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Justo ou justificável?

Tentamos racionalmente explicar o que achamos ser o certo apenas intuitivamente

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2018 | 03h00

Pensar dá muito trabalho. Só para dar uma ideia, embora o cérebro represente muito pouco de nossa massa corpórea – não chegando a pesar dois quilos –, ele consome cerca de 20% de nossa energia, demandando sozinho 15% do fluxo de sangue do organismo. Essa voracidade toda talvez explique por que fazemos de tudo para não pensar. Sabendo do esforço que é produzir um pensamento, o cérebro joga o que pode para o piloto automático, poupando-nos de ter de raciocinar o tempo todo. A cena é familiar: estamos voltando do trabalho para casa, percorrendo aquele caminho de sempre e, de repente, parece que despertamos ao chegar ao portão. 

A sensação é de que o cérebro entrou em modo de descanso enquanto íamos automaticamente pelos caminhos que fazemos sem pensar. Na verdade não se trata de mera sensação – de fato somos capazes de compactar grandes sequências de comportamentos em módulos automáticos, que não dependem de reflexão consciente para serem realizados. Ou seja, a maioria das coisas rotineiras nós fazemos sem nos dar conta.

Essa avareza energética cerebral não se limita a tarefas motoras, no entanto. Mesmo nos processos decisórios, quando imaginamos estar sendo racionais e deliberados, na maioria das vezes as decisões são automáticas, influenciadas por fatores dos quais nem sequer temos consciência. É o que os diversos cientistas que estudam comportamento – de economistas a psicólogos – chamam de heurísticas. São atalhos mentais, utilizados para decidir diante de informações incompletas ou diante do excesso de informações. 

Ou seja, sempre. Pois raros são os momentos em que temos todos os dados que precisamos – e apenas eles – para decidir de forma totalmente racional. Estereótipos, palpites, senso comum, são todas heurísticas que usamos no dia a dia para nos poupar da desgastante tarefa de pensar. 

Pode parecer uma ameaça à nossa autoimagem de seres racionais. E, de fato, não gostamos nem um pouco dessa sensação – tanto é assim que adoramos justificar nossas opiniões, posturas e deliberações como se fruto fossem do mais intenso labor intelectual. 

Mas isso não passa de maquiagem. Os estudos de economia comportamental e psicologia da decisão provaram repetidas vezes que as justificativas que apresentamos para nós mesmos são meras tentativas de explicar racionalmente o que intuitivamente acreditamos ser o certo, o melhor, a direção a seguir. 

Quando o sujeito se põe a encadear ideias atrás de ideias, alinhavando-as com explicações elaboradas para dizer por que é a favor do aborto, contra o casamento gay, pró-armamento ou anti-imperialista, não se iluda. 

Ele não está explicando como considerou profundamente cada um dos argumentos de um lado e de outro da questão e, após ponderar durante longos períodos de introspecção, finalmente chegou àquela conclusão. Ele está apenas mantendo – para si mesmo – as aparências de ser racional.

A convicção do sujeito é anterior, consequência quase inescapável do seu ambiente cultural, das influências intelectuais a que foi exposto, da formação educacional que teve ao longo da vida, das tendências manifestas dos amigos a quem respeita. O trabalho da razão é só encontrar as razões dessa decisão.

Esse processo poucas vezes foi tão bem ilustrado como vem acontecendo nos julgamentos do Supremo Tribunal Federal. Atualmente, quando parece que não somos mais capazes de decidir entre vinho branco ou tinto sem recorrer ao STF, os ministros ganharam papel de destaque na sociedade como guias do que é ou não justo. 

Mas, ao nos depararmos com votos tão contrários uns aos outros, mencionando os mesmos artigos constitucionais sem vergonha de lhes dar interpretações diametralmente opostas, percebemos que qualquer coisa parece ser justificável. Basta enumerar argumentos suficientes. O trabalho dos ministros não é, fica claro, buscar na lei fundamentos para então decidir. Eles primeiro decidem e, então, buscam na lei fundamentos que os justifiquem. 

A culpa não é deles. É assim que todos decidimos. Seja entre casar ou comprar uma bicicleta, seja entre prender ou não alguém condenado em segunda instância.

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