Laboratórios ajudam a 'gerar' quadros como a disfunção sexual feminina

Jornalista e acadêmico da Austrália chegou à conclusão enquanto fazia pesquisa para 4º livro

Efe

01 Outubro 2010 | 18h24

LONDRES - Os laboratórios ajudaram a "gerar" quadros clínicos, como a disfunção sexual feminina, para desenvolver um mercado global de novos remédios, segundo um artigo publicado na última quinta-feira na revista British Medical Journal.

No texto, o jornalista e acadêmico Ray Moynihan, da Universidade de Newcastle, na Austrália, mostra as conclusões que chegou enquanto pesquisava para escrever seu quarto livro, "Sex, Lies and Pharmaceuticals" ("Sexo, Mentiras e a Indústria Farmacêutica", em tradução livre).

Moynihan questiona as empresas por considerar que elas subsidiam "a ciência de uma nova condição conhecida como 'disfunção sexual feminina'", e diz que o setor contribui para o desenvolvimento de novos remédios em todo o mundo.

Em seu trabalho, o jornalista descobriu que funcionários da indústria farmacêutica tinham trabalhado com empresas de pesquisa de opinião pagas para ajudar a "criar" a doença. Estudos realizados posteriormente teriam comprovado que esse quadro clínico cresceu.

O australiano considera, além disso, que os pesquisadores elaboraram ferramentas de diagnóstico para convencer as mulheres de que suas dificuldades sexuais merecem "um rótulo médico e um tratamento".

Dessa forma, Moynihan diz que as estratégias de marketing das farmacêuticas "estão emergindo na ciência médica de uma forma fascinante e aterrorizadora". O jornalista, então, pergunta-se se é necessário encontrar um novo enfoque para definir o distúrbio.

Ele cita um empregado de uma empresa que alega que a companhia está interessada em "acelerar o desenvolvimento de uma doença", além de revelar como elas financiam pesquisas que refletem a extensão de problemas sexuais e encontram ferramentas para avaliar as mulheres por seus supostos "transtornos de desejo sexual hipoativo".

De acordo com o artigo, muitos cientistas ligados a essas atividades são empregados das empresas farmacêuticas ou têm interesses econômicos. Ao mesmo tempo, outros relatórios realizados sem financiamento questionam se a propagação da disfunção realmente existiu.

A indústria farmacêutica também tem, atualmente, um papel pioneiro de "educar" tanto profissionais quanto o público sobre essa condição, de acordo com o acadêmico. Moynihan cita como exemplo um curso financiado pela Pfizer e destinado a médicos dos Estados Unidos que argumentava que até 63% das mulheres sofriam distúrbios sexuais e que a testosterona e o sildenafil (componente do Viagra) poderiam ajudá-las, se combinados com terapia.

"Talvez seja hora de reavaliar a forma como o sistema médico define as doenças comuns e recomenda tratamento", afirma. Por outro lado, a médica Sandy Goldbeck-Wood, especialista em psicossexualidade, apontou em comentário à parte no mesmo jornal que, "ao se defrontar com uma mulher chorando, cuja libido desapareceu e que está aterrorizada de perder o casamento, os médicos podem sentir uma pressão imensa para fornecer uma solução imediata e efetiva".

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