DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

'Inteligência do psicopata é criação mística e mentirosa', diz especialista

Condição que tem como principal característica a ausência das emoções morais será tema de conferência nesta sexta no Rio

Entrevista com

Ricardo Oliveira, neurocientista da UniRio e do Instituto D’Or

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2019 | 03h00

O neurocientista Ricardo Oliveira da UniRio e do Instituto D´Or é um especialista na mente dos psicopatas. A ausência das chamadas emoções morais (a culpa e a pena), é a principal característica dos psicopatas. Mas, garante, ao contrário do que mostram muitos filmes, os psicopatas não são especialmente inteligentes.“Isso não é verdade”, disse, em entrevista ao Estado. “Uma minoria pequeniníssima é inteligente, mas são esses que sobressaem.” 

O distúrbio afeta 3% dos homens e menos de 1% das mulheres. Oliveira fala nesta sexta-feira, 26, sobre o tema na Rio2C, a conferência sobre inovação na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, na zona oeste.

Como definir um psicopata?

É uma coleção de achados. Entre os mais importantes estão a redução ou ausência das emoções morais – que são, essencialmente, a culpa e a pena, que formam a base da moral. Depois temos algumas outras características, mas que podem variar muito de pessoa para pessoa. Mentiras repetidas, a incapacidade de manter ocupações regulares (como escola e trabalho). Mas é importante deixar claro o seguinte: é preciso ter muito cuidado com isso, ou qualquer desafeto passa a ser um ‘psicopata’. A psicopatia é um diagnóstico altamente técnico, não é intuitivo. 

A psicopatia pode ser classificada como uma doença?

Depende de como você define doença. Num sentido estritamente médico, como falamos de pneumonia, meningite, não é uma doença. O que chamamos de doenças mentais, como esquizofrenia e depressão, são distúrbios pontuais. No caso da psicopatia, é um distúrbio de personalidade, não algo pontual. Agora, se consideramos a doença como uma condição biológica que te deixa em desvantagem, aí podemos dizer que sim, é uma doença. 

Tem tratamento?

Não, não tem. Houve algumas tentativas, mas nada consistente. Mas há um outro grupo, o dos sociopatas, que é composto por indivíduos antissociais, mas que não têm a frieza, a ausência de emoções morais dos psicopatas, ou seja, não são casos tão graves. Essas pessoas, com psicoterapia e algumas modificações no ambiente, podem se endireitar, ter uma vida adaptada e produtiva. Mas, lembrando, eles têm as emoções morais.

Os psicopatas são inteligentes?

Isso é mentira. Existe essa mística de que o psicopata é inteligente. Mas não é verdade. A grande maioria é mau aluno, tem uma carreira acadêmica precária, briga com todo mundo, não consegue parar em nenhum emprego. Os psicopatas institucionais, os de colarinho branco, podem ficar alguns anos no topo, mas acabam caindo por causa do distúrbio. Ele dá tanto golpe que acaba sendo pego.

Eles podem ser criativos?

Não, isso é parte da mesma mística de que são inteligentes. Uma minoria pequeníssima é inteligente, ainda bem, mas são esses que acabam aparecendo mais.

A psicopatia, ou essa ausência das emoções morais, tem uma origem genética?

As emoções são criadas no cérebro, mas existe um determinismo genético sim, de mais de 60%. Da mesma forma que a variação de altura, da cor dos olhos, da cor da pele, a gente sabe hoje que as coisas psíquicas têm uma contribuição genética muito forte.

Mas isso quer dizer que eles não podem ser responsabilizados pelo que fazem?

Este é um debate atual acirrado. Eu pessoalmente não acredito nisso. Todos os psicopatas sabem a diferença entre o certo e o errado por isso podem ser responsabilizados criminalmente. É diferente de um esquizofrênico, por exemplo, que está delirando e ouve uma voz que o manda matar um sujeito. Ele está em surto. O psicopata, não. Ele sabe, não é psicótico. E tem outra coisa, o fato de ter uma predisposição não justifica nada. Há um perigo no excesso de neurocientização da sociedade que é tentar explicar tudo pelo cérebro. Ora, o cérebro sozinho não faz nada.

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