Janaína Cesar/Estadão
Pátio onde seria realizado o carnaval, que acabou cancelado pelo risco do coronavírus Janaína Cesar/Estadão

Pátio onde seria realizado o carnaval, que acabou cancelado pelo risco do coronavírus Janaína Cesar/Estadão

Insegurança leva à corrida desmedida a supermercados e farmácias no Norte da Itália

Com medo de ficarem sem comida e itens de primeiras necessidades, italianos vão em massa à supermercados provocando desabastecimento

Janaína Cesar, especial para o Estado , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Pátio onde seria realizado o carnaval, que acabou cancelado pelo risco do coronavírus Janaína Cesar/Estadão

Após autoridades da região do Vêneto determinarem por causa do coronavírus o fechamento de escolas, locais públicos como bibliotecas, museus e até cemitérios, as pessoas com medo, pânico e insegurança iniciaram uma corrida histérica a farmácias e supermercados. No sábado, dia 22, os itens mais procurados eram desinfetantes e máscaras descartáveis, mas hoje a busca é de praticamente todos os itens, de papel higiênico a frutas, carnes, enlatados em geral, macarrão, arroz. Tudo com data de validade maior. Mas não só. Os ovos também sumiram das prateleiras dos supermercados. 

Em Bassano Del Grappa, uma pequena cidade que fica no centro da região Vêneto, na noite de segunda-feira, dia 24, faltavam produtos em todos os supermercados. Filas gigantes, pessoas com máscaras, carrinhos que transbordavam de mercadorias, "uma cena de filme de horror", como resumiu Gigliola Battocchio, 54 anos, uma das proprietárias do supermercado Battocchio, um dos maiores da região. "Já no sábado percebemos um aumento de 20% nas vendas, no domingo 40 %, ontem 100%. Não sei se foi o ápice o dia de ontem, mas só hoje de manhã já tivemos aumento de 25% nas vendas." 

Para Gigliola, "as pessoas entraram em uma espécie de psicose após o decreto do governo porque havia rumores de que todos os estabelecimentos seriam fechados e, com medo de ficar sem comida, começaram a ‘atacar’ os supermercados." Segundo a empresária italiana, não é tanto o medo do coronavírus que causou essa espécie de histeria coletiva, mas o medo de ficar sem comida em casa. "A Itália é um país que viveu a fome por causa da guerra e o maior medo dos italianos é justamente passar fome de novo." 

Lidia Vidana, 42 anos, carregava as compras para o carro no estacionamento do Ali, outro supermercado de Bassano. Não havia feito estoque, mas comprado um pouco a mais do habitual. "Concordo com as restrições de controle estabelecidas pelo governo, mas é difícil controlar o sentimento das pessoas", afirmou a italiana. Ela disse não julgar as pessoas que estocam alimentos com receio de restrições ainda maiores por conta do coronavírus. "Eu tenho parentes na Espanha, na Catalunha, em Valência e Madrid e as pessoas também estão apavoradas. Meus parentes afirmaram que as máscaras descartáveis e desinfetantes também estão faltando nas prateleiras dos supermercados espanhóis", concluiu.

QUEDA DE VENDA NO SHOPPING

"O shopping está vazio, o número de vendas caiu 40%. Não tenho medo, é só uma gripe mais forte. Acho que as pessoas estão exagerando um pouco", disse Gaia Sebbeu, 20 anos, garçonete do bar Diemme, no shopping Grifone de Bassano. "O problema é que esse vírus se difunde muito rápido, mas até agora ninguém aqui do bar pediu para usar máscara ou luva", contou a jovem italiana. Enquanto tomava um café no balcão do bar, a aposentada Alessandra Trolezi, 68 anos quis participar da conversa e contou à reportagem que outro dia estava na rua quando começou a tossir e viu que as pessoas se afastaram dela, "provavelmente pensando que fosse infectada pelo coronavírus". Alessandra havia ido ao supermercado dentro do shopping para fazer compras esperando encontrar alguma mercadoria. 

Um funcionário da rede ferroviária italiana, que pediu para não se identificar, afirmou nunca ter visto uma situação tão crítica. "Domingo de carnaval foram vendidas apenas 50 passagens de trem de Bassano para Veneza. Em situações normais, são vendidas cerca de 700 passagens numa manhã", disse. Para ele, o noticiário ajudou a criar o clima de medo. "Não estamos vivendo em uma pandemia, as pessoas precisam se preocupar, mas não exagerar, muito é culpa dos jornais. É justo informar, mas não alimentar o pânico como estão fazendo".

O clima de preocupação exagerada pode gerar, inclusive, agressões físicas, como a que aconteceu com uma cidadã chinesa que, semana passada, foi agredida fisicamente e insultada por um casal de italianos no centro de Turim - a imigrante mora há 20 anos na Itália e precisou ser levada para o hospital. 

Para a prefeita de Bassano del Grappa, Elena Pavan, do partido Liga Norte, do ex-ministro Matteo Salvini, "era necessário tomar essas medidas que foram adotadas pelo governo, mas isso gerou uma psicose na parte das pessoas que deram uma importância maior ao que realmente está acontecendo".

 

Tudo o que sabemos sobre:
coronavírusItália [Europa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.