MARTIN OUELLET-DIOTTE / AFP
MARTIN OUELLET-DIOTTE / AFP

Indústria e dependência

Maconha, recentemente liberada no Canadá, tem mercado estimado em 4 bilhões de dólares canadenses

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2018 | 05h00

Quando os Simpsons visitaram o Canadá, um dos passeios que fizeram os levou até os estúdios da indústria cinematográfica local. Durante a excursão, viram um trecho da gravação de Canadian Graffiti, a versão local do filme que originalmente mostra adolescentes americanos aprontando na Califórnia.

Mas o máximo de rebeldia para o jovem canadense é pichar um muro – e com a frase “Obedeça as regras!”. De fato, o país é tão pacato e ordeiro que raramente aparece em manchetes negativas nos jornais. Quando lemos uma notícia sobre ele, é exaltando sua qualidade de vida, o alto índice de desenvolvimento humano e por aí afora.

Pelo menos até essa semana, quando ele se tornou o segundo país do mundo a legalizar produção, venda e utilização de maconha. Desde o Uruguai, nenhum outro país havia legalizado a substância de forma tão ampla. Há alguns Estados americanos que descriminalizaram o cultivo doméstico, outros que permitem o uso recreativo e há mesmo produtores que têm a venda permitida.

Mas a legislação federal, ainda bastante restritiva, impede que essa indústria decole. Já no Uruguai, o próprio tamanho do país funciona como um entrave à indústria. Eu lembro que quando o visitei o guia turístico comentou que só havia dois tipos de cervejas uruguaias – a pequena população não sustentava uma indústria maior.

Agora a conversa é outra. Gigantes do tabaco e bebidas estão de olho em um mercado com rendimento estimado em 4 bilhões de dólares canadenses, só com a planta, no ano que vem. A progressiva liberação de produtos derivados, como alimentos, bebidas e cremes – que deve superar a venda da planta, nas projeções de mercado –, eleva ainda mais essas estimativas. Acabou a brincadeira.

Não vi ainda uma análise rigorosa nesse sentido, mas mais do que a liberação em si, fico receoso com o inevitável florescimento da indústria da maconha. A humanidade sempre buscou – e encontrou – maneiras de alterar seu estado de consciência. Fosse aprendendo o processo de fermentação – que embora nada tenha de intuitivo foi dominado por quase todos os povos, em todos os tempos e lugares –, fosse descobrindo plantas, extratos animais ou mesmo técnicas físicas, aparentemente enfrentar a realidade humana de cara limpa não é tarefa fácil. Talvez não seja factível – e quem sabe nem seja desejável – um povo totalmente abstinente. 

Essa era a ambição das sociedades de temperança, organizações civis americanas, grandes propulsoras da instauração da lei seca, como retratado no excelente documentário de 2011, Prohibition, de Ken Burns (disponível na Netflix). Deu no que deu.

No entanto, o uso de substâncias psicotrópicas nas sociedades pré-industriais era limitado, já que as quantidades disponíveis para o consumo eram muito menores, obviamente. Ficar muito chapado, muitas vezes, durante muito tempo, não devia ser possível. E mesmo agora, nos locais onde a maconha foi legalizada, mas ainda não se criou uma indústria potente, não há dados consistentes mostrando incremento significativo no seu consumo, seja no Uruguai ou em Estados como Washington e Colorado. 

Com a entrada de grandes indústrias em cena, contudo, a lógica do lucro e crescimento que as move pode bem mudar esse quadro. A busca pelo faturamento, inevitável nesse modelo, levará a estratégias de facilitação do uso, barateamento, e o que mais servir de estímulo para o consumo. Fora que grandes produtores de álcool e tabaco contam com os usuários pesados para manter o caixa girando. 

Não é razoável esperar que com a indústria da maconha seja diferente. Posso estar enganado, mas nesse cenário acho difícil que a legalização não leve ao aumento do uso.

Já disse em mais de uma ocasião que não é papel da psiquiatria argumentar favorável ou contrariamente à legalização das drogas. A ciência não é prescritiva. Seu papel é relatar os fatos – como o risco de dependência, de desenvolvimento de surtos psicóticos, de prejuízos no desenvolvimento cognitivo –, para instrumentalizar a decisão. Mas essa, em última análise, cabe só à sociedade.

* É PSIQUIATRA

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