Rafiq Maqbool/AP
Rafiq Maqbool/AP

Indústria usou agricultores do País em lobby, diz OMS

Segundo entidade mundial de saúde, existem evidências escritas de que as empresas tabaqueiras convenceram grupos que lidam com plantio de tabaco para tentar frear leis

Jamil Chade, Correspondente, GENEBRA ,

31 de maio de 2012 | 08h29

A Organização Mundial da Saúde (OMS) vai denunciar o uso de agricultores brasileiros para atuar como lobbistas em defesa dos interesses da indústria do cigarro. Nesta quinta, a entidade comemora seu dia anual de combate ao cigarro e, para marcar a data, publica informações sobre o lobby feito pela indústria do cigarro para frear leis, ameaçar governos e mesmo abrir casos nos tribunais contra países. No Brasil, a OMS afirma ter evidências escritas de que a indústria convenceu os agricultores a apoiar a posição de que cigarros com sabor não atrai crianças.

 

Em março, a Anvisa acabou tomando a decisão de proibir esse tipo de produto, dando 18 meses para que o cigarro fosse retirado de circulação. Segundo a OMS, porém, a indústria multinacional se utilizou dos agricultores brasileiros para tentar pressionar a presidente Dilma Rousseff.

 

Em fevereiro, uma carta foi enviado pela Associação de Produtos de Tabaco à presidente, alegando que a OMS havia chegado à conclusão de que aditivos e sabores em cigarros não estavam atraindo menores, numa tentativa de influenciar a decisão do governo. Segundo a entidade com sede em Genebra, a Casa Civil decidiu consultar a OMS, para saber qual era a posição. A agência de Saúde da ONU desmentiu a carta. Mas escancarou que o grupo atuava sob a orientação da indústria.  

 

Para a OMS, a alegação na carta é uma "mentira total" e um esforço de confundir governos. Na avaliação da entidade, esse é um exemplo de como a indústria não cedeu em seu lobby e que continua a pressionar governos, por vários canais. A OMS apela para que todas as parcerias entre as empresas e governos sejam suspensas. "A indústria do cigarro é a inimiga pública número 1 da OMS", declarou Douglas Bettcher, diretor da campanha contra o tabaco na OMS.  

 

Segundo ele, o número absoluto de pessoas que fumam continua a subir. Hoje, 38% dos homens fumam, contra 10% das mulheres, cerca de 1,1 bilhão de pessoas. "No século 20, 100 milhões de pessoas teriam morrido por conta do cigarro. No século 21, se continuarmos na tendência que estamos, teremos 1 bilhão de mortos", disse. Por ano, 6 milhões de pessoas morrem por conta do cigarro.

 

Segundo ele, a meta da industria hoje é a de buscar fumantes entre os jovens, principalmente as meninas de países emergentes. "Em muitos países, já vemos que a taxa de fumantes entre as garotas de 13 a 15 anos é a mesma dos garotos", disse. 

 

Lobby. Para atingir suas metas, a OMS denuncia uma ação dura da indústria, gastando bilhões de dólares em lobby. "O que estamos mostrando é que a industria tem manipulado políticos, fabricado grupos de apoio, pago por estudos supostamente científicos e até sequestrando processos políticos em diferentes países", declarou o diretor.

 

Os exemplos são inúmeros. Na China, a indústria convenceu o governo de uma região a autorizar que patrocinassem colégios, trocando o dinheiro pelo direito de colocar publicidade nos locais. Numa delas, pode-se ler. "O tabaco ajuda a crescer".

 

Governos como o da Namibia, Uruguai e Noruega tem sido alvo de questionamento legal por parte da indústria, por conta de medidas para restringir a venda de cigarros. A indústria ainda tem oferecido pagar conselheiros legais para países que queiram abrir ou aderir ao processo que existe na Organização Mundial do Comércio contra a Australia, justamente por conta de medidas para abolir logomarcas nos pacotes de cigarro.

 

"Nos últimos anos, a indústria do tabaco tem alimentado de uma forma vergonhosa ações legais contra governos que estiveram na liderança da luta contra o cigarro", declarou Margater Chan, diretora da OMS.

 

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