ANDREA PATTARO/ AFP
Turistas na Itália usam máscaras cirúrgicas nas ruas, por medo de coronavírus ANDREA PATTARO/ AFP

Itália confirma sétima morte por coronavírus

O ministério da saúde italiano divulgou novo boletim informativo indicando que o número de mortes cresceu de seis para sete pessoas. Ao todo, o governo italiano contabiliza 283 pessoas afetadas

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2020 | 08h38

O ministério da saúde italiano divulgou nesta terça-feira, 25, novo boletim informativo sobre o coronavírus. O comunicado oficial indica que o número de mortes cresceu de seis para sete pessoas. Ao todo, o governo italiano informa contabilizar 283 pessoas afetadas pelo vírus. A região mais afetada é a Lombardia, com 212 pessoas infectadas e seis mortes. A região do Vêneto aparece em seguida, com 38 afetados e uma morte. A região da Emília Romana apresenta 23 casos, Piemonte, 3, e a região do Lazio outras três pessoas - sendo dois turistas chineses que estão hospitalizados desde 30 de janeiro. Há pessoas infectadas, ainda, na Toscana (2), Sicília (1) e Trentino (1).

A situação na Itália chama atenção das autoridades por conta da velocidade com que as mortes passaram a ser notificadas. A emergência fez com que missas fossem canceladas no norte da Itália, tudo por conta de um decreto do ministério da saúde com validade até 1º de março. A recomendação das autoridades é "evitar, na medida do possível, frequentar lugares superlotados e participar de manifestações e eventos públicos". Cerca de 5,5 mil escolas também foram fechadas, assim como creches, cinemas, discotecas e até museus.

As mortes e o aumento de casos fez com que brasileiros relatassem ao Estado uma situação preocupante no norte do país, a região mais afetada. Há ruas vazias e corrida por máscaras que evitem de alguma forma a transmissão do vírus. Segundo o motorista de Uber brasileiro Wenderson, há dois anos em Milão, o movimento caiu ao menos 40%. “Ninguém quer saber de sair de casa." Cenas como a de El Duomo e do Ópera alla Scala fechados, famosos pontos turísticos, começam a correr o mundo.

Curadora do Salão Satélite, mostra que ocorre paralelamente ao Salão do Móvel de Milão, Marva Griffin teve de rever seus planos de viagem. Com conferência confirmada para março, em São Paulo, ela cancelou seu compromisso. “Nossa diretoria proibiu qualquer deslocamento de nosso staff para o exterior até segunda ordem. Jamais vi situação como esta.”

O novo coronavírus já infectou mais de 80 mil pessoas em todo o mundo. Vale lembrar que a doença, por enquanto, tem maior incidência na China, onde foram relatados os primeiro casos. Somente na parte continental do país asiáticos são 2.663 mortes em 77.658 casos, principalmente na província de Hubei.

Situação no Brasil

Enquanto afirma ter controle da situação, o governo brasileiro anunciou ontem que vai monitorar passageiros vindos da Itália, mas também da França e Alemanha que apresentem sintomas. O ministro das relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou ontem ao Estado que o País acompanha a situação na Itália e seguirá as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Para entender mais sobre o novo coronavírus e seus impactos na saúde, o Estado preparou um infográfico que mostra os casos confirmados ao redor do mundo bem como uma lisrta de perguntas e respostas para orientar o leitor em caso de dúvida. Há ainda respostas para perguntas específicas sobre a situação na Itália, e para as pessoas com viagem marcada para aquele país. 

Confira a lista atualizada de casos e mortes notificadas

  • China: 77.658 casos e 2.663 mortes
  • Macau: 10 casos
  • Hong Kong: 81 casos e 2 mortes
  • Coréia do Sul: 977 casos e 11 mortes
  • Japão: 840 casos, 4 mortes (693 casos do navio Diamond Princess)
  • Cingapura: 90 casos
  • Austrália : 22 casos
  • Malásia: 22 casos
  • Vietnã: 16 casos
  • Filipinas: 3 casos e 1 morte
  • Camboja: 1 caso
  • Tailândia: 37 casos
  • Índia: 3 casos
  • Nepal: 1 caso
  • Sri Lanka: 1 caso
  • Estados Unidos: 53 casos
  • Canadá: 11 casos
  • Itália: 283 casos e 7 mortes
  • Alemanha: 16 casos
  • França: 12 casos e 1 morte
  • Reino Unido: 13 casos
  • Rússia: 2 casos
  • Espanha: 2 casos
  • Bélgica: 1 caso
  • Finlândia: 1 caso
  • Israel: 2 casos
  • Suécia: 1 caso
  • Croácia: 1 caso
  • Áustria: 2 casos
  • Irã: 95 casos, 14 mortes
  • Emirados Árabes Unidos: 9 casos
  • Kuwait: 8 casos
  • Omã: 2 casos
  • Egito: 1 caso
  • Líbano: 1 caso
  • Iraque: 1 caso
  • Afeganistão: 1 caso
  • Bahrein: 2 casos

 

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Coronavírus: O que você precisa saber para viajar para a Itália

CONTEÚDO ABERTO PARA NÃO-ASSINANTES: País acumula 283 pessoas afetadas pelo novo vírus; sete morreram e um paciente foi curado

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2020 | 08h46

O avanço do novo coronavírus pela Itália despertou a atenção dos brasileiros para uma série de questões envolvendo viagens para o país europeu. Enquanto brasileiros na Itália relatam ruas vazias e corrida por máscaras nas regiões mais afetadas, as dúvidas por aqui giram em torno de eventuais restrições impostas para quem pretende viajar para o país, quais são as regiões mais afetadas e, até mesmo, quais os procedimentos para cancelar uma viagem, se assim desejar. 

Para sanar essas e outras dúvidas, o Estado publicou um perguntas e respostas específico sobre a situação na Itália, país que acumula 283 pessoas afetadas pelo novo coronavírus, sete mortes e uma pessoa curada - os dados são oficiais do ministério da saúde italiano e atualizados até esta terça-feira, 25, às 12h (horário local de Roma); Confira o perguntas e respostas

Há alguma restrição de viagem à Itália por causa do novo coronavírus?

Por enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) não fez nenhuma recomendação deste tipo e o Brasil também não deu essa orientação para a população. Alguns países, porém, já estão tomando essa decisão, como Bósnia, Croácia, Macedônia, Sérvia, Irlanda, Israel, de acordo com o jornal italiano La Repubblica. Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos recomendaram a seus viajantes cuidado. Já a França está colocando em quarentena viajantes que retornarem da Lombardia e do Vêneto, as mais afetadas, também de acordo com o jornal. O governo brasileiro só tem recomendado evitar viagens à China. 

Quais regiões da Itália são as mais afetadas?

A porção norte da Itália é a que concentra a maior parte dos 229 casos já identificados, em especial os estados da Lombardia e do Vêneto. Pelo menos 11 cidades foram colocadas em quarentena: Casalpusterlengo, Codogno, Castiglione d'Adda, Fombio, Maleo, Somaglia, Bertonico, Terranova dei Passerini, Castelgerundo e Sanfiorano, na região da Lombardia, onde vivem cerca de 50 mil pessoas, e Vo 'Euganeo, no Vêneto, com quatro mil habitantes.

Devo cancelar minha viagem à Itália?

Apesar de a taxa de transmissão ser alta, a maior parte dos casos é leve e a taxa de mortalidade é de 3% para os casos mais graves. Pessoas jovens, sem nenhuma outra comorbidade, podem viajar, mas é preciso tomar precauções, visto que a doença pode ser transmitida, mesmo não causando sintomas.  Segundo a OMS, dos registros na Itália, quatro em cada cinco infectados tiveram sintomas leves ou nenhum sintoma.  

Se quiser cancelar a viagem, a companhia aérea me reembolsa?

O Código de Defesa do Consumidor estabelece que é direito do consumidor a proteção à sua vida e sua saúde, então, diante da epidemia, é possível negociar com companhias aéreas e agências de turismo. Como ainda não há recomendação da OMS para se evitar viagens, a decisão deve ser tomada caso a caso. Viajantes que iriam para eventos que forem cancelados também podem usar isso como argumento.

Se viajar à Itália, quais cuidados devo tomar?

Os cuidados são semelhantes aos da gripe. Lavar sempre as mãos, manter distância de 1,5 metro a 2 metros das pessoas infectadas ou que apresentem algum tipo de infecção respiratória, principalmente se forem provenientes de alguma região de risco. Outra medida que pode ajudar é o uso de máscaras.

Embaixada do Brasil em Roma afirma que governo não restringiu voos vindos da Itália

A embaixada do Brasil em Roma informou na manhã desta terça-feira, em nota, "que o governo brasileiro não estabeleceu restrições a voos provenientes da Itália" por causa do avanço do novo coronavírus naquele país. O órgão diplomático relatou manter contato com o governo italiano sobre a doença, para esclarecer a comunidade brasileira naquele país. "Até o momento, não se tem notícia de contágio na comunidade brasileira", relatou.

Na nota, a embaixada brasileira relata que o governo italiano toma as medidas necessárias para conter a difusão do vírus, principalmente nas regiões do norte do país. A embaixada cita um comunicado do governo local com uma série ações previstas e tomadas para frear o coronavírus.

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Brasil vai monitorar passageiros vindos de Itália, França e Alemanha com sintomas de coronavírus

Região norte italiana confirmou seis mortes pela doença desde a semana passada; China, Japão, Coreia do Sul, Tailândia e Irã também estão no rol de alerta

Mateus Vargas e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 16h34
Atualizado 11 de abril de 2020 | 21h44

BRASÍLIA - O Ministério da Saúde adicionou nesta segunda-feira, 24, países na lista de alerta do novo coronavírus, incluindo os primeiros três da Europa: Itália, Alemanha, França. Além desses, entram no rol do governo federal Austrália, Filipinas, Malásia, Irã e Emirados Árabes.

Isso significa que serão considerados suspeitos da doença passageiros que estiveram nesses locais e que apresentem sintomas da doença, como febre e tosse. O novo enquadramento, antecipado pelo Estado, é resultado da confirmação da transmissão do vírus dentro desses países.

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, disse que o Brasil seguiu orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para ampliar a lista de países em alerta. O critério da organização, segundo Oliveira, é inserir na lista os locais com ao menos cinco casos com transmissão interna da doença - que não foram "importados".

Antes da nova definição, pessoas com sintomas de gripe vindas da Itália, por exemplo, não recebiam atenção especial da vigilância sanitária brasileira, pois a suspeita do novo coronavírus era descartada na hora. Agora, haverá um protocolo específico pelo qual, caso o passageiro tenha febre associada a algum outro sintoma, será enquadrado automaticamente como caso suspeito.

Uma análise clínica poderá ser feita no desembarque pela autoridade sanitária e, caso a suspeita se mantiver, o passageiro deverá ser levado a um hospital. Além da China, epicentro do novo coronavírus, o Brasil já havia colocado no mesmo rol de alerta, na semana passada, casos de passageiros vindos do Japão, Cingapura, Coreia do Sul, Coreia do Norte, Tailândia, Vietnã e Camboja.

O secretário de Vigilância em Saúde disse que o Brasil não proíbe ou desestimula viagens para nenhum destes novos países em alerta. Há recomendação do governo para que não sejam feitas viagens apenas para a China, onde mais de 2,5 mil pessoas morreram após serem contaminadas.

 

Em conversa exclusiva com o Estadão/Broadcast nesta segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que o Brasil está acompanhando a situação do novo coronavírus na Itália e seguirá as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para evitar que a epidemia chegue ao País.  "Não faríamos nada isoladamente", disse o ministro.

Oliveira afirmou que o Brasil não cogita adotar medidas restritivas, como impedir a circulação de pessoas ou mercadorias. O secretário disse que medir a temperatura de todos os passageiros vindos de países sob alerta também seria ineficaz. "Muitos casos se transmitem mesmo sem febre. Ou seja, temos situações que passam fora deste padrão."

"O que estamos trabalhando é para que equipes de saúde estejam atentas. Para que no momento em que uma pessoa que tem histórico de viagem (por um das países da lista) procurar serviços de saúde, seja investigado também a possibilidade de novo coronavírus", afirmou o secretário.   

Na Europa, a maior preocupação é com a Itália, que já registrou mais de 200 casos e seis mortes. O surto se concentra principalmente no norte do país, onde ao menos 11 cidades foram colocadas sob quarentena.

No caso do Irã, o país se tornou no domingo, 23, o que mais regitrou mortes fora da China, com oito vítimas. Ao todo, são 43 casos confirmados entre os iranianos.

Segundo dados do Ministério da Saúde desta segunda-feira, 24, há quatro casos suspeitos da doença no Brasil, sendo três em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Um dos suspeitos viajou recentemente ao Japão e só teve o caso considerado devido a inclusão do país na lista de alerta. Já foram descartadas 54 análises. 

Oliveira afirma que devem aumentar os casos suspeitos no Brasil com a ampliação do rol de alerta.  "Há fluxo maior de voos diretos ao Brasil (dos países que passam a ser analisados). A gente terá mais capacidade de identificar casos potencialmente suspeitos", disse o secretário.

Segundo dados da OMS, há no mundo 79.409 casos confirmados da doença e 2.622 óbitos. Apesar de estarem registrados em 32 países, a China concentra cerca de 98% das confirmações da doença. 

Governo está em fase final de contratação de equipamentos 

Segundo apurou o Estado, o governo está em fase final de contratação de equipamentos para combater a possível chegada da doença ao Brasil, como máscaras e luvas. Já a contratação de mil leitos em hospitais, anunciada no fim do mês passado pelo Ministério da Saúde como medida emergencial, ainda está em análise.

“Buscando aumentar a capacidade assistencial e trabalhar de forma adequada as fases de contenção e mitigação descritas no Plano de Contingência, o Ministério da Saúde está em processo de contratação de 1.000 leitos de UTI distribuídos em todo território nacional.

O mapeamento dessas necessidades se dá pelos profissionais da Secretaria de Atenção Especializada e Secretaria de Atenção Primária do Ministério da Saúde e que compõem o COE COVID-19”, disse o Ministério da Saúde, em nota enviada nesta segunda-feira.

O governo também corre para garantir a compra de imunoglobulina, medicamento usado em pacientes com imunidade baixa e para amenizar efeitos de infecções.

O medicamento pode ser usado em pacientes infectados pelo novo coronavírus. A ideia é trazer o produto emergencialmente da China e da Coreia do Sul, mas a finalização da importação ainda aguarda aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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'Não sabemos potencial da transmissão sem sintoma; coronavírus pode passar despercebido'

Especialista em infectologia explica qual é o status da epidemia de coronavírus com a propagação dos casos pela Europa e quais são os riscos de chegar ao Brasil

Entrevista com

Nancy Bellei

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 20h35

SÃO PAULO - Com a chegada do novo coronavírus na Itália e a rápida propagação dos casos no país, aumenta o temor de que ele se espalhe para a Europa e dali para outras partes do mundo. Já é hora de falar em pandemia? Com a comunicação mais intensa do continente com o Brasil, as chances de um passageiro com o vírus chegar ao País são maiores? Estamos preparados?

Para responder a essas questões, conversamos com a infectologista Nancy Bellei, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ela explica que o risco é maior e que ainda há muitas dúvidas sobre a dinâmica da epidemia, o que gera insegurança sobre a melhor estratégia para conter a epidemia, se é que ainda é possível. 

De acordo com ela, muito provavelmente casos assintomáticos estão passando despercebidos e isso talvez possa explicar a rápida propagação na Itália. Do ponto de vista individual, diz que o risco da doença é baixo, mas para o sistema público de saúde, pode ser o caos. Para o Brasil, ela recomenda um diálogo franco com a comunidade. Se a epidemia chegar, as pessoas que tiveram quadros leves da doença devem saber que têm de ficar em casa, deixando os hospitais para os casos graves.

O rápido avanço da epidemia de coronavírus pela Itália indica que se está se caminhando para uma pandemia?

Não é só na Itália. Há um número grande também na Coreia, no Irã. Mas a maior parte dos casos italianos está em comunas próximas de Milão. São cidades pequenas, periféricas, onde fica mais fácil controlar os habitantes, então talvez seja possível ter uma certa contenção do vírus. Mas epidemias são imprevisíveis, não dá para saber se dali vai para o resto da Europa. É um momento extremamente difícil. Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) não declara que temos uma pandemia, gera uma instabilidade. Cada país toma uma providência sobre barreiras, sobre como lidar com voos. Mesmo no local que está com o vírus, alguns lugares são fechados, outros não. Uma agência de saúde pode ser mais agressiva, outros países podem deixar mais solto. Falta esse consenso internacional.

Muito se fala que apesar de ser transmitido muito rapidamente, o Covid-19 tem uma baixa letalidade. Há realmente motivo para preocupação?

Muitas pessoas têm comparado com a epidemia do H1N1, de 2009, em que se esperava uma coisa e não foi bem assim. De fato esse coronavírus tem uma mortalidade menor, mas há muitas diferenças. Ele não tem até o momento tratamento; o influenza tem, desde que comece cedo. Não existe imunidade para ele na população; O influenza nós sabemos que tem predileção por algumas faixas etárias. A transmissibilidade desse vírus, pelo que se vê, é mais elevada do que para outros vírus respiratórios. Mas temos incertezas ainda sobre a dinâmica da epidemia. Se durante o período assintomático, o vírus transmite com a mesma eficiência; se a pessoa continua transmitindo mesmo depois de ter se recuperado. O que sabemos até agora são de algumas publicações e relatos sobre alguns grupos na China, mas não temos, por exemplo, ainda, um estudo sobre o efeito na comunidade. Para o H1N1  isso tudo foi descoberto e compartilhado muito rapidamente. Tínhamos dados dos Estados Unidos, do México para entender como estava evoluindo. Mas a epidemia está lá na China desde dezembro e ainda não sabemos essas coisas. A OMS mesmo só entrou na China há cerca de duas semanas para entender a epidemia. Ainda não tivemos acesso ao panorama completo. 

Qual é o risco?

A gente tem de olhar a questão sob dois ângulos. Do ponto de vista individual, se uma pessoa me pergunta se ela deve ir para Milão, se ela tem chance de morrer, temos de considerar o seguinte. Se é uma pessoa jovem, sem nenhuma comorbidade, a chance é mínima, porque a maioria dos casos é leve. A chance de óbito nos casos críticos é de 3%. Mas do ponto de vista da saúde pública, temos de pensar que a epidemia pode gerar um caos. Imagine uma cidade com 3 mil habitantes que fechou escolas, comércio, fábricas, com um monte de gente procurando hospital, pessoas com a doença, mas também aqueles só com suspeita, mas que estão assustados. E os profissionais de saúde também podem ficar doentes, o que diminui a oferta de atendimento e não tem como aumentar. E mesmo que a mortalidade não seja alta, se um hospital tem três leitos numa UTI e eles são ocupados por esses pacientes, como ficam pessoas com outras doenças? Não é todo mundo que constrói um hospital novo em dez dias, como ocorreu na China.

Com o vírus sendo transmitido na Europa, aumentam as chances de chegar ao Brasil?

Com certeza, quanto mais países europeus ou americanos tiverem a doença, mais chance de ter um passageiro vindo para cá. O problema é que existe transmissão assintomática e não sabemos o potencial disso. Já podem ter chegado pessoas assintomáticas ou com quadro leve e ainda não sabermos.  Muito provavelmente o que aconteceu na Itália é que o vírus passou despercebido por algum tempo. De acordo com relatos do Ministério da Saúde local, dois chineses foram internados com a doença no final de janeiro em Roma. Deve ter sido feito um alerta na região, mas não foi suficiente para todo mundo ficar atento no norte do país. Casos leves provavelmente não foram notados. Afinal, é inverno, é normal ter gente espirrando ou tossindo por outros vírus respiratórios. Sem o alerta, alguém com febrinha ou tosse não vai procurar o serviço de saúde. Mas quando surge a notícia de um vírus novo na cidade, aí todo mundo procura, por isso tantos casos. Certamente a coisa não se espalhou somente em três dias. A literatura indica que quando aparece o primeiro caso grave de hospitalização ou de óbito, é porque o vírus já está circulando há pelo menos três semanas na comunidade. 

O Brasil está preparado para a epidemia, se ela chegar por aqui?

No momento, o que o País anunciou estar fazendo está correto: de fazer as orientações para a população, os alertas em aeroportos, os atendimentos para casos suspeitos. Para este momento em que ainda não temos documentação de transmissão local está correto. Mas se chegar aqui mesmo, aí vai ser a prova de fogo se houve treinamento dos profissionais de saúde, se há garantia dos suprimentos hospitalares para os serviços públicos de saúde. É preciso ter seriedade na comunicação com a população. Tem de explicar o que é a doença, quais são os sinais de alerta, quando se deve ficar em casa. É preciso ter planos de contingência para estabelecer quanto tempo uma pessoa contaminada não deve ir trabalhar ou ir para a escola. Tudo tem de ficar claro desde o início. Evitar que a epidemia tome um vulto grande ou que a situação fique caótica depende muito de as pessoas entenderem: se estou doente e não preciso do hospital, não vou a lugares públicos para mitigar a epidemia e vamos reservar os hospitais para quem precisa.

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