Dado Galdieri/New York Times
Dado Galdieri/New York Times

Imunes ao coronavírus em março, bairros pobres do Rio entram no topo dos mais afetados em abril

No fim de março, concentração de casos de covid-19 ainda estava nas áreas ricas da cidade; agora, bairros pobres e favelas registram explosão de casos

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2020 | 10h02

Quando o mês de março acabou, o mapa do Rio com os casos confirmados do novo coronavírus ainda mostrava uma concentração nas áreas ricas da cidade - poucos pontos ilustravam o início da expansão da doença pela capital fluminense. Ao fim de abril, no entanto, o que se vê é um mapa todo pintado, no qual bairros pobres e favelas já estão tomados pela covid-19. Tudo isso com dados "protegidos" pela subnotificação. Os números reais, segundo o próprio governo, seriam quinze vezes o atual.

Apesar de a Barra da Tijuca, onde a renda per capita é de R$ 4,3 mil, ainda ser o bairro com o maior número de casos confirmados, regiões mais pobres já ocupam pelo menos quatro posições na lista das dez mais afetadas. No caso de bairros com o maior número de óbitos, essas áreas com renda per capita e padrão de vida baixos já são maioria. O dado mostra como a letalidade do vírus pode ser maior em locais com piores condições para seus moradores.

Bairro mais populoso do Rio, Campo Grande, na zona oeste, somava menos de dez casos quando março acabou. Veio abril e, com ele, a explosão de infectados, que já são 201 - com 30 mortes. Os números o inserem na terceira posição na lista de mais contaminados e na primeira, empatado com Copacabana, na dos que mais perderam vidas para a covid-19. Em Campo Grande, segundo o Censo 2010 do IBGE, a renda média da população é de R$ 737, quase um sexto da dos moradores da Barra, que fica na parte rica da mesma zona da cidade.

Destaca-se o fato de os moradores de Campo Grande serem os que mais continuam promovendo aglomerações. De acordo com a Secretaria Municipal de Ordem Pública, o bairro lidera com folga o ranking de atendimentos do Disk Aglomerações, serviço lançado pela Prefeitura para que os cariocas denunciem grupos reunidos nas ruas. Em um mês de funcionamento, as chamadas do bairro corresponderam a 22% do total.

Foi lá que, no dia 16 de abril, um "drone falante" do Executivo carioca chegou para alertar sobre as aglomerações. Foi pior: devido ao método peculiar, provocou ele próprio uma nova aglomeração de curiosos.

Além de Campo Grande, outros bairros pobres da zona oeste, como Realengo, Bangu e Santa Cruz, também já têm mais de 15 mortes cada. E são justamente os três que sucedem o vizinho no ranking das áreas com mais denúncias de aglomeração, Em Santa Cruz, onde a renda per capita é de R$ 448, um a cada quatro infectados confirmados não resistiu à doença.

Para além de bairros populosos afastados do Centro, as favelas do Rio - símbolo da desigualdade que marca a cidade - também enfrentam situação delicada com o novo coronavírus. Maior comunidade carioca, a Rocinha, na zona sul, é a mais afetada, segundo os dados oficiais. Lá já são 71 contaminados e oito mortos.

Pessoas como Eliane Farias, contudo, não aparecem nas estatísticas. Aos 38 anos, a babá moradora da Rocinha teve febre e falta de ar, o que a levou a um posto de Saúde próximo à comunidade. De lá, mandaram Eliane para a UPA do Complexo do Alemão, favela da zona norte a cerca de 26 quilômetros de onde ela mora.

“Era só lá que tinha vaga”, conta.

Na Unidade de Pronto Atendimento, Eliane respirou com ajuda de oxigênio ao longo do dia e fez um exame de raio-x. Antes do resultado, porém, ela foi liberada - mesmo com suspeita de coronavírus. Teve que voltar sozinha, de ônibus, para casa. Só dias depois, quando estava isolada em casa, recebeu a ligação com a confirmação de que o exame indicava que ela havia contraído a covid-19. Eliane passou 20 dias em casa e se recuperou na última semana.

“A situação na Rocinha está muito triste. Na localidade em que moro, tem muita gente com sintomas. Você olha para o lado e está todo mundo falando que tem dor, com febre. Já perdemos um vizinho, foi enterrado anteontem (terça-feira). Era um rapaz novo, saudável”, diz a babá, que acredita haver um subnotificação enorme no número de casos na comunidade.

Preocupada com os riscos da pandemia na favela, a moradora Grécia Valente, que desfila no bloco de Carnaval Ai Que Vergonha, criou o Ai Que Vergonha Solidário. O objetivo é distribuir kits de higiene e de alimentação básica para moradores. Já foram entregues, em cinco semanas, 640 deles. Os materiais incluem álcool em gel, arroz, feijão, macarrão e extrato de tomate, por exemplo. É tudo comprado semanalmente, com o dinheiro de doações.

Para Grécia, a subnotificação é evidente. Com muitos conhecidos infectados, ela percebe que os moradores da Rocinha começam a dar a devida importância à pandemia.

“As pessoas só estão levando a sério quando é um vizinho de porta que pega a doença. Porque quando não é vizinho, não tem dimensão. Estão tendo o maior cuidado. Conheço famílias inteiras que estão infectadas”, aponta.

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