Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

‘Informação ruim afeta tratamento contra câncer’

Especialista lança nesta quarta, ao lado dos colegas Antonio Carlos Buzaid e Drauzio Varella, o livro ‘Vencer o Câncer’, para pacientes

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

21 Maio 2014 | 03h00

Chefe do setor de oncologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo, o oncologista Fernando Cotait Maluf acredita que um paciente munido de informação precisa e de qualidade tem mais condições de enfrentar o câncer adequadamente. Ao lado dos colegas Antonio Carlos Buzaid e Drauzio Varella, o especialista lança hoje o livro Vencer o Câncer, que traz informações sobre prevenção, tratamento e direitos do paciente.

A ideia de escrever um livro para o público leigo está relacionada com a falta de informação de qualidade sobre o câncer?

A busca de informações na internet é comum, mas também errática. Primeiro, porque o termo procurado na internet não é o termo correto. Segundo, porque, mesmo sendo o termo correto, na internet vem uma série de informações, de situações que não são parecidas. O paciente acaba lendo uma informação de um prognóstico terrível, de tratamentos complexos, quando isso não é aplicado à situação dele. O terceiro ponto é que a internet não tem filtro. A ideia foi criar um livro e um portal para melhorar a qualidade da informação na área de oncologia.

Uma informação errada pode prejudicar o tratamento?

Pode prejudicar de várias maneiras. Primeiro, ao causar algum grau de angústia ou depressão. A segunda maneira é que talvez deixe aquela pessoa menos aderente a potenciais tratamentos benéficos, ou seja, a pessoa enxerga aqueles tratamentos como não efetivos ou exagerados, de acordo com o que ela leu.

É comum pessoas desistirem dos tratamentos por medo ou desinformação?

É comum, não necessariamente essa informação é tida na internet. De repente, essa pessoa está conversando com outros médicos, com outras pessoas não médicas. Por outro lado, a informação na internet precisa é extremamente importante. Na lei da guerra, nada melhor do que conhecer o inimigo para poder abatê-lo. Nesse sentido, a gente vai munir pacientes e famílias de informação precisa, elaborada por especialistas na área, na tentativa de poder promover para o paciente informação necessária para que, junto com seu médico, essa pessoa entenda o seu problema e quais são as armas.

O câncer ainda é visto como uma sentença de morte?

Existe, sim, esse medo. Nesse portal tem uma parte que considero das mais importantes, que é de paciente para paciente. A gente tem depoimentos, como o da Ana Maria Braga, de quem venceu essa doença. Ela e outros pacientes fazem depoimentos para poder motivar, esclarecer e conscientizar quem está passando pelo problema. O futuro do nosso projeto é criar uma interatividade onde vão existir profissionais da área de oncologia junto com pacientes e grupos de suporte para poder interagir com quem está precisando.

Qual é a maior resistência dos pacientes no tratamento?

Se a gente pudesse elencar as armas que mais o assustam é a quimioterapia, apesar de ela ter melhorado ao longo dos últimos anos e os remédios para controlar os efeitos colaterais também melhoraram.

O otimismo pode fazer diferença no sucesso do tratamento?

Ninguém entra numa briga para perder, e achar que vai ganhar é importante porque você adere aos tratamentos de um modo muito mais sólido do que se você não estiver animado, se estiver desconfiado. Hoje já é provado que pacientes que fazem tratamentos oncológicos no período planejado, nas doses planejadas, sem grandes interrupções, são pacientes com maior chance de cura. E claramente um dos fatores que mais aumentam a aderência ao tratamento é o grau motivacional.

Como devemos nos preparar para o aumento do número de mortes por câncer?

O câncer vai passar a doença cardiovascular como primeira causa de mortalidade nos próximos cinco a dez anos. O ideal é que a tecnologia e as campanhas sirvam para tentar dizer quem são os homens e mulheres que vão desenvolver câncer, qual é o tipo de câncer e em qual idade, para que a gente consiga diagnosticar numa fase muito precoce. Nesse sentido, as campanhas mais importantes devem focar na prevenção.

Também haverá grandes avanços no tratamento nos próximos anos?

Acho que sim, os ganhos serão graduais. Não acho que tenha um ganho gigantesco. Acho que é um processo contínuo, por isso os pacientes não devem perder a esperança. Muitas drogas estão sendo estudadas, que agem com mecanismos totalmente diferentes. Acho que a imunoterapia é a grande arma, de maior potencial. As duas formas principais de imunoterapia são drogas que estimulam o sistema imunológico num ataque mais específico e amplo ao tumor, e drogas que removem a camuflagem do tumor, expondo as células tumorais ao organismo como corpo estranho, como corpo a ser atacado.

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