Leonardo Cabral/Estadão
Leonardo Cabral/Estadão

Lado brasileiro da fronteira com a Bolívia aguarda instruções para fechamento por coronavírus

Órgãos de fiscalização e controle que atuam em Corumbá esperam orientação para controlar o fluxo migratório entre os dois países. Brasil determinou nesta quinta o fechamento da fronteira terrestre com o País

Leonardo Cabral, especial para, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 07h52

CORUMBÁ - Mesmo após o anúncio do governo brasileiro em relação ao fechamento das fronteiras para combater o avanço do novo coronavírus, os órgãos de fiscalização e controle que atuam nessas áreas em Corumbá (MS) ainda aguardam algumas medidas para orientar e controlar o fluxo migratório entre os dois países. O cenário na região pantaneira e do lado boliviano ainda é considerado calmo.  

Segundo o auditor fiscal da Receita Federal em Corumbá, Hermano Toscano, que fica na sede do órgão no Posto Esdras, do lado brasileiro, apesar da medida adotada pelo Brasil, é preciso aguardar determinações para que se inicie o controle sanitário do fluxo migratório mais rígido na região. 

“Até o momento, não recebemos determinação por parte do governo no que poderá ser feito em relação à fiscalização e o controle migratório. Sabemos que a portaria foi publicada, porém, estamos esperando as ações que aqui serão desenvolvidas, onde a princípio estrangeiros estão proibidos de ingressar no Brasil e que essas restrições impostas não afetam o setor de transporte, pois como sabemos, não podemos impedir e ocasionar um desabastecimento em nossa região”, explicou.

Mesmo assim, os trabalhos de fiscalização seguem no Esdras. Servidores da Receita Federal e policiais militares, que ficam de plantão no local, realizam vistoria nos carros que cruzam a linha internacional. Eles usam máscaras e luvas para fazer o trabalho. 

Lado boliviano

Já do lado boliviano, a fiscalização e controle estão em um estágio mais avançado e rígido. Isso acontece desde que a presidente Jenaine Añez fez anúncio do pacote de medidas o qual o país andino deveria seguir, incluindo a região de fronteira. 

Desde às 17 horas desta quarta-feira, 18, a Bolívia está em quarentena. O país andino registra 15 casos positivos da doença. Cidades como Santa Cruz de La Sierra, Cochabamba, La Paz e Oruro, onde se concentra o maior número de casos, ficaram totalmente desertas. 

O mesmo clima pode ser visto nas cidades da zona de fronteira com o Brasil. A Polícia Nacional e militares do Exército e da Armada Boliviana, saíram às ruas para alertar sob o cumprimento das medidas do governo. A rotina só voltou ao normal às 5h da manhã desta quinta-feira, 19, onde essas ações devem seguir até o dia 31 de março. 

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Também nesta quinta-feira, o controle migratório foi reforçado ainda mais, com a presença de militares bolivianos. O comandante da Polícia Nacional na região de fronteira, Carlos Oporto, destacou que os trabalhos serão intensificados.

“Militares irão fazer parte da fiscalização de controle nessa área, onde será restrita a entrada de estrangeiros, cumprindo assim, as medidas do governo, incluindo a quarentena. As repartições públicas irão trabalhar até às 13h. Já o comércio ficará aberto até às 15h e a partir das 17h, não será permitida a circulação de veículos e pessoas nas ruas do nosso país, até às 5h do outro dia”, explicou o comandante da Polícia, frisando que todas essas determinações seguem até o dia 31 de março e só será permitido o ingresso de bolivianos que transitarem entre os dois países. “Vão ingressar em nosso território os compatriotas, mas seguindo os protocolos e procedimentos de saúde referentes à prevenção ao coronavírus”, afirmou.

Assustada com o cenário que estava presenciando, a corumbaense, Nadrielly Moraes, falou que sabia dos controles, mas não imaginava que era tão reforçado assim. “Eu vim visitar minha amiga que mora aqui na fronteira e os militares pediram para que eu descesse do carro, para fazer os procedimentos médicos. Confesso que foi assustador, mas entendo que é extremamente necessário para que haja o controle da doença e que não se espalhe de um país para o outro”, disse. 

Responsável pela equipe médica que faz o controle dos estrangeiros e bolivianos que cruzam a fronteira, o médico Eliseo Pizarro, informou que todas as pessoas que estiverem entrando na Bolívia deverão passar obrigatoriamente pelo procedimento médico. 

“É um procedimento que mede a temperatura das pessoas, para ver se apresentam febre ou sintomas parecidos ao coronavírus. Em caso delas apresentarem e forem estrangeiras não poderão entrar no país, já em caso de bolivianos, eles serão encaminhados para uma unidade hospitalar mais próxima, para avaliação completa. Essa é uma recomendação que estamos seguindo conforme determina a Organização Mundial de Saúde (OMS)”, frisou o profissional da área de saúde boliviana.

Com declarações fortes, o Ministro de Defesa da Bolívia, Fernando López, em visita à região de fronteira na manhã desta quinta-feira, 19, afirmou que qualquer cidadão que venha de Campo Grande, Capital de Mato Grosso do Sul, não terá a entrada permitida no país. 

“Estrangeiros estão proibidos de entrarem na Bolívia. Pessoas que venham de Campo Grande ou carros com placas daquela cidade estão proibidas de circular em nossa área. Lá se tem casos positivos e temos que evitar que o vírus se espalhe. Vamos fechar a fronteira, pois isso representa um perigo para Bolívia. Não nos interessa o comércio, o que importa neste momento são as vidas dos cidadãos bolivianos. Vamos ser estritos no que se refere a entrada em nosso país, onde até mesmo os bolivianos que vivem em Campo Grande, pedimos que não venham para cá. Vamos fazer o controle redobrado e que determinar que os militares da Forças Armadas e Policiais bolivianos não permitam a entrada”, declarou o ministro.

A fronteira do lado boliviano será fechada às 0h de sexta-feira, 20, seguindo o Decreto Supremo de Emergência Sanitária, aprovado pelo governo nacional, que estabelece a permanência da população em suas casas das 17h às 05h do dia seguinte. O decreto ainda traz a suspensão de voos internacionais, de viagens terrestres interdepartamentais ou interprovinciais, além da redução da jornada de trabalho de oito para cinco horas e como tempo máximo de atendimento nos mercados e centros de suprimento até 15h.

Até o momento, a Bolívia tem 15 casos confirmados de coronavírus em diferentes cidades, como Santa Cruz e Oruro, onde os primeiros casos positivos foram diagnosticados no país andino, que desde então vem mantendo ações de combate e prevenção ao Covid-19. Na região de fronteira, tanto do lado de Corumbá, quanto do lado boliviano nenhum caso suspeito foi registrado até agora.

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