Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Fabiana Cambricoli (Texto) e Helvio Romero (Fotos), O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Nos corredores do maior centro de pesquisa e assistência em cardiologia do País, não é incomum ouvir relatos de quem diz ter “renascido” após ser operado no local. Na última década, porém, além de correr contra o tempo diariamente para salvar a vida dos seus pacientes, o Instituto do Coração (Incor) teve de lutar pela própria sobrevivência em uma história que acaba de terminar com final feliz.

No ano em que completou 40 anos, o instituto, vinculado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), finalmente quitou as milionárias dívidas com fornecedores e bancos, colocando, assim, um fim à pior crise de sua história. O pagamento dos últimos débitos ocorreu no fim de 2017 e foi revelado ao Estado neste mês pelo presidente do conselho diretor, o cardiologista Roberto Kalil Filho.

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“O que aconteceu com o Incor foi muito ruim, a ponto de pedirem a insolvência da Fundação Zerbini (instituição que administra os recursos do Incor). Ela estava com dívidas praticamente impagáveis. Mas nesses últimos anos vem sendo feito um trabalho de saneamento. E desde setembro do ano passado a fundação não tem débitos. De uma dívida que, alguns anos atrás, chegava a R$ 464 milhões, hoje não tem. Como se fez isso? Negociando, economizando, fazendo auditorias, pedindo ajuda e conversando com os governos. Todos ajudaram de alguma maneira”, disse.

Diretor-presidente da Fundação Zerbini desde 2012, José Antonio de Lima relembra que as duas principais origens da dívida da entidade foram os custos da construção do bloco 2 do hospital e os investimentos na criação de uma unidade do Incor no Distrito Federal – hoje sob administração de outra entidade. O acúmulo de débitos ainda criou outro problema: a fundação foi colocada no Cadastro de Inadimplentes (Cadin) – o que equivale para as pessoas físicas a ficar “com o nome sujo”. “Uma das consequências é que ficamos fechados para receber emendas parlamentares de 2006 a 2013”, comenta Lima.

Nesse período, o instituto e a fundação também enfrentaram problemas com órgãos fiscalizadores, como o Tribunal de Contas e o Ministério Público. “Além de estarmos no Cadin, o Ministério Público Federal ainda impediu algumas transferências de recursos públicos”, conta José Manoel de Camargo Teixeira, assessor da diretoria executiva.

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Com o plano de reestruturação e a renegociação de dívidas, o instituto foi recuperando, pouco a pouco, a credibilidade. Desde 2014, já “com o nome limpo”, a entidade recebeu cerca de R$ 17,7 milhões só em emendas parlamentares. Com esses e outros recursos que chegam para investimento em melhorias no hospital, o Incor pôde, nos últimos anos, reformar alas de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), inaugurar um novo pronto-socorro e comprar equipamentos mais modernos.

Vice-presidente do Conselho Diretor da instituição, o cirurgião Fábio Jatene afirma que o progresso alcançado nos últimos anos levou a instituição a ter hoje estrutura tão moderna quanto a dos melhores hospitais privados. “Nós temos instalações e equipamentos apropriados para realizar os procedimentos, e acesso às mais modernas tecnologias. Estamos entre os maiores centros transplantadores de coração e pulmão do mundo. Isso caracteriza uma excelência”, destaca. Ao longo dos seus 40 anos, o hospital já fez mais de mil transplantes.

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Para Jatene, o maior desafio agora é ampliar o atendimento a mais pacientes, mesmo com as limitações financeiras comuns a qualquer unidade pública. “O que gostaríamos é que fizéssemos ainda mais. Em vez de realizar procedimentos duas ou três vezes por semana, que realizássemos todos os dias, porque os pacientes necessitam. Isso é o que poderíamos avançar mais ainda.”

Ensino e pesquisa. E não foi só na área de assistência e gestão que o InCor acumulou boas notícias no último ano. Conhecido como um dos maiores centros de ensino e pesquisa em sua área do mundo, a instituição conseguiu nota 7 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior em sua pós-graduação de Cardiologia, o maior conceito de um programa do gênero.

Parceria com o Sírio permite implante de R$ 600 mil

São 7 horas e mais de dez profissionais já ocupam uma das salas de cirurgia do Hospital Sírio-Libanês, unidade privada de excelência, famosa por atender políticos e celebridades em São Paulo. Na maca, nenhum paciente particular ou de convênio, mas sim a empregada doméstica Geni Rosa de Oliveira Silva, de 59 anos, usuária do Sistema Único de Saúde, que, no dia 9 de janeiro, recebeu uma espécie de coração artificial em uma cirurgia acompanhada pelo Estado.

Geni é originalmente paciente do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), mas faz acompanhamento também com a equipe do InCor desde que descobriu que o tratamento quimioterápico de 2015 para um tumor de mama provocou danos em seu coração. “Comecei a tomar remédios para a insuficiência cardíaca, mas, de uns tempos para cá, passei a sentir muito cansaço e os médicos disseram que os remédios não davam mais conta”, contou, um dia antes da cirurgia.

A única chance de sobrevivência para a paciente seria implantar um aparelho que custa cerca de R$ 600 mil, mas que não está disponível na rede pública. A opção por um transplante de coração, geralmente indicado para esses casos, não é viável para Geni porque doentes que tiveram câncer só podem receber um novo órgão cinco anos depois de curados.

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Geni foi transferida para o Sírio-Libanês graças a uma parceria com o Incor. Por meio do projeto de filantropia Coração Novo, o hospital privado arca com as despesas do dispositivo a ser implantado – o aparelho HeartMate 2, que substitui a função de um dos ventrículos do coração, ajudando a bombear o sangue. De acordo com Fábio Jatene, vice-presidente do Incor e cirurgião em ambas as instituições (foi ele quem chefiou a equipe que operou Geni), a parceria entre os dois hospitais é uma forma de oferecer a pacientes do SUS técnicas não cobertas pela rede pública.

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Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Esther tinha apenas 7 dias quando foi levada para um dos centros cirúrgicos do Instituto do Coração (Incor) para passar pelo único procedimento capaz de salvar sua vida. A bebê nasceu com um tipo de cardiopatia congênita que, se não tratada nas primeiras semanas após o nascimento, leva a criança à morte.

O problema não havia sido detectado durante a gestação, o que tornou o susto e o desespero da família ainda maiores no momento do diagnóstico. “A gravidez foi bastante tranquila. Só que, no segundo dia de vida, ela passou mal e ficou toda roxinha. A pediatra a levou para fazer exames e descobriu que nasceu com os vasos sanguíneos invertidos”, conta a mãe de Esther, a recreacionista Yasmin Viana de Oliveira, de 24 anos.

Nesses casos, o recém-nascido precisa passar por uma operação em que as artérias aorta e pulmonar são colocadas na posição correta, permitindo, assim, que o sangue que passa pelo pulmão para ser oxigenado seja distribuído normalmente pelo corpo da criança, incluindo os órgãos vitais.

Moradores de Sumaré, no interior do Estado, os pais da menina foram informados na maternidade onde ocorreu o parto que somente o Incor tinha estrutura adequada e profissionais capacitados para realizar o tipo de cirurgia que a bebê precisava. “O máximo que eles conseguiram em Sumaré foi descobrir o que ela tinha. Ela veio para o Incor com 4 dias, foi reavaliada, prepararam ela e, uma semana depois de nascer, estava na cirurgia. Foi uma angústia porque a operação durou 12 horas, mas, no fim, deu tudo certo”, relembra a mãe.

A técnica. Nos casos como o de Esther, o Incor não se destaca “apenas” por ser capaz de realizar esse tipo de cirurgia. A invenção da técnica, em 1975, também esbarra na história da instituição. Foi o renomado cirurgião Adib Jatene (1929-2014), um dos maiores especialistas que passaram pela instituição, o responsável pela criação do procedimento, conhecido mundialmente como Cirurgia de Jatene. “Até a década de 1960, 90% dos bebês que nasciam com essa cardiopatia morriam no primeiro ano de vida. Hoje é o contrário: 80% a 90% sobrevivem”, relata Filomena Galas, médica supervisora da UTI cirúrgica do Incor, onde a pequena Esther se recuperou antes de ter alta.

Adib Jatene não deixou seu legado apenas na literatura científica. Dois de seus filhos, Fábio e Marcelo, atuam no Incor. O primeiro é vice-presidente do Conselho Diretor e diretor da Divisão de Cirurgia Cardiovascular. Já Marcelo é diretor do Serviço de Cirurgia Cardiovascular Infantil e chefe da equipe que operou a pequena Esther.

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Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Internada há dois meses no Incor, Lorena já é um dos xodós da equipe da UTI pediátrica cirúrgica. Natural de Maceió, a pequena viajou mais de 2.400 quilômetros até a capital paulista com os pais para tratar uma cardiopatia congênita que só será definitivamente curada quando a menina conseguir um novo coração.

Pela gravidade do caso, a bebê de 11 meses é a primeira da lista de espera pelo órgão no Estado de São Paulo. Mesmo internada no maior centro de cardiologia do País, não sobreviveria durante o período em que aguarda o coração se não passasse por uma cirurgia para implantar um equipamento que substitui parte das funções do órgão.

“Em Maceió já sabíamos que era caso de transplante, mas ninguém sabia quando ia realmente precisar. Os médicos de lá e do Recife foram fazendo o tratamento com medicamentos. No início de novembro, ela começou a apresentar vômitos e piorar. Por Deus, eu tinha decidido marcar uma consulta no Incor para avaliação naquela semana, por indicação de uma amiga cuja filha tinha a mesma doença e tinha se tratado aqui”, conta a mãe da menina, a autônoma Larissa Monique Farias da Silva, de 31 anos.

O problema de Lorena foi descoberto aos 6 dias de vida, quando ela apresentou cansaço ao mamar. Naquela data, ela foi levada pelos pais imediatamente para a emergência de um hospital da capital alagoana. Lá, foi diagnosticada com miocardiopatia dilatada, doença rara caracterizada pelo aumento de tamanho dos ventrículos, o que impede o adequado bombeamento do sangue. “É como se o músculo do coração não tivesse se desenvolvido adequadamente”, diz a mãe.

Por causa do agravamento da doença, a menina chegou ao instituto paulista com quadro de desnutrição e bastante debilitada, pesando cerca de 5 quilos. “A médica detectou que o coração dela já estava muito fraco, funcionando só 11%”, relata Larissa.

Como a espera por um coração pode demorar meses e Lorena já estava em um estado crítico, os médicos do Incor decidiram implantar um dispositivo chamado de Berlin Heart, uma espécie de coração artificial externo. Enquanto estiver ligado ao equipamento, a menina terá de permanecer no hospital. “A nossa esperança agora é conseguir logo um doador para a Lorena. Pelo menos sabemos que estão fazendo tudo que é possível pela vida dela. Se eu tivesse ficado na minha cidade, acredito que ela não teria as mesmas condições de tratamento. Talvez nem teríamos mais ela do nosso lado”, comenta a mãe

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Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Dos mais de mil transplantes realizados pelo Incor em 40 anos de história, poucos são os casos de pacientes que aparecem na lista duas vezes. O estudante de Direito Matheus de Melo Magalhães, hoje com 24 anos, é o protagonista de uma dessas histórias raras. Em ocasiões distintas, ele recebeu dois novos corações, ambos implantados no instituto paulista.

Vítima de uma bronquiolite ainda bebê, ele foi transferido na ocasião de Pouso Alegre, em Minas, para São Paulo. Desenvolveu um quadro de miocardiopatia dilatada e teve um marca-passo implantado por oito meses.

O dispositivo, no entanto, não resolveu seu problema e ele foi inserido na fila de transplantes, onde ficou por 30 dias, até receber um novo coração, quando tinha apenas 1 ano e 8 meses de idade.

Como transplantes pediátricos eram relativamente recentes na história da Medicina na época, os médicos não souberam precisar qual seria o “prazo de validade” do órgão transplantado em Magalhães. “Fizeram uma estimativa de que o coração duraria 12 anos, mas era uma grande dúvida de todos. No final, acabei ficando com ele por 19 anos”, conta o jovem.

Em 2012, o corpo de Magalhães começou a dar sinais de que a potência do órgão transplantado caía drasticamente. “Sentia muito cansaço e fadiga. Tarefas simples do dia a dia, como amarrar o cadarço ou tomar um banho, eram um sacrifício para mim”, conta.

Durante os dois anos seguintes, o jovem passou por várias internações e foi colocado novamente na fila de transplante. “Em 2014, eu fiquei muito mal e fui para uma posição de prioridade. Foi quando consegui outro órgão”, relata.

O estudante precisou ficar seis meses internado entre o período que aguardava o transplante e a recuperação da cirurgia. “O impressionante é que você nota a diferença já quando acorda da anestesia. Eu parecia uma nova pessoa. É uma sensação de alívio”, conta ele, que destaca o apoio de toda a equipe do Incor em sua recuperação. “Mais do que o tratamento, é bom saber que eu tinha pessoas para me apoiar nos momentos que dava mais desespero”, diz.

As idas e vindas ao hospital não atrapalharam o sonho de Magalhães. O homem que já recebeu dois corações se prepara para testar o órgão nos próximos dias, quando receberá, em sua cerimônia de formatura, o diploma de bacharel em Direito. 

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