Frank Augstein/ AP Photo
Frank Augstein/ AP Photo

Impacto das novas variantes sobre vacinas ainda é incerto, dizem especialistas

Como o surgimento dessas cepas é recente, não foi possível realizar grandes estudos para assegurar de que forma essas mutações afetam os imunizantes

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2021 | 09h00

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, afirmou nesta sexta-feira, 22, que a nova variante inglesa do coronavírus pode ser, além de mais contagiosa, mais letal. Ele ressaltou, porém, que evidências mostraram que as vacinas em uso no país (Pfizer e Oxford/AstraZeneca) são eficazes contra a variante.

O impacto dessa e de outras variantes sobre a ação das vacinas ainda é incerto, segundo cientistas brasileiros ouvidos pelo Estadão. Como o surgimento dessas cepas é recente, não foi possível realizar grandes estudos para assegurar de que forma essas mutações afetam os imunizantes.

Além da variante britânica, preocupa o avanço de cepas identificadas na África do Sul e em Manaus. Todas elas compartilham a mutação N501Y, na proteína spike do vírus, responsável por entrar nas células humanas. Estudos preliminares feitos pela Pfizer mostraram que o imunizante da empresa foi capaz de neutralizar a nova variante britânica.

As variantes sul-africana e brasileira, porém, têm outra mutação (E484K), também na proteína spike, associada a um escape de anticorpos. Uma pesquisa da Universidade Rockfeller (EUA) publicada na terça-feira (ainda sem revisão de pares) mostrou que as vacinas da Pfizer e da Moderna podem ter sua eficácia reduzida por essas variantes, mas não a ponto de invalidar o produto. “Apesar da ação neutralizante dos anticorpos ter diminuído, ele ficou acima do necessário para proteger alguém da doença. Mas fica o alerta: já temos variantes capazes de diminuir a capacidade das vacinas. Não podemos deixar o vírus circular livremente”, diz a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19.

Cientistas sul-africanos realizaram também um experimento para avaliar o comportamento da nova variante identificada no País em pessoas que já tinham sido infectadas pelo coronavírus. Elas expuseram a nova variante ao plasma sanguíneo desses pacientes recuperados e viram que, em 90% dos casos, os anticorpos formados na primeira infecção não foram capazes de combater a nova variante. "Mas isso não quer dizer que acontecerá o mesmo com as vacinas, pois os anticorpos produzidos são mais abrangentes", explica Mellanie.

A coordenadora dos centros de pesquisa da vacina de Oxford no Brasil, Sue Ann Costa Clemens, diz que novos estudos sobre a eficácia da vacina contra as cepas britânica e sul-africana sairão no início de fevereiro. “Quanto à variante de Manaus, já estamos conversando com a Fiocruz e o Ministério da Saúde para pegar uma amostra para enviar para Oxford, sequenciar e avaliar a eficácia”.

O Instituto Butantan foi questionado sobre possíveis estudos para avaliar a eficácia da Coronavac contra as novas variantes, mas não respondeu.

O Ministério da Saúde informou que já detectou, na Bahia, um caso de reinfecção pela variante sul-africana e que tem o registro de ao menos 20 pacientes infectados pela nova cepa brasileira em Manaus. Também houve, no Estado de São Paulo, a identificação de pacientes infectados com a variante britânica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.