Clóvis de Souza Prates /HCPA
Profissionais de saúde e autoridades relatam preocupação com a alta de jovens entre internados e vítimas da covid-19 Clóvis de Souza Prates /HCPA

Ivermectina, solidão na UTI e morte à espera de aparelho: histórias de jovens com covid

Autoridades de saúde e médicos têm relatado maior presença de infectados mais novos na segunda onda da pandemia no Brasil

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2021 | 10h00

Com o novo agravamento da pandemia no Brasil, profissionais de saúde e autoridades relatam preocupação com a alta de jovens entre internados e vítimas da covid-19. "Antes eram idosos e portadores de doenças crônicas, o que chamamos de comorbidade. Hoje é de 60% mais jovens, na faixa de 30 a 50 anos, sem doença prévia", disse este mês o secretário da Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn. Na segunda onda da doença no Amazonas, hospitalizados entre 20 e 59 anos foram a maioria, diferentemente do primeiro pico, entre abril e maio do ano passado, quando predominavam pacientes idosos nos hospitais. 

Ainda não há estudos consolidados sobre o crescimento da participação desse grupo etário. Especialistas ainda investigam se a maior presença de jovens relatada por médicos está ligada a uma maior exposição ao vírus - com o afrouxamento da quarentena e a frequência em aglomerações, como bares e festas - ou a novas variantes do Sars-CoV-2. 

Se antes os jovens chegavam quase sempre assintomáticos, “hoje cada vez mais comum internar esse grupo populacional devido à gravidade de casos”, diz o infectologista Maurício Campos, que atende em uma UTI para pacientes com covid-19 na Bahia. Na opinião do médico, a doença tem se mostrado mais agressiva entre os mais novos.

Em Monte Carmelo, cidade no Triângulo Mineiro, não houve registro de nenhuma morte de ninguém com menos de 50 anos em 2020. Já de fevereiro para cá, cinco pacientes com 39 anos ou menos morreram de complicações da doença na cidade. De todas, apenas uma tinha comorbidades comprovadas. A secretária municipal de Saúde, Ana Flávia Novais e Silva, ainda não tem uma resposta definitiva, mas acredita no peso de novas variantes - principalmente a de Manaus (P.1), cujos estudos preliminares apontaram ser mais transmissível. "Além disso, a doença tem se apresentado mais agressiva. Os pacientes têm chegado com o pulmão bastante comprometido, bem comum estar acima de 75% de infiltração."

Para as famílias e os pacientes mais novos, o sentimento é de surpresa, solidão e de trajetórias terminadas antes da hora. Segundo os parentes, muitos costumavam praticar exercício físico e não tinham outras doenças. Entre os infectados, houve quem morreu à espera de um equipamento para fazer o trabalho do pulmão, que perdeu a capacidade de absorver oxigênio. Outros doentes apostaram em remédios cuja ineficácia foi comprovada pela ciência - o presidente Jair Bolsonaro defendeu o uso desses medicamentos - e chegaram a adiar a busca por ajuda médica. 

Estadão conta a seguir histórias de jovens que foram internados ou perderam a vida por causa do novo coronavírus. Nesta quarta-feira, 10, o Brasil registrou 2.349 mortes pela doença, recorde de toda a pandemia. Especialistas afirmam que a alta de hospitalizações e óbitos deve continuar nas próximas semanas e pode se agravar com o colapso do sistema de saúde em várias regiões. /LEONARDO AUGUSTO, FERNANDA SANTANA, FÁBIO BISPO e LIEGE ALBUQUERQUE, ESPECIAIS PARA O ESTADÃO

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'Tentou fazer recuperação em casa, tomou ivermectina', diz primo de vítima de 36 anos

Remédio não tem eficácia contra a doença; potiguar frequentava academia e não tinha comorbidade

Ricardo Araújo, Especial para o Estadão

11 de março de 2021 | 10h00

*Depoimento de Bruno Belmont, primo de Gerdson Damasceno, morto aos 36 anos pela covid, sem comorbidade, em Natal.

"Ele tinha 36 anos, iria fazer 37 em agosto. Ficou em casa um bom tempo dizendo que era apenas uma gripe que pegou do padrasto, que trabalha com embarcação. Mas eles fazem testes antes de ir e até mesmo lá, na Petrobras. E quando fez o teste com o padrasto, deu negativo. Essa gripe foi piorando, piorando... E ele cada vez mais em casa. 

Depois, foi fazer o teste para a covid e deu positivo. Aí foi onde tentou fazer sua recuperação em casa, tomou ivermectina (remédio defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e cuja ineficácia foi comprovada pela ciência. A fabricante do remédio não recomenda a prescrição em casos de covid-19). Cada vez mais, o estado de saúde piorando. Quando foi no 11º dia, não aguentou mais. Ele não aguentava se levantar da cama para ir ao banheiro fazer suas necessidades. E tivemos de levar ele para o hospital. Chegando ao hospital, foi para a ala da UTI da covid. 

A saturação estava muito baixa, na faixa dos 50%, e teve de ir para o oxigênio direto. No domingo, foi entubado e na quinta faleceu com uma parada cardiorrespiratória. 

Comorbidade, não tinha. Era atleta, jovem. Todos os dias ele caminhava no condomínio. Estava começando a fazer tênis e também ele fazia muito academia. Não fumava. Bebia socialmente, mas não vivia bebendo. Era solteiro, não tinha filhos. Morava com a mãe e com o padrasto. Era autônomo, mexia com compra e venda de carros, mas não tinha um negócio certo. A gente era muito próximo. 

Ele era muito família. Nunca se espera que vai acontecer com a gente ou com uma pessoa próxima. A gente só começa a entender essa doença depois que um ente querido próximo adoece e falece, perde essa luta contra a covid. Começa a ficar mais receoso, com medo, a fazer as coisas que a OMS determina, a limpeza das mãos, uso da máscara, só sair (de casa) com extrema necessidade, uma urgência mesmo. A gente começa a se preocupar mais com isso. Até então, quando não acontece nada perto da gente, a gente não liga muito. Eu mesmo não estava ligando muito. Com essa perda, tanto ele como a esposa do meu tio, a gente começa a se preocupar mais. Minha esposa está grávida de oito meses e estamos muito abalados e preocupados. Estamos tomando todas as medidas para não pegar essa doença, que é terrível." /DEPOIMENTO A RICARDO ARAÚJO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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'Ficou esperando equipamento e morreu sem poder respirar', diz jovem sobre padrasto de 38 anos

Família foi à Justiça para conseguir pulmão superficial para Marcos, mas ele não resistiu enquanto esperava o aparelho

Fábio Bispo, Especial para o Estadão

11 de março de 2021 | 10h08

*Depoimento de Larissa Rafaela Marques, 20, enteada de Marcos Evandro Drumm, 38, que mesmo com decisão judicial para receber tratamento específico contra a covid-19 acabou entrando para as estatísticas de mortes sem o tratamento adequado.

"O Marcos era supervisor de loja, viajava o Estado (de Santa Catarina) inteiro atendendo clientes. Moramos em Xaxim, no Oeste, e eu o tinha como um pai. Éramos muito amigos e ele era uma pessoa maravilhosa. Ele e minha mãe tinham planos de construir uma casa. Era uma pessoa que gostava das coisas simples da vida, cheia de sonhos.

No dia 6 de fevereiro, ele precisou ser internado. Foi para Chapecó, mas a situação lá está um caos e ele piorou. Foi transferido para Rio do Sul, perto de Blumenau. O médico, então, disse que ele precisava desse equipamento, um pulmão artificial.

Você não imagina como corremos atrás desse aparelho. Custa R$ 200 mil, mas nem comprar podíamos, porque não vendem para pessoa física. Aí descobrimos que tinha um aparelho disponível em um hospital privado em Blumenau. Procuramos políticos, médicos, o Estado, mas sempre falavam a mesma coisa: que tinha uma burocracia a ser cumprida.

Conseguimos uma decisão judicial que obrigava o governo a fornecer o aparelho em 48 horas. Achamos onde tinha o equipamento, mas ninguém fez nada. É um sentimento de frustração. 

Tinha equipamento, era uma questão de as pessoas terem entendido melhor a situação, a burocracia ter sido menos rígida. Foi essa burocracia que matou o Marcos, que ficou esperando, esperando e o equipamento nunca chegou. Até que ele morreu sem poder respirar."

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'A angústia de estar ali, sozinha, com oxigênio no rosto o tempo todo, é incessante'

Valéria Angelim, de 39 anos, ficou internada no Amazonas após ter sido diagnosticada com covid-19. 'Meu pavor era ser entubada, eu obedecia tudo, não me mexia'

Liege Albuquerque, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2021 | 10h00

*Depoimento de Valéria Angelim, de 39 anos, que foi hospitalizada no Amazonas. 

“Com todos os cuidados possíveis, uso de máscara sempre, minha irmã, que trabalha como psicóloga num posto de saúde, pegou covid entre a primeira e segunda dose da vacina. Ela, contudo, estava assintomática e acabamos, minha mãe e eu, nos contaminando. E somos todas saudáveis, sem nenhuma comorbidade.

A primeira providência depois de saber que nós três, adultas, estávamos contaminadas foi enviar minhas sobrinha, de 11 anos, testada e negativa para covid, para a casa de uma amiga até que nós três estivéssemos bem. No começo da doença, eu era a mais bem disposta, fiquei cuidando da minha mãe e da minha irmã, que estavam com tosse, dor no corpo, febre, enquanto eu ‘só’ sentia dor nas costas, por uns três dias.

A dor estava cada vez pior, na verdade, mas eu estava de licença do trabalho por conta da doença e pensava que, quando acabasse, se elas ainda estivessem doentes, eu ficaria muito culpada. Só que a dor foi piorando, e a tosse também. Estávamos todas medicadas, inclusive com ivermectina, passada pelo médico. E como a gente vai dizer que não vai tomar um medicamento prescrito? (O uso de ivermectina não tem eficácia comprovada contra a covid-19. A fabricante do remédio não recomenda a prescrição em casos de covid-19)

Quatro dias de dor intensa nas costas fui ao posto e, de lá, já fui transferida para o Hospital Delphina Aziz (unidade de referência contra a covid-19 em Manaus), com oxigênio no rosto, pulmões brancos na tomografia e saturação de 79%. Fiquei muito assustada, tive uma crise de pânico, afinal tinha ido só para uma troca de medicação por conta das dores.

Tiraram minhas roupas, colocaram bata e fralda e a orientação era me mexer o mínimo para não piorar a saturação. Meu pavor era ser entubada, eu obedecia tudo, não me mexia, mas mesmo assim fiquei mais de dez dias sendo pronada (quando o paciente fica de bruços) diversas vezes. É uma sensação muito triste, ficar olhando para o chão ou para o lado, imóvel.

Por mais que você fique muito sonolenta pelos medicamentos, perca totalmente a noção do tempo, com aqueles bips do semi-intensivo, a angústia de estar ali, sozinha, com oxigênio no rosto o tempo todo, no soro, é incessante. Quando fui sozinha a primeira vez ao banheiro, já quase para ter alta, eu chorei. Ficar dias parada com pavor de piorar mais ainda e ser entubada só entende quem passou: é paralisada mesmo, porque ao pequeno esforço, a saturação baixava.

Mas enfermeiros e médicos foram muito humanos, durante todos os 15 dias que fiquei internada, e só soube quando recebi alta, que foi esse tempo todo. Se não fosse esse acalanto dos médicos e enfermeiros, sempre dando força para mim e aos pacientes ao redor, não sei o que seria de mim.” 

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'Meu irmão jovem, saudável, hoje está internado, sozinho'

Jeanderson Motta contraiu coronavírus pela 2ª vez e está internado na Bahia. 'Meu irmão tem 29 anos e nunca imaginaríamos que hoje estivesse internado, com 15% dos pulmões comprometidos', lamenta irmão mais novo

Fernanda Santana, Especial para o Estadão

11 de março de 2021 | 10h00

*Depoimento de Ramon Motta, de 23 anos, irmão de Jeanderson Motta, de 29, funcionário de supermercado internado com coronavírus em Camaçari, no interior da Bahia.

"A primeira vez que meu irmão Jeanderson teve coronavírus foi na primeira onda, em março do ano passado. Todo mundo estava tentando entender o porquê da máscara, do álcool. Teve sintomas leves, mas ficou com a sequela de ter crises de falta de ar. Ele já estava trabalhando na época, em um supermercado. Há sete dias, se infectou de novo. A gente tomou um susto, porque ele já tinha tido. Ele não contou para ninguém, para não preocupar. 

Só me ligou quando não aguentava mais. Meu irmão é uma das pessoas mais fortes que conheço. Para ele ter ligado dessa forma, desesperado, acho que foi de fato muito porque ele precisava. Meu irmão tem 29 anos e nunca imaginaríamos que hoje ele estivesse internado, com 15% dos pulmões comprometidos. Na última madrugada (dia 5), teve muita febre, estava tossindo muito. 

Quando chegamos no hospital, ele ainda ficou na enfermaria, esperando um leito. Vi muitos jovens adentrando na emergência. E deu para ver os profissionais de saúde exaustos. Pensei que não sei mais o que pensar e onde vamos acabar. 

Achamos que ele contraiu o vírus no ônibus, agora, ou trabalhando, porque ele trabalha com muita gente jovem, e a gente está vendo o comportamento dos jovens, sem levar a sério. Meu irmão tomava muito cuidado. Faz atividade física regular, musculação e corrida, é uma pessoa jovem e saudável. Hoje está internado, sozinho. É uma situação solitária. Acho que precisamos falar com nossa juventude, porque não dá para pensar nesse problema só depois que adoecermos". /DEPOIMENTO A FERNANDA SANTANA, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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'Ela tinha uma saúde ótima': jovem deixou dois filhos pequenos no interior de MG

Sabrina, de 32 anos, chegou a ser dispensada pelo médico após primeiro atendimento, mas voltou ao hospital por não conseguir respirar

Leonardo Augusto, Especial para o Estadão

11 de março de 2021 | 10h00

*Depoimento de Mônica Terezinha Oliveira, de 51 anos, do município de Monte Carmelo (MG), mãe de Sabrina Cássia de Oliveira Nesso, 32, que morreu de covid-19 no último dia 6.

"A filha mais nova dela, Analice, nasceu no dia 17 de fevereiro. Hoje (terça-feira, 9), completa 20 dias. Já tinha a Antonella, de 1 ano e 9 meses. Sabrina me disse na manhã do dia 21 de fevereiro que não estava conseguindo respirar à noite. Fomos ao médico.

Ele examinou os pulmões e disse que estava tudo bem. Nós voltamos para casa. Mas na manhã seguinte, ela continuou passando mal. Fomos novamente ao pronto-socorro. Fizemos o teste para covid-19 e deu positivo.

Sabrina foi internada. No mesmo dia, ela me ligou dizendo que iria para a unidade de terapia intensiva. Ela tinha uma saúde ótima. Nunca teve problema nenhum. Temos agora de pedir força a Deus para criar as meninas. Minha cabeça está muito ruim.

Morávamos aqui eu, meu marido, ela, as duas meninas mais um filho e uma filha meus. Meu marido , meu filho e eu já havíamos pegado covid-19. Mas não sei onde nós e ela pegamos. Não sabemos para onde esse vírus vai ou de onde vem"./DEPOIMENTO A LEONARDO AUGUSTO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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