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Internações por problemas respiratórios disparam no Brasil em meio ao coronavírus

Somente na última semana foram estimados cerca de 2.250 casos de pessoas internadas com síndrome gripal forte

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 20h41
Atualizado 03 de abril de 2020 | 18h57

O número de pacientes hospitalizados no Brasil com síndrome respiratória aguda grave (SRAG) nas últimas semanas aumentou exponencialmente, coincidindo com a chegada do novo coronavírus no Brasil, de acordo com levantamento feito pelo sistema InfoGripe, da Fiocruz. 

Somente na última semana, entre os dias 15 e 21 de março, foram estimados no sistema cerca de 2.250 casos de pessoas internadas com sintomas de uma síndrome gripal forte – além de febre, tosse, e outros sintomas, elas têm dificuldade de respirar. A maior parte estava em São Paulo – 1.218. No ano passado, por exemplo, nesse mesmo período, houve 934 casos em todo o País. O valor considerado ótimo é de 250 a 300 casos nesse período. O que se vê agora é uma atividade considerada "muito alta".

O crescimento de casos vem ocorrendo desde fevereiro. Na semana em que o primeiro caso de coronavírus foi identificado oficialmente no Brasil, em 25 de fevereiro, havia cerca de 660 pessoas internadas por SRAG. 

O InfoGripe é um monitoramento de todas as notificações desse tipo de problema no Brasil, com base em dados da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde e das redes estaduais públicas e privadas. Em geral ele observa o pico de casos, de intensidade muito alta, somente em maio, quando a temperatura está mais baixa. 

O número de pacientes hospitalizados por SRAG em fevereiro e março, porém, já é quatro vezes maior que durante o que ocorreu em todo o período sazonal de influenza no ano passado. “A alta observada nas últimas duas semanas em parte deve ser por causa da chegada do novo coronavírus, pois o crescimento foi muito maior do que o que vinha acontecendo até então”, afirma o pesquisador Marcelo Gomes, pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fiocruz e coordenador do InfoGripe.

Ele explica, porém, que isso não significa necessariamente que todos os casos de internação são causados pelo novo coronavírus. SRAG é uma definição que pega doenças causadas também por outros vírus, como o influenza e outros coronavírus conhecidos. Os casos de coronavírus no Brasil só têm sido conhecidos, na maioria das situações, depois que pacientes com SRAG são internados. Só vai se saber o que levou a esse grande número de internações quando todas essas pessoas forem testadas.

Segundo Gomes, desde o início do ano o volume de casos estava um pouco mais alto que o habitual, provavelmente por algum outro vírus que estava circulando no País. “Mas a mudança recente na velocidade de crescimento sugere algo novo. Como coincide com o crescimento dos casos confirmados de covid-19 e a confirmação da transmissão comunitária, é grande a chance de que boa parte desses casos seja em função do novo vírus, que se somou a essa tendência de alta”, afirma.

As estimativas do sistema são feitas com base no número oficial de casos notificados, levando em conta o atraso típico entre a internação e o registro no sistema. O InfoGripe foi criado em 2014 para ajudar os governos federal e estaduais no monitoramento dessas doenças no país. Notificações desse tipo vinham sendo feitas desde 2009, em resposta à pandemia de influenza H1N1.

Hospitais relatam aumento na procura por atendimentos

Diretor do Hospital Santa Paula, o médico Otávio Gebara diz que o número de pacientes com sintomas respiratórios aumentou “enormemente” nos últimos dias, parte deles sendo suspeitos ou confirmados do novo coronavírus. “A gente está vendo que está aumentando a cada dia. Está tentando se preparar para o pior, mas reza para acontecer o melhor.”

Para atender à demanda, os turnos foram ampliados, a maioria dos funcionários aceitou ou se dispôs a cancelar as férias e novas vagas para contratação foram abertas. Além disso, profissionais de saúde de outros setores também se voluntariaram a atuar fora da área de especialização. “Os colaboradores são humanos, têm medo, mas querem ajudar.”

Gebara diz que foi criada uma área específica para pacientes relacionados à covid-19 no hospital, que ficam separados dos demais para não ter contaminação cruzada. Além disso, a instituição se organizou hierarquicamente com listas de quatro substitutos para cada função de liderança em caso de afastamento pela doença. “A gente se prepara para a catástrofe.”

Já Carlos Nassif, coordenador da UTI do Hospital 9 de Julho, afirma que a instituição aumentou em 20% o corpo de profissionais de saúde e pretende fazer ainda mais contratações. Com a menor demanda em atendimento eletivo, parte da equipe também foi remanejada.

A principal preocupação, segundo ele, é com o afastamento pela covid-19, até porque parte dos profissionais trabalham em outras instituições ao mesmo tempo. “Talvez os outros lugares não tenham a mesma estrutura (para evitar a contaminação)”.

Em fevereiro, com o crescimento de casos fora da Ásia, o hospital começou a fazer um trabalho psicológico de preparação para a chegada da pandemia. “Para acalmar, levar segurança para eles quando o problema chegasse. Para a equipe estar preocupada, mas respeitando a situação, não com pavor.”

Até quinta-feira, 26, o hospital tinha 17 pacientes internados com suspeita ou confirmação do novo coronavírus, todos em leitos isolados. “Estamos com poucos pacientes ainda, mas a demanda tem aumentado lentamente.” / COLABOROU PRISCILA MENGUE

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