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Ipea: País tem 1,6 milhão de pessoas vulneráveis à covid-19 com dificuldade de acesso a UTI

Levantamento considerou apenas a população de baixa renda e que tem mais de 50 anos de idade

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 20h04

RIO - O Brasil tem cerca de 1,6 milhão de pessoas vulneráveis ao novo coronavírus com dificuldade de acesso ao tratamento intensivo em caso de infecção grave pela doença, segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O levantamento considerou apenas a população de baixa renda e que tem mais de 50 anos de idade, morando a uma distância maior do que cinco quilômetros percorridos de carro até unidades de saúde capazes de fazer a internação de pacientes em leitos de Unidade de Terapia Intensiva com respirador mecânico. O estudo abrange apenas hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nas 20 maiores cidades do País.

A dificuldade de acesso a diagnóstico e atendimento médico adequado tem potencial para aumentar as estatísticas de letalidade da doença, disse Rafael Pereira, técnico de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais do Ipea.

"Isso pode ter um efeito sim sobre o aumento da letalidade. A baixa disponibilidade de leitos aumenta muito as chances de estrangulamento de tratamento de saúde. Com o estrangulamento, pode aumentar a mortalidade, seja por covid seja por outras enfermidades", ressaltou Pereira.

Nas cidades investigadas, 41% da população de baixa renda na faixa etária acima de 50 anos têm dificuldade de acesso à internação pelo SUS. O Rio de Janeiro tem o maior contingente de vulneráveis, 384,5 mil pessoas, 55,5% da população nessa faixa etária e condições precárias de renda. Em São Paulo, 263,1 mil moradores enfrentam a mesma dificuldade.

A cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, tem a situação mais grave em relação ao tamanho da população local: 82,4% dos habitantes acima de 50 anos e de baixa renda têm dificuldade de acesso à internação em UTI pelo SUS, o equivalente a 67 mil moradores.

Em Duque de Caxias, entre os 121 casos confirmados com a doença até a quarta-feira (15), houve 20 mortes e outros quatro óbitos suspeitos eram investigados. A cidade tem apenas dois hospitais que oferecem leitos de UTI com respiradores mecânicos pelo SUS. A cada 10 mil moradores, há apenas 0,3 leito de terapia intensiva em Duque de Caxias, quando a recomendação do Ministério da Saúde - em condições normais, fora de pandemia - é de um leito de adulto em UTI a cada 10 mil habitantes.

O município da Baixada Fluminense, de pouco mais de 905 mil habitantes, tem ainda 13,5 mil pessoas vulneráveis com dificuldade de acesso a atendimento médico pelo SUS para realização de triagem e atendimento médico, o que pode resultar em subnotificações de casos de Covid-19.

Nas 20 maiores cidades brasileiras, cerca de 228 mil pessoas de baixa renda e acima de 50 anos moram a mais de 30 minutos caminhando até uma unidade de saúde que poderia fazer triagem e dar encaminhamento para pessoas com casos suspeitos do novo coronavírus.

"Obviamente que se você tem uma parcela grande da população que tem dificuldade de acesso a serviços de saúde, você aumenta a chance de subnotificação e de ser encaminhado para receber o tratamento adequado", concluiu Rafael Pereira.

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