Acervo Biblioteca Guita e José Mindlin
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Interiorização da covid-19 no Brasil pode criar os ‘mortos invisíveis’, diz historiador

Pesquisador compara avanço da pandemia pelo País ao observado na Gripe Espanhola, mas prevê efeitos menos agressivos da doença

Entrevista com

Luiz Antônio da Silva Teixeira, historiador

Ricardo Brandt, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2020 | 05h00

CAMPINAS - O historiador Luiz Antônio da Silva Teixeira afirma que com a migração da covid-19 das capitais para o interior pode provocar uma "invisibilização da epidemia" e dos mortos pela doença. Algo que aconteceu em 1918, na “gripe espanhola” – pior crise sanitária da história.

“Acredito que haverá uma invisibilização da epidemia. Cada vez mais pessoas vão morrer em regiões mais distantes, em lugares mais pobres, no interior”, explica o pesquisador da Casa Oswaldo Cruz, da Fiocruz, no Rio. “A epidemia vai ficar mais invisível.”

Segundo o historiador, os primeiros estudos sobre a “gripe espanhola” consideravam registros do Rio (que era a capital do Brasil) e de São Paulo, onde o vírus se disseminou primeiro e rapidamente provocou mais mortes, mas estudos recentes mostraram um “lado oculto da gripe”. O das mortes em regiões distantes dos centros, onde não houve contagem nem divulgação dos óbitos. “Um dado que ficou fora da história.”

Teixeira se diz otimista. Para ele, a covid-19 não deve ser tão “violenta e poderosa” como a “gripe espanhola” - que matou pelo menos 35 mil pessoas no Brasil, no ano final da 1.ª Guerra Mundial (1914-1918), e pelo menos 50 milhões no mundo. “Só no futuro, daqui uma década, os historiadores vão calcular esse número.”

Podemos comparar a atual pandemia com a de 1918, da influenza H1N1, ou de outras doenças infecciosas?

É muito difícil se pensar em comparativo, em relação a outras epidemias. Porque fora a epidemia gigante de gripe espanhola, a gente não tem nada parecido no mundo. Nada que tenha se disseminado com a força que teve a influenza em 1918. Acho que não vamos ter um número tão grande - nem de infectados nem de mortos. Mas não existe muita certeza.

A covid-19 não leva vantagem em relação à gripe espanhola, no quesito maior propagação, em decorrência da vida moderna?

Existem dois aspectos. Biologicamente, a gripe espanhola foi muito mais contagiosa, teve um poder de difusão muito mais forte. Mas socialmente as pessoas não andavam de avião naquela época, não pegavam carro e iam para outro Estado. Isso hoje faz com que o coronavírus se propague mais.

Então teremos mais transmissão e mortes por covid-19?

Acredito que haverá uma invisibilização da epidemia. Cada vez mais, pessoas vão morrer em regiões mais distantes, em lugares mais pobres, no interior. E nas grandes cidades, onde a maior parte já vai ter se infectado, vai diminuir. E a epidemia vai ficar mais invisível. Na gripe espanhola, estudos recentes de história mostraram exatamente isso. Os primeiros dados falavam sobre São Paulo e Rio, sobre a epidemia e a violência dela. Depois, mais recentemente, surgiram estudos sobre casos em Salvador e várias outras regiões. Eles começaram a mostrar o lado oculto da pandemia de 1918. Sobre como ela foi chegando aos lugares mais distantes, matando muito mais gente, sem contato com o serviço de saúde, sem contato com a imprensa. E isso não ficou para a história - no interior da Bahia, tem um trabalho de uma pesquisadora que mostra que os meses seguem e a doença vai se alastrando.

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