TABA BENEDICTO / ESTADAO
A Dona de Casa Claudia Nassar Reis e o seu marido, o consultor Rogerio Vargas Reis, durante o cafe da tarde do casal. Durante a quarentena Claudia passou a comer mais  TABA BENEDICTO / ESTADAO

Isolamento provoca efeito oposto em alimentação de casal

Claudia Fátima Nassar Reis e Rogério Vargas Reis, ambos de 55 anos, são exemplos emblemáticos das mudanças ocorridas com a alimentação dos brasileiros de classe média e média alta

José Fucs, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 12h24

A dona de casa Claudia Fátima Nassar Reis e o consultor de empresas Rogério Vargas Reis, ambos de 55 anos, que moram no bairro do Morumbi, em São Paulo, são exemplos emblemáticos das mudanças ocorridas com a alimentação dos brasileiros, especialmente de classe média e média alta, durante a quarentena do novo coronavírus.

Para Claudia, a alimentação mudou para pior. Para Rogério, para melhor. Com as restrições de convívio social, ela parou de fazer ginástica duas vezes por semana, com um personal trainer, na academia do prédio em que mora. Ele passou a correr pelas ruas do bairro todos os dias. Resultado: Claudia afirma que engordou de três a quatro quilos, mesmo caminhando cerca de 5 km por dia, enquanto Rogério conseguiu manter o peso, nos três meses de isolamento social praticado na cidade.

Ela conta que, antes do confinamento, procurava manter uma alimentação balanceada, à base de salada, arroz, legumes e sem carne vermelha durante a semana. Além dos exercícios, para manter a linha, diz que costumava fazer o cabelo e as unhas no salão e se arrumava para bater perna por aí e encontrar com as amigas. 

Com a quarentena, afirma que até conseguiu manter os horários das refeições. Mas, como a sua empregada Sílvia agora só vai duas vezes vez por semana, em vez de quatro, principalmente para passar roupa e dar um trato básico no apartamento, o cardápio ficou bem mais restrito. Ainda assim, ela afirma que não tem recorrido muito ao delivery. Embora compre alguns produtos online, diz que vai pessoalmente ao supermercado para comprar frutas, legumes e vegetais.

Autoestima. Claudia conta que, hoje, passou a comer muito chocolate, bolos e doces fora de hora, enquanto assiste a séries na TV para passar o tempo. Com o marido e o filho João Pedro, de 21 anos, em casa o dia todo, até o café da manhã, que era uma refeição frugal, passou a ser tomado à mesa, em família, com geleia, mel, pães, doces e o que mais houver na dispensa para diversificar as opções. “Como agora a gente quase não sai e parei de fazer ginástica e de me arrumar para sair, a autoestima diminuiu muito”, afirma. “É um circulo vicioso, que acaba se refletindo na balança.”

Para Rogério, a quarentena acabou tendo o efeito oposto ao de sua mulher. Como comia muito fora e costumava ter pouco tempo para fazer as refeições, muitas vezes almoçava apenas um sanduíche ou um salgadinho. Comer em casa, para ele, tornou-se um bônus. Ainda que esteja comendo mais, sua alimentação ganhou em qualidade. Disciplinado, porém, ele tem conseguido manter a silhueta com suas corridas diárias.

Como se pode observar pelos casos de Claudia e Rogério, comer em casa pode ser bom – ou não. O certo é que, para melhor ou para pior, a alimentação de boa parte dos brasileiros mudou na quarentena.

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Quarentena afeta dieta de quase metade da população

Em casa, boa parte dos brasileiros mudou alimentação, para o bem ou para o mal

José Fucs, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 05h00

A pandemia do coronavírus não mudou apenas o jeito de a gente trabalhar e se relacionar. A nossa forma de se alimentar também sofreu uma transformação radical nos últimos meses.

Com restaurantes fechados ao público, quase todo mundo passou a fazer as refeições em casa. Até quem recorreu ao delivery, abrindo brechas para variações no cardápio, tornou-se mais dependente da comida de casa. Mesmo agora, com a flexibilização da quarentena e o retorno gradual ao trabalho, nada indica que a situação vá mudar tão cedo neste quesito.

Em muitas cidades, os restaurantes ainda deverão demorar algumas semanas para reabrir - e, quando o fizerem, provavelmente o esquema será bem diferente, com maior distância entre as mesas e outras medidas de proteção aos clientes. É provável também que boa parte da clientela potencial, ainda temerosa do contágio, continue a comer mais em casa, fazendo pedidos ocasionais pelo delivery. O melhor, então, é se acostumar ao “novo normal”, cuja duração é difícil prever no momento, e tirar o melhor proveito disso. 

Ansiedade. A questão é que nem sempre comer em casa é sinônimo de uma alimentação de melhor qualidade e mais saudável. Muitas vezes, estar em casa acaba sendo uma espécie de passaporte para todos os tipos de excessos.

“As pessoas estão há muito tempo dentro de casa e muitas vezes acabam descontando a ansiedade na alimentação”, diz Marcia Nacif Pinheiro, professora do curso de Nutrição da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

“Quando a gente está em casa e há muitos alimentos disponíveis, fica fácil ir até a geladeira, até o armário, e beliscar o tempo todo. No trabalho, a gente tem horários específicos para se alimentar, tem a hora do almoço, às vezes um intervalo para um café, e consegue manter uma rotina mais rigorosa.”

Ainda não há pesquisas aprofundadas e com rigor metodológico sobre a alimentação na pandemia. Mas um levantamento realizado pelo Ministério da Saúde no fim de maio aponta que quatro em cada dez brasileiros alteraram os hábitos de alimentação, para o bem ou para o mal. 

Vontade de comer. A pesquisa, feita por telefone com mais de 2 mil pessoas de todo o País, incluía uma única pergunta para apurar se o entrevistado passou a comer mais ou menos. 

Não dá para separar, portanto, quantos estão comendo melhor e quantos, pior. De qualquer forma, o levantamento traduz em números o que já se podia deduzir a olho nu: quase metade da população afirma ter mudado os hábitos alimentares durante o confinamento.

Outro estudo, realizado por um grupo de pesquisadores das áreas de endocrinologia, patologia e psicologia, reforça os dados apurados pelo ministério e vai além. Segundo a pesquisa, que ouviu 1.470 pessoas por meio de um questionário online, um em cada dois entrevistados sentiu mais vontade de comer, mesmo quando não estavam com fome, e 23% ganharam peso. Pelo levantamento, o ganho médio de peso foi de 2,6 kg. O intervalo oscilou entre um mínimo de R$ 1,1 kg e um máximo de 12 kg no período.

Um mergulho nas buscas do Google permite entender melhor por que tanta gente engordou na pandemia. O Google não divulga números, mas informa que as receitas mais buscadas no Brasil desde 15 de março, foram, pela ordem, as de panqueca, brownie, bolo, pudim e pão, todas com altos índices de calorias. 

Entretenimento. Por meio do Google Trends, é possível obter dados mais detalhados sobre as buscas de receitas. Entre 15 pratos selecionados pela reportagem, as receitas com maior crescimento na quarentena (de 20 de março, quando foi decretado o estado de transmissão comunitária do vírus, a 6 de junho), em relação ao período pré-pandemia (de 1.º de janeiro a 19 de março) foram as de brownie, com alta de 234,2%; de esfiha, com 232,8%; de pão, com 143,1%, de empadão, com 122,3%, e de coxinha, com 121,3%. 

Mesmo quem sempre se preocupou com uma refeição mais equilibrada passou a comer mais, bem mais do que antes, e a consumir alimentos de pior qualidade nutricional. Não só porque, além da televisão, uma das poucas atividades que restaram foi comer. Cozinhar sozinho ou com a família tornou-se uma forma de entretenimento.

“Uma coisa que a gente tem percebido é que as pessoas não têm ido tanto ao supermercado e têm feito compras online. Por isso, compram alimentos que duram mais, com prazo de validade maior, e os consomem de forma exagerada”, afirma Márcia Pinheiro. “Muitas vezes, esses alimentos são mais industrializados e costumam ter uma quantidade maior de gordura, de açúcar e de sódio.”

Segundo ela, o preço pelos excessos será cobrado logo mais, tanto pela balança quanto pelo aumento do risco de o consumidor desenvolver ou aprofundar distúrbios cardiovasculares, diabetes e outras doenças. Ainda mais se levarmos em conta que, com as academias e os clubes ainda fechados em quase todo o País, quem fazia exercícios regularmente acabou, em alguns casos, deixando o sedentarismo tomar conta. 

“Muitas pessoas não estão fazendo nenhum tipo de exercício e comem só bolo, chocolate e salgadinho. Aí, não tem jeito, engorda mesmo”, diz. 

Meio-termo. Surpreendentemente, ao contrário do que se poderia imaginar no início da pandemia, um número considerável de brasileiros tem conseguido fazer refeições mais balanceadas, comendo mais vegetais, legumes e frutas, e está até fazendo mais exercícios, para compensar eventuais abusos na quantidade e para se proteger dos efeitos da doença em caso de contágio. De acordo com um estudo da FAO (agência da ONU para agricultura e alimentação), a obesidade é um dos principais agravantes dos males causados pelo coronavírus. 

“A gente tem escutado relatos de alguns pacientes que mudaram sua alimentação para melhor, porque passaram a cozinhar em casa, com a família, e a ter mais tempo para fazer as refeições”, afirma a nutricionista. “Quando a gente come fora não tem como controlar a preparação dos pratos, dosando a quantidade de óleo, de sal e de açúcar”, complementa. 

Agora, em sua avaliação, não é preciso deixar de consumir guloseimas e comidas saborosas para ter uma alimentação saudável. O importante, para ela, é encontrar o meio-termo. 

“De forma alguma, acredito que é preciso se privar todos os dias desses alimentos industrializados, mas eles têm de ser consumidos com moderação”, diz. 

“Se, ao longo do dia, você consumir frutas, verduras, arroz com feijão, um frango com pouca gordura, tudo bem comer um chocolate ou tomar um copo de vinho no final do dia. O que não pode é achar que, por estar isolado, dá para comer só porcaria desde o café da manhã até o jantar diariamente. Tem de encontrar um meio-termo, ter prazer na comida, mas não prejudicar a sua saúde.” Cabe a cada um de nós encontrar esse ponto de equilíbrio. 

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Baixa renda sofre com falta de merenda e de refeição no trabalho

Na pandemia, faixa mais vulnerável passou a comer menos e teve de recorrer até a marmita gratuita para alimentar a familia

José Fucs, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 12h36

Durante a quarentena do novo coronavírus, que já dura mais de três meses em boa parte do País, cerca de 60% dos brasileiros, segundo as pesquisas, conseguiram manter o peso e 17% até emagreceram, ao contrário do que se poderia imaginar inicialmente. Mas, entre os mais pobres, isso não foi uma decisão voluntária, mas uma restrição compulsória. 

Muitos dos que perderam o emprego, tiveram o trabalho suspenso ou a jornada reduzida estão comendo menos, porque simplesmente não têm dinheiro para se alimentar bem. Além de terem ficado sem as refeições no trabalho, em geral subsidiadas pelo empregador e mais balanceadas do ponto de vista nutricional, o problema se agravou com a falta da merenda escolar das crianças. 

A dona de casa Claudia Fátima Nassar Reis, que mora no bairro do Morumbi, em São Paulo, conta que Sílvia, sua empregada, teve de recorrer a marmitas distribuídas gratuitamente por organizações sociais na comunidade de Paraisópolis, mesmo recebendo o salário integral, apesar de sua jornada de trabalho ter sido reduzida na quarentena. Foi a forma que ela encontrou para alimentar a si mesma e aos filhos, que Sílvia cria sozinha. 

“Muitas pessoas estão passando necessidade mesmo e tiveram que diminuir o consumo alimentar”, diz a nutricionista Marcia Nacif Pinheiro. “Antes, com a merenda escolar, a situação era bem melhor. Agora, nem isso eles têm.”

Conhecimento menor. Nas faixas de menor renda, segundo ela, há também o grupo dos que conseguiram manter a capacidade de consumo de alimentos, mas têm um conhecimento sobre alimentação muito menor do que a classe média e média alta. Muitas vezes, na hora de ir ao supermercado, acabam escolhendo produtos com mais carboidrato, gordura e açúcar, que, apesar de serem saborosos, podem prejudicar a saúde quando consumidos em excesso. 

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