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Estudo liga surto de febre amarela a mutações inéditas

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) detectaram oito alterações genéticas no vírus em circulação no País – sete das variações estão associadas ao mecanismo de replicação (multiplicação). País já confirmou mais de 200 mortes pela doença no ano

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 17h50
Atualizado 15 Maio 2017 | 20h34

RIO - Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) detectaram oito mutações genéticas inéditas no vírus da febre amarela em circulação no País. Elas podem ajudar a explicar o atual surto da doença – o mais grave das últimas décadas, com mais de 200 mortes confirmadas. 

Sete dessas variações estão associadas ao mecanismo de replicação (multiplicação) viral. Uma das hipóteses sob investigação é que o modo como o vírus se multiplica pode ter aumentado a eficiência da infecção de humanos. A descoberta, porém, não coloca em dúvida a eficácia da atual vacina contra a doença. Segundo os pesquisadores, ela continua a funcionar.

“Esse vírus tem uma ‘assinatura’ molecular diferente do que aquele que já circulava. São pequenas alterações que podem estar fazendo com que se prolifere mais rapidamente, o que pode ter contribuído para o surto. É uma hipótese”, disse a virologista Myrna Bonaldo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC. Ela lidera o trabalho com o entomologista Ricardo Lourenço, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC. “Pode ser também que ele esteja ficando mais forte. Não podemos afirmar ainda, temos de estudar melhor. Esse conhecimento é imprescindível para nortear ações de saúde pública.”

Os resultados, que são preliminares, revelaram variações nunca descritas na literatura científica sobre a febre. O sequenciamento completo do genoma do vírus atual foi feito com base em amostras de macacos bugios. Dois dos primatas morreram da doença em mata do Espírito Santo. Outro, em Macaé, no norte fluminense, perto da divisa com o Estado. Também foram examinados mosquitos selvagens infectados, de território capixaba. 

Os pesquisadores agora farão estudos comparativos retrospectivos. Ele dependem do isolamento do vírus presente em amostras infectadas em anos anteriores. A ideia é retroagir até os anos 2000. O último sequenciamento genético feito pelo IOC foi em 2002. Pesquisadores da Venezuela o fizeram em 2010. Naquela época, não foi detectada alteração. 

Futuro. O IOC quer entender a origem das mutações, presentes em pedaços das proteínas envolvidas na replicação viral. Querem descobrir em que momento elas se deram e também como o vírus modificado se espalhou pelo País. Para expandir as análises, examinarão amostras de mais macacos, mais mosquitos e também humanas. Também poderão inocular mosquitos selvagens e urbanos com o vírus com e sem mutação.

Myrna explicou que a vacina contra a febre amarela, que imuniza contra genótipos diferentes do vírus, continua eficiente. “A vacina é administrada há 80 anos, é muito eficaz e protege contra uma diversidade de vírus do Brasil e de outras regiões do mundo, como a África”, afirmou. Ela fez um apelo para que o Ministério da Saúde apoie a pesquisa com recursos financeiros e com cessão de amostras antigas de material contaminado com o vírus.

Esta foi a primeira análise completa de vírus do atual surto de febre amarela feita no Brasil. O estudo partiu da dificuldade para compreender o quadro, pois a doença reapareceu em áreas livres dela havia décadas. Os resultados foram informados pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz ao Departamento de Vigilância em Doenças Transmissíveis do ministério.

Os dados foram publicados na revista científica Memórias de Oswaldo Cruz de fevereiro. O sequenciamento completo foi então depositado no GenBank, base de dados internacional usada por pesquisadores de todo o mundo. Cientistas de Inglaterra, Itália e Estados Unidos já se interessaram por dar continuidade a este trabalho, paralelamente à equipe do IOC.

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