela tem nove stents, mas isso não a impedia de ter uma vida ativa. Tinha o hábito de viajar com um grupo de amigas e fazia ginástica. "Fazia exercício, ia andar no parque, mas eu gostava mesmo era dos bailes da terceira idade. Aí, veio a pandemia e parou tudo."

Norma mora com duas filhas e as regras ficaram rígidas em casa. "São as duas coronéis. Ela me levam para o médico de carro e só sento atrás para manter a distância. Elas andam de máscara o tempo inteiro. Quando saem, já tomam banho e colocam a máscara. Elas não querem que a mãe vá embora." O terceiro filho mora em outro bairro e o contato é feito pela internet.

Às vezes, ela sente falta dos abraços que recebia das filhas nas primeiras horas da manhã. "Uma acordava e ia na minha cama, ficávamos juntinhas. Não pode mais dar beijinho. Agora, de vez em quando, eu digo que elas são as minhas fantasminhas. Elas colocam máscara, se cobrem com lençol, e a gente fica mais perto." Formada em psicologia, Norma diz que não se deixa abalar com o isolamento nem com a pandemia. "Eu aceito tudo que vem. Não vou entrar em desespero nem em depressão."

Três perguntas para

Wilson Jacob Filho, professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)

Quais são os impactos da pandemia para os idosos?

Desde o início da pandemia, os idosos foram apontados como grupo de risco. Esse risco rapidamente se transformou em preocupações: de proteger os idosos, cuidar para que eles tivessem atendimento conforme suas necessidades e de deixá-los isolados para que as chances de ter a doença fossem reduzidas. Infelizmente, isso vai na contramão de tudo que foi feito para incluir os idosos na comunidade. Nos últimos 40 anos, a geriatria e a gerontologia modernas lutaram para inseri-los no ambiente coletivo, para que eles tivessem direito a participar das atividades profissionais, com as adaptações com corrimão e rampas, estímulo à sexualidade e para eles deixarem de ser uma figura caricata nos programas humorísticos. É preciso protegê-los, mas tem um impacto na contribuição dos idosos para a sociedade.

Na pesquisa, os idosos relataram que, com a atenção que têm recebido, não se sentem tão solitários. Qual a avaliação do senhor sobre isso?

São mais de 500 participantes e foram detectadas pessoas com forte tendência para depressão e solidão. Não é maioria, mas não é desprezível. Sabemos que os distúrbios de humor estão mais mais aflorados. A pandemia mantém o idoso em casa, não é possível levar o neto para vê-lo. Não pode fazer um exercício fora de casa.

Como a família pode ajudar diante desta situação?

Com telefonema, videochamada ou um contato que não permita o contágio, como levar cartazes. Todas essas formas de diferenciação do contato têm importância para os dois lados. Muitos filhos acompanhavam os pais na missa. Será que não dá para ver pela televisão e ligar para comentar? Ou conversar sobre a novela ou algum programa que o idoso gosta? Há uma restrição de ambiente, não de sensibilidade. Não sabemos como será o novo normal. Aos poucos, vamos ter certa liberdade, mas temos de aprender outras formas de relacionamento. A ausência de comunicação gera o verdadeiro isolamento. Estamos distantes, mas não estamos isolados.

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