Carlos Ivan/ Acervo Estadão
Carlos Ivan/ Acervo Estadão

Investigação à Sherlock Holmes desvendou em 1986 primeira epidemia de dengue no País

Equipe de médicos sanitaristas e epidemiologistas do Rio foi à caça de pistas e informações e descobriu que o 'Aedes aegypti', considerado erradicado, continuava circulando

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

25 Maio 2015 | 06h00

Apesar do final das férias, muitas crianças não compareceram às aulas e, em algumas casas, pessoas caíram doentes com forte febre, manchas e dores no corpo. O relato poderia ser de 2015, mas é de 1986, quando uma investigação à Sherlock Holmes descobriu que o vírus da dengue estava infectando milhares de moradores de bairros do subúrbio e na região metropolitana do Rio de Janeiro, naquela que seria a primeira epidemia da doença no País. Naquele ano, 33.568 casos foram registrados, sendo 12.480 na capital fluminense.

O gaúcho Antônio Carlos Estima Marasciulo era médico sanitarista recém-contratado pela Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro, quando o órgão foi notificado, em 1986, pela Secretaria da Educação de que havia uma grande abstenção de alunos nas escolas da zona norte da capital, no período de volta às aulas. "As crianças estavam ficando doentes, mas era por alguma coisa que não se sabia", recorda o médico quase 30 anos depois. A Secretaria de Saúde destinou uma equipe aos bairros da região, como a Penha, para elaborar um inquérito a fim de descobrir o que estava acontecendo.

Poucas semanas depois, uma novidade foi acrescida ao caso: moradores de Belfort Roxo e Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio de Janeiro, acusavam uma grande fábrica de produtos químicos de despejar substâncias tóxicas no esgoto, o que estaria deixando as pessoas doentes. "Fomos a campo para fazer o levantamento. Quais os sintomas? Quando eles começaram? Se tinha febre, qual era o comportamento da febre?", explica Marasciulo. Milhares de fichas de informação formaram um enorme quebra-cabeça, em que os dados coletados nos bairros da zona norte do Rio e das comunidades de Belfort Roxo e Nova Iguaçu começaram a se entrelaçar.

Naquela época, o médico já aposentado Nilson Guimarães visitava com frequência seus conhecidos na Secretaria de Saúde e no departamento de epidemiologia. Guimarães, que já havia sido presidente da Sociedade Brasileira de Higiene, era, nas palavras de Marasciulo, uma "história viva". "Ele fazia algumas ligações: 'Olha, tem dengue no Caribe'. O dr. Nilson sabia de coisas, por exemplo, que um contêiner com larvas de Aedes que tinha vindo da África para o porto de Salvador cinco anos antes." Foi assim que a luz se acendeu sobre a investigação. "Nós fomos lá para ver uma contaminação por agente químico, mas, quando chegamos, vimos que era um agente biológico. As pessoas tinham febre de início súbito", conta Marasciulo.

Porém, ainda restavam dúvidas, afinal, o Aedes aegypti era considerado erradicado do País desde 1958, quando o Brasil e mais dez países do continente foram declarados livres do mosquito na 15ª Conferência Sanitária Panamericana, em Porto Rico. Seria possível, então, que fosse dengue? "Pode ser febre maculosa, transmitida pelo carrapato. Há uma epidemia agora em Minas Gerais", sugeriu alguém da equipe.

"Eu percebi que a doença estava atingindo de crianças a idosos. Quando uma enfermidade atinge todos os tipos de pessoas é porque há algo novo naquele ambiente", diz o médico. A curva da febre também era diferente. "Era como uma cela de cavalo. Uma curva bimodal, com  dois picos de febre." Concluíram, então, que se tratava de um arbovírus (vírus transmitido por mosquitos). Mas onde estava o mosquito? Um dos fatores que dificultou a investigação foi a difícil relação entre os órgãos públicos em um período pós-ditadura militar

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Segredo de estado para o governo militar, 'Aedes' voltou a infestar o território brasileiro

Um dos fatores que dificultou a investigação em 1986 foi a difícil relação entre os órgãos públicos em um período pós-ditadura

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

25 Maio 2015 | 06h00

A Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), órgão do Ministério da Saúde, hoje extinto, foi, na época, um forte empecilho na investigação da Secretaria de Saúde do Rio. Isso porque a Sucam não repassava informações solicitadas sobre a existência do mosquito na região, de acordo com o sanitarista Antônio Carlos Estima Marasciulo. "Durante a ditadura militar, esses dados eram chamados de informações de segurança nacional. Era como se fossem segredo de Estado. A Sucam vinha da ditadura e, embora já fosse governo Sarney (o presidente José Sarney tomou posse em 1985), ainda havia esse ranço."

Em notícia publicada em 30 de abril de 1986 no Estado, Eduardo Azeredo Costa, assessor e ex-secretário de Saúde do Rio, foi duro nas críticas. "Desejaria que o mosquito Aedes aegypti mordesse os militares que estavam no poder em 1967, quando o inseto transmissor do dengue e da febre amarela, praticamente extinto, foi localizado outra vez e ninguém tomou providências para erradicá-lo." Segundo Costa, em 1967, a verba destinada ao Ministério da Saúde para o combate ao mosquito foi desviada para outras obras. 

Quatro anos antes da epidemia do Rio, Boa Vista, capital de Roraima, havia vivido o primeiro surto documentado clínica e laboratorialmente. Era o verão de 1982. Em 19 de maio daquele ano, o Estado publicava a reportagem "Cinco casos de dengue em RR". Na época, pesquisadores afirmaram que os números poderiam ser muito maiores e a reportagem apontava como maior aliado da doença o interesse político, ou a falta dele. "O trabalho da Sucam hoje - afirma alta fonte governamental - é única e exclusivamente de bombeiro. Estamos apagando incêndios pois não se tem condições financeiras de efetuar um trabalho completo", registrou a reportagem.

"À época, pela falta de organização dos setores públicos e insuficiência de serviços sociais básicos, o combate e as atitudes frente à epidemia da dengue tomou a forma de um embate político marcado pela privação e transferência de responsabilidades", afirma a historiadora e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Dilene Raimundo Nascimento.

A descoberta. Em um evento organizado pelo Centro de Estudos da Escola Nacional de Saúde Pública em 30 de abril de 1986, Eduardo Azeredo Costa, assessor e ex-secretário de Saúde do Rio, relatou como sua equipe chegou à descoberta de que se trata de dengue. "Encontramos uma pista, com ajuda da comunidade, por meio da associação de moradores." Eles foram levados a um senhor que tinha filhos que moravam em Roraima e que o visitaram durante as festas de final de ano. Uma de suas noras estava doente, com febre e descamação da pele, que poderiam indicar dengue.

Os moradores também falaram sobre um circo que estava viajando para a Venezuela, com passagem por Roraima. Ao menos uma pessoa havia voltado para Nova Iguaçu e apresentava sintomas compatíveis. Outra possibilidade levantada foi que houvesse ligação entre a doença uma paralisação de caminhoneiros na Rodovia Presidente Dutra. "Eles associaram o surto àquela greve dos caminhoneiros que pararam ali, na Dutra, em grande número, ao mesmo tempo. Se lembraram de que as coisas começaram mais ou menos naquele período, no final de janeiro, início de fevereiro", relata Costa. Um dado da Sucam era assustador: todas as 170 borracharias no trecho da Dutra em Nova Iguaçu tinham focos de mosquitos.

A prova final, porém, veio do Instituto Evandro Chagas, no Pará, que recebeu as amostras de sangue dos moradores e de uma médica da equipe, que havia adoecido alguns dias depois das visitas de investigação. "A Fiocruz não detectou nada nas amostras de sangue. Então foi enviado ao Evandro Chagas, que isolou o vírus da dengue. Se é dengue, há mosquito. A Sucam, por não passar as informações que pedíamos, ficou contra a parede", conta Marasciulo.

Desde a denúncia das escolas até a confirmação, o processo de investigação levou quase dois meses. "Foi um trabalho de Sherlock Holmes, com muitas pessoas experientes na área de epidemiologia."

Inverno reduz contaminações. Com a chegada do inverno, a contaminação foi caindo e a doença, aos poucos, saiu das páginas dos jornais. A epidemia de 1986 também atingiu o Ceará e Alagoas e surtos da doença foram registrados em São Paulo. 

Em 1987 foi elaborado o Plano Geral de Ação Integrada de Combate ao Dengue e Prevenção de Reurbanização da Febre Amarela no Estado do Rio de Janeiro, que integrava as secretarias municipais de Saúde, as companhias de limpeza urbana e de meio ambiente e órgãos como a Sucam e o Instituto Nacional de Assistência Médica de Previdência Social, o Inamps (já extinto), sob a coordenação da Secretaria de Saúde do Rio.

Até 1989, o sorotipo DEN-1 (atualmente existem quatro sorotipos) foi o responsável por epidemias e surtos de dengue nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Alagoas, Bahia e Pernambuco. Um ano depois, em 1990, aconteceu a primeira epidemia de dengue hemorrágica no Brasil, no Rio de Janeiro, que foi associada à presença do vírus DEN-2, encontrado no município de Nova Iguaçu. Apesar do alastramento da doença, somente em 2002 foi implementado um programa nacional.

Em 2015, quase 30 anos depois da primeira grande epidemia que deixou o País em alerta, os números não são animadores, apesar da existência de programas específicos nacionais, estaduais e municipais. Do início do ano até a 15ª semana, quando foi divulgado o mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, o País teve 745,9 mil casos notificados, quase 5 por minuto. O Estado com pior quadro é São Paulo, que teve mais de 400 mil casos registrados e bateu o recorde de mortes por dengue: 169 confirmadas.

A chegada das temperaturas mais baixas deve diminuir o número de casos, mas, como aponta a pesquisadora Dilene Nascimento, o combate ao mosquito só é efetivo se há um programa permanente.  "São necessários ações e planejamento de todas as esferas de governo - municipal, estadual e federal. São fundamentais a permanência dessas medidas e a participação da sociedade, que também deve fiscalizar rigorosamente o Estado." Elementar, mas, como mostram os números e história, uma missão que pode ser muito difícil.

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