HELVIO ROMERO/ESTADÃO
HELVIO ROMERO/ESTADÃO

Laboratório usa ilustração e 3D para tornar exame mais acessível a paciente

Dois maiores grupos de medicina diagnóstica do País mudaram apresentação dos resultados para facilitar compreensão e engajamento do público em tratamentos; tendência é resposta à proliferação de informações médicas de baixa qualidade na internet

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 03h00

Laudos médicos ilustrados, hologramas, apps personalizados e impressões tridimensionais são algumas das ferramentas adotadas por hospitais e laboratórios com o objetivo de engajar o paciente no cuidado com sua saúde. A tendência é uma resposta a um movimento irreversível da era digital: informações médicas não estão mais restritas aos livros de Medicina. Com fácil acesso à internet, quase toda a população consegue, em poucos segundos, encontrar dados sobre uma doença ou um resultado de exame. Mas nem sempre a informação é de qualidade.

Os dois maiores grupos de medicina diagnóstica do País passaram a investir em modos de tornar os resultados de exames mais acessíveis. No último mês, o Grupo Dasa, dono de marcas como Delboni, Lavoisier e Alta, começou a testar uma nova forma de apresentar os resultados. O novo laudo traz os índices em diferentes cores segundo os níveis esperados para o exame.

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Se o resultado está normal, o índice fica em verde. Se a taxa está alterada, aparece em laranja, por exemplo (veja quadro abaixo). A apresentação das páginas de resultado também está passando por mudanças, com os resultados suspeitos apresentados primeiro.

“O problema não é o paciente ter informação, é ter informação errada. Se ficarmos avessos a essa tendência, o paciente vai no Google, onde pode encontrar dados incorretos. Por isso, chegamos à conclusão que faz parte do nosso trabalho facilitar o acesso e a interpretação dos dados”, diz Emerson Gasparetto, vice-presidente médico do Dasa. O novo laudo estará disponível a pacientes do Delboni, e, após testado, deve ser adotado em todas as marcas da empresa até o fim do ano.

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Sobre o risco de o paciente ver o exame e não procurar um médico, ele diz que um laudo mais claro aumenta a consciência de quem fez o exame. “O paciente já pode tirar conclusões com base nos valores de referência e isso pode ser pior quando não entende bem os resultados. Para mitigar riscos, enfatizamos nos rodapés de todo laudo a necessidade da interpretação por um especialista e de consultas médicas periódicas.”

O Grupo Fleury também trabalha na elaboração de novos laudos, que deverão estar no mercado em cerca de dois meses. “Teremos o desenho de um corpo humano, com a indicação dos órgãos afetados por cada índice alterado. Por exemplo, se há alterações de colesterol, vamos indicar os riscos ao coração e a outros sistemas afetados”, afirma Claudio Prado, diretor executivo de Suporte a Operações do Grupo Fleury.

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As duas empresas já investem também em impressões 3D para tornarem mais fáceis a compreensão do paciente e o trabalho do médico. No Fleury, imagens 3D de exames como ressonância magnética podem ser impressas, produzindo um molde de órgãos, o que facilita planejar uma cirurgia ou explicar o tratamento ao doente.

No Dasa, a mesma tecnologia é usada, na marca Alta, para imprimir moldes em tamanho real de fetos para gestantes com deficiência visual (mais informações nesta página). Segundo Gasparetto, no segundo semestre a empresa deve oferecer também imagens em holograma de órgãos para facilitar a comunicação entre médico e cliente.

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Para a professora Terezinha Alves de Lima, de 49 anos, mudanças na forma que exames são apresentados ajudam a diminuir a ansiedade. “Sempre abro os exames logo que eles ficam prontos e costumo ficar tensa até o dia da consulta porque nem sempre entendo o que diz no laudo”, conta.

Aplicativos

Outra ferramenta adotada no setor são aplicativos que reúnem dados sobre exames e condições de saúde do paciente. O Hospital Israelita Albert Einstein é um dos que oferece, desde 2016, plataforma do tipo, que já teve 80 mil downloads.

No início, o app era uma carteira de vacinação online. “Esse serviço evoluiu para o aplicativo Meu Einstein, que reúne todos os exames e permite ao paciente compartilhá-los com seu médico ou qualquer outra pessoa”, conta Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. A previsão é, em breve, deixar todo o prontuário do paciente disponível nessa plataforma.

Estudo com usuários do app mostrou que, quanto mais informação o paciente tem, mais participa dos cuidados em saúde necessários.

Outra empresa que quer estimular hábitos mais saudáveis com a ajuda de dispositivos tecnológicos é a Sharecare Brasil, que presta serviços de gestão de saúde a operadoras de planos. A plataforma Sharecare reúne dados de exames, mas também de peso, altura e sono (monitorados com a ajuda de dispositivos como relógios e pulseiras) para diagnosticar o estado de saúde de cada usuário e dar dicas de como melhorar sua condição.

A plataforma identifica ainda o nível de estresse e emoção em cada ligação que o usuário faz com o celular e calcula a idade real do organismo da pessoa segundo seus hábitos de vida.

Orientações

Além da preocupação em explicar os exames, há também um cuidado em evitar testes desnecessários. Este é o objetivo de outra iniciativa adotada neste ano para dar mais informações e poder de decisão aos pacientes. Trata-se de uma espécie de guia de orientações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) sobre exames que têm sido pedidos indiscriminadamente, mesmo sem indicação.

A ação integra uma campanha internacional batizada de Choosing Wisely (Escolhendo de Forma Sábia, na tradução do inglês para o português), que tem como objetivo educar e empoderar o paciente para que ele não passe por procedimentos desnecessários.

A iniciativa da SBPC/ML, lançada em abril, elencou cinco exames pedidos com frequência por médicos, mas que nem sempre devem ser solicitados. Entre eles está o que mede o nível de vitamina D no organismo e o teste preditivo para a doença de Alzheimer.

A entidade alerta para prejuízos que a realização de exames desnecessários traz ao paciente, como a adoção de tratamentos invasivos ou danos psicológicos causados pelo receio do aparecimento de doenças no futuro.

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