Sergio Perez/Reuters
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Imunoterapia pode ser próximo grande tratamento para covid-19

Empresas farmacêuticas estão trabalhando na testagem e desenvolvimento de anticorpos em laboratório, que podem funcionar para prevenção da doença

Deena Beasley, Reuters

03 de agosto de 2020 | 17h50

Enquanto o mundo espera uma vacina contra a covid-19, o próximo grande avanço no combate à pandemia pode vir de uma terapia bastante usada no tratamento de câncer e outras doenças - anticorpos fabricados em laboratório especialmente para atacar esse novo vírus. Os testes, no entanto, podem demorar meses ou anos.

O desenvolvimento dos chamados anticorpos monoclonais para atingir o coronavírus têm sido endossado por vários cientistas. O imunologista e diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci, chamou o método  de "uma aposta quase certa" contra a doença.

Quando um vírus ultrapassa as defesas iniciais do corpo, um tipo mais específico de resposta imunológica aparece, iniciando a produção de células para lidar com o invasor. Isso inclui anticorpos que reconhecem e bloqueiam o vírus, prevenindo que a infecção se espalhe. Anticorpos monoclonais - produzidos em laboratório - são cópias dessas proteínas naturalmente feitas pelo corpo. 

Cientistas ainda estão pesquisando qual é o papel exato dos anticorpos neutralizadores na recuperação da covid-19, mas empresas farmacêuticas estão confiantes que os anticorpos - ou uma combinação eles - podem alterar o curso da doença que já causou 680 mil mortes no mundo.

A farmacêutica Regeneron está testando um coquetel de dois anticorpos que, acredita-se, pode limitar a habilidade de um vírus se espalhar melhor que um único anticorpo. Os resultados sobre a eficácia são esperados para setembro ou outubro.” A proteção diminuirá com o tempo. Ainda não sabemos sobre a dosagem necessária", disse Christos Kyratsous, executivo da empresa.

Em junho, o governo dos EUA fechou contrato para fornecimento de US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões) com a Regeneron. A farmacêutica declarou que pode começar a produção do coquetel em sua fábrica nos Estados Unidos assim que os reguladores aprovarem o tratamento.

Os laboratórios Eli Lilly, AstraZeneca, Amgen e GlaxoSmithKline (GSK) foram liberados pelo governo norte-americano para reunir recursos e escalar a produção de suprimentos, caso algum desses medicamentos se prove eficaz.

Mesmo com essa cooperação incomum entre concorrentes, fabricar esses tratamentos é complexo e tem capacidade limitada. Existe também um debate sobre se um único anticorpo será o suficiente para tratar a covid-19. 

A AstraZeneca disse que planeja iniciar testes em humanos de sua combinação de anticorpos em semanas. A Eli Lilly, que iniciou ensaios de dois anticorpos separadamente em junho, concentra-se no tratamento com um único tipo de célula.

“Se forem necessários uma dosagem maior ou mais anticorpos, menos pessoas poderão ser tratadas”, afirmou Dan Skovronsky, diretor científico da Lilly.

 

‘Imunidade instantânea’

Diferentemente de vacinas, que ativam a resposta imunológica do próprio corpo, o impacto da infusão de anticorpos eventualmente se dissipa.

Mesmo assim, farmacêuticas afirmam que anticorpos monoclonais podem prevenir infecções temporariamente entre pessoas dos grupos de risco, como idosos e profissionais de saúde. O tratamento também pode ser uma ponte até que as vacinas estejam disponíveis para aplicação em massa.

“Se usados para fins preventivos, acreditamos que podemos atingir uma durabilidade de até seis meses”, disse Phil Pang, diretor médico da Vir Biotechnology, que espera iniciar o teste com anticorpos em pacientes não-hospitalizados em setembro, com a empresa parceira GSK.

“A vantagem de um anticorpo é que este é basicamente uma imunidade instantânea”, disse Mark Brunswick, vice-presidente sênior da Sorrento Therapeutics, que visa iniciar os ensaios clínicos no próximo mês de seu medicamento composto por um único anticorpo.

Os riscos de segurança para esse tipo de tratamento são considerados baixos, mas os valores podem ser bem altos.  Imunoterapia para câncer podem custar mais de U$ 100 mil por ano (R$532 mil).

Também há a preocupação de que o coronavírus pode desenvolver resistência a anticorpos específicos.  Os pesquisadores já estão trabalhando em compostos de segunda geração, que atuem sobre outras partes do vírus, além dos espinhos em formato de coroa que usado para invadir células.

Há também questionamentos sobre em qual momento é melhor empregar esses medicamentos. "Dar um anticorpo após a infecção pode não ser útil, disse Florian Krammer, professor de microbiologia da Escola de Medicina Icahn de Nova York. "Se administrados cedo, eles provavelmente funcionarão bem."

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