USDA/Divulgação
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Laboratório de soro antizika vive crise no Rio de Janeiro

Diretoria do Instituto Vital Brazil foi demitida há 15 dias pelo secretário da Saúde, que assumiu o cargo em janeiro

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

23 Março 2016 | 03h00

RIO - Laboratório oficial do governo do Estado Rio de Janeiro e centro de pesquisa onde cientistas desenvolvem um soro antizika, o Instituto Vital Brazil (IVB) enfrenta uma crise institucional. A diretoria foi demitida há 15 dias pelo secretário estadual de Saúde, Luiz Antonio Teixeira Júnior, que assumiu o cargo em janeiro.

Diante da informação de que somente o Conselho de Administração poderia tomar tal decisão, o secretário convocou assembleia e destituiu os conselheiros, cujos mandatos iriam até 2018. Ele devolveu ao IVB, produtor de soros e medicamentos, o programa assistencial de distribuição de fraldas. Em reunião nesta terça-feira, 22, a nova diretoria foi empossada.

"O Vital Brazil está sob ameaça. Essa política de terra arrasada, de substituir diretoria inteira, é um atraso. Pensei que isso estivesse superado no Brasil", criticou o ex-diretor presidente Antônio Werneck.

Já o secretário Teixeira Junior disse que Werneck vem buscando "medidas protelatórias" com a intenção de "se perpetuar no poder". Werneck estava à frente do Vital Brazil desde 2007.

Entre as principais críticas de Werneck está o anúncio de que o IVB voltará a assumir o programa de distribuição de fraldas para 15 mil idosos. "Esse não é o foco do instituto. Esta é uma instituição de pesquisa, de produção de medicamentos. O secretário quer que um programa assistencial volte para o instituto, num claro desvio de função", disse ele.

O IVB produz cerca de 300 mil ampolas de soro por ano contra picadas de cobra, aranha, escorpião, além de soro antirrábico e antitetânico. Também produz medicamentos para Alzheimer e alguns tipos de câncer.

O secretário afirmou que é critério dele definir qual será a função do Vital Brazil. "O Estado investe R$ 50 milhões no IVB. E o que ele produz para o Estado do Rio de Janeiro? O instituto faz soro e medicamento para vender para o Ministério da Saúde. O IVB tem que prestar serviço para o Estado. Não vou colocar R$ 50 milhões e deixar faltar fraldas para pessoas humildes", afirmou.

O instituto foi criado pelo cientista Vital Brazil em 1919, também fundador do Instituto Butantã, em São Paulo. Era instituição privada, que manteve parcerias com o governo. Pouco antes de morrer, em 1950, Brazil transferiu 99,6% das ações para o Estado; a família detém o restante. Pelo estatuto, a diretoria obedece ao Conselho de Administração, formado pelo secretário de Saúde, o presidente do IVB, dois conselheiros independentes e um herdeiro de Vital Brazil.

"É feito dessa forma para proteger a instituição. O IVB não é do governo, ele tem de seguir uma política de Estado. O que eles fizeram foi nomear um conselho formado por subsecretários de Saúde.", afirmou Werneck.

O secretário reagiu: "O IVB é uma instituição do Estado. As decisões são tomadas pelo governador e por mim".

O professor José Raymundo Romeo, ex-reitor da Universidade Fluminense (UFF), foi um dos conselheiros destituídos. "O secretário de Saúde, arbitrariamente, decidiu demitir o diretor presidente. O conselho não iria apoiar, porque ele é um excelente diretor e não havia justificativa. A mudança de secretário não é motivo. Quando viram que o conselho não iria demitir a diretoria, convocaram assembleia. Essa reunião não foi nem dentro do Vital Brazil, foi no Palácio Guanabara (sede administrativa do governo estadual). Não chamaram os acionistas minoritários. A assembleia também teria de ser convocada pelo conselho. Tudo foi feito em desacordo com o estatuto", afirmou Romeo.

O infectologista Edmilson Migowski, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), assumiu a presidência do IVB. "Queremos aproveitar ainda mais o potencial do instituto e aumentar seu serviço ao Estado do Rio. Minha meta é fazer com que a instituição seja autossustentável e não precise mais contar com repasses do Estado, o que irá gerar mais economia para o governo", afirmou Migowski.

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