Steve Buissinne/Pixabay.com
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Independência e sorte

Ninguém nos deu pistas de como adquirir autonomia, palavra-chave para qualidade de vida

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2022 | 05h00

Fiz aniversário. 45 anos. “Não parece a idade que tem”, “está muito boa para a sua idade” são proibidos: pressupõem uma “cara certa”, um “jeito certo” de se viver em cada tempo. No espectro, somos assombrados pelo clichê de “eternas crianças, ingênuos para sempre” por causa da ausência das habilidades sociais. A verdade é que não se pensa em como é envelhecer no espectro.

É difícil lidar com o porvir. O tempo passa a perna na gente e nos angustia, enquanto a gente tenta exaustivamente passar a perna nele de volta, e tudo se amplifica quando nessa equação entram os fatores autismo e deficiência. O que vai ser do futuro não sabemos, você, eu ou as mães de filhos autistas, crianças com TDAH, pessoas com questões psicossociais. Ninguém nos deu pistas de como adquirir autonomia, palavra-chave para qualidade de vida e envelhecimento. 

O que significa autonomia para você? O termo se relaciona com a qualidade de um indivíduo de tomar decisões com base na razão, não sendo condicionado a agir, impulsionado por sua autoexigência. Independência, liberdade ou autossuficiência estão presentes na ciência política, no campo moral, na filosofia, na bioética e na educação. Paulo Freire, brasileiro estudado e homenageado mundo afora, criou a Pedagogia da Autonomia, educação que leva à tomada de consciência, transformando o educando em sujeito.

Autonomia ronda o pensamento de familiares de autistas: quem vai cuidar dessa criança se ela não se tornar um adulto emancipado? A ausência da motivação natural por imitar e seguir instruções, característica do TEA, faz com que o ensino da independência nas atividades da vida diária (AVDs), funções como tomar banho, alimentar-se e usar eletrodomésticos, vire um plano de atuação. 

A maneira como o autismo se apresenta ao longo da vida se modifica, o hiperfoco pode expandir para outros assuntos, por exemplo. Só que o autismo não acaba com a maioridade. Com acesso a tratamentos multidisciplinares, é possível ter uma melhora no desenvolvimento e na qualidade de vida. 

Caminhos para a independência são observados na Europa. O atendimento ao idoso TEA no País de Gales, na França e Dinamarca é feito por uma rede de proteção de saúde e inclusão social. O horizonte que sonho é uma forma popular na Holanda e na Bélgica, a “Moradia Assistida”. Ela permite que pessoas com TEA, deficientes físicos e mentais, entre outros, que precisam ou querem morar sozinhas, o façam sendo acompanhadas. Os prédios são espaçosos, com no máximo 70 moradores, cada qual com seu apartamento. Incluem em seu sistema operacional diretores, enfermeiros, psicopedagogos e psicólogos, cozinheiros, médicos e até autism coach (descobri na pesquisa para esta coluna).

Em 2050 seremos quase 2 bilhões de pessoas no mundo com mais de 60 anos. Envelhecer é inevitável e pode ser mais fácil se houver um sistema preparado para receber quem está à margem dele. No fim, autonomia é mais do que amarrar os próprios sapatos aos 80 anos.

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