AP Photo/Kin Cheung
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Infecção de humanos por novo coronavírus pode ter começado em cobras, indica estudo

Em menos de um mês desde que foi notificado pela primeira vez, o vírus misterioso já infectou mais de 500 pessoas na China, das quais 17 morreram

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - A infecção de humanos por um novo tipo de coronavírus pode ter começado em cobras, sugere um estudo de pesquisadores chineses divulgado nesta quarta, 22, no periódico científico Journal of Medical Virology. Em menos de um mês desde que foi notificado pela primeira vez, o vírus misterioso já infectou mais de 500 pessoas na China, das quais 17 morreram, todas por desenvolverem uma pneumonia viral aguda.

Diante da urgência em entender a origem e as formas de transmissão da doença, cientistas de quatro instituições de pesquisa chinesas analisaram o RNA do vírus e compararam os dados obtidos com as características de outros coronavírus frequentemente encontrados em animais comuns no país asiático.

A suspeita de que a transmissão tenha sido iniciada por um animal contaminado é forte pois os primeiros casos da doença ocorreram em trabalhadores e frequentadores de um mercado de peixes da cidade de Wuhan, na região central da China, onde o surto começou. No mercado, são comercializados, além de pescados e frutos do mar, animais silvestres vivos, como coelhos, morcegos, sapos e cobras.

Ao analisar as amostras, os cientistas descobriram que, de todos os vírus de animais testados, o que apresentou maior similaridade com o novo coronavírus foi uma cepa encontrada em duas espécies de cobras muito comuns na China: a Bungarus multicinctus e a Naja atra, conhecida como cobra chinesa. Com isso, dizem os cientistas no artigo, as cobras são a origem mais provável do surto.

Os pesquisadores descobriram ainda que o novo coronavírus surgiu a partir de uma combinação de outros dois tipos de vírus da mesma família. Um deles veio de um morcego. O outro é de origem desconhecida. É essa combinação que pode ter tornado possível a transmissão dessa nova variante do coronavírus para humanos.

De acordo com Celso Granato, infectologista especialista em virologia e diretor clínico do Grupo Fleury, a transmissão de vírus entre cobras e humanos é muito rara, mas entre morcegos e humanos é mais comum.

“O estudo mostra que o novo coronavírus tinha uma base de vírus de cobra e um pedaço de vírus de morcego. Só que esse pedaço de morcego é justamente o responsável pela transmissão. Esse novo vírus pode ter se tornado transmissível para humanos por causa dessa combinação”, explica ele.

O especialista afirma, no entanto, que, como a doença é muito recente e a transmissão de doenças entre cobras e humanos é rara, são necessárias mais pesquisas para confirmar a hipótese levantada pelos chineses.

“O que não fica claro é como ocorreu essa transmissão. Dificilmente foi por picada de cobra porque isso seria facilmente identificado. Pode ter sido pelo manuseio do animal ou pela ingestão da carne de cobra, não sabemos ainda”, destaca Granato.

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O que não fica claro é como ocorreu essa transmissão. Dificilmente foi por picada de cobra porque isso seria facilmente identificado
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Celso Granato, infectologista especialista em virologia

Segundo os cientistas chineses, a origem das infecções por coronavírus em cobras ajudaria a explicar por que a doença vêm apresentando baixa letalidade e capacidade limitada de transmissão entre humanos.

“Cobras são répteis de sangue frio, com temperatura mais baixa do que os humanos. Consequentemente, o 2019-nCoV (novo coronavírus) provavelmente será atenuado após a infecção em humanos”, destacam os pesquisadores no artigo.

Eles ressaltam, porém, que o vírus pode sofrer adaptações depois de infectar os humanos, o que pode mudar esse cenário de baixa letalidade e transmissibilidade.

“Existe uma preocupação sobre sua adaptação em humanos em que ele pode adquirir a capacidade de se replicar com mais eficiência e se espalhar mais rapidamente por meio de contato pessoal próximo”, destacam os pesquisadores chineses.

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