Gerard Julien/ AFP
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Lancet divulga 'manifesto de preocupação’ e diz que estudo com cloroquina passa por auditoria

Pesquisa havia concluído que uso do medicamento pode aumentar taxa de mortalidade em até 45% nos pacientes com covid-19 e foi responsável pela suspensão de ensaios clínicos da OMS

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 09h06
Atualizado 03 de junho de 2020 | 23h58

A revista The Lancet, especializada em pesquisas médicas e científicas, emitiu na terça-feira, 2, um “manifesto de preocupação” a respeito do estudo divulgado em 22 de maio, sobre os supostos efeitos da cloroquina e da hidroxocloroquina em pacientes com o novo coronavírus.

O estudo em questão está atualmente sob auditoria patrocinada por seus próprios autores, de acordo com a The Lancet, e foi o responsável por levar a Organização Mundial da Saúde (OMS) a interromper ensaios clínicos com cloroquina e hidroxicloroquina. A OMS decidiu nesta quarta retomar os testes. Na conclusão, a pesquisa afirmava que, mesmo combinadas com antibióticos, as substâncias não só eram ineficazes contra o coronavírus, mas também podiam aumentar a taxa de mortalidade nos pacientes de covid-19 em até 45%.

O estudo baseou-se em dados de mais de 96.000 pacientes internados entre dezembro e abril deste ano, em 671 hospitais em todo o mundo, comparando a evolução daqueles que receberam esse tratamento e dos que não receberam. Embora grande parte da comunidade científica duvide da eficácia da cloroquina, dezenas de especialistas expressaram sua "preocupação" com a metodologia utilizada no trabalho em uma carta aberta, com base em informações compiladas pela Surgisphere, empresa de análise de dados em saúde com sede nos Estados Unidos.

Por seu lado, os autores, liderados por Mandeep Mehra, diretor executivo do Centro de Doenças Cardíacas Avançadas do Hospital Brigham and Women, em Boston, defendem os resultados. "Estamos orgulhosos de contribuir para o trabalho na covid-19" neste período de "incerteza", disse Sapan Desai, diretor do Surgisphere, no último dia 29.

O presidente dos EUA, Donald Trump, já alegou tomar o medicamento de forma preventiva contra a covid-19, enquanto Jair Bolsonaro defende o uso da medicação e o Ministério da Saúde passou a recomendar o uso para pacientes em todas as fases do contágio pelo coronavírus.

O jornal inglês The Guardian lançou a público questionamentos, após ouvir uma série de fontes médicas nas últimas semanas. Conforme um levantamento feito pelo periódico, os dados compilados não têm fontes claras e exemplifica com a Austrália, onde nenhum dos principais hospitais diz ter enviado dados à Surgisphere. E o número de mortos compilado no estudo foi superior ao registro oficial. Além disso, apesar de alegar ter um banco de dados, a empresa mal tem presença online. 

Entre os funcionários listados como diretores estão um ator pornográfico e um escritor de ficção científica. O diretor executivo, Sapan Desai, teria ainda sido listado em três processos de negligência médica. Procurado pelo Guardian, Desai negou irregularidades e diz ter montado seu banco de dados ao longo de anos.

As advertências com o termo “expressão de preocupação” sempre indicam um estudo com problemas potenciais. Gilbert Deray, do hospital parisiense Pitié-Salpêtrière, prevê a possibilidade de retratação e de “desastre” para a reputação das revistas. “Isso mostra que o ritmo científico deve se desconectar do midiático. A pandemia não justifica estudos medíocres.”

Abaixo, leia a nota emitida pela The Lancet na íntegra:

Manifesto de preocupação: “Hidroxicloroquina ou cloroquina com ou sem um macrólido para tratamento da covid-19: uma análise de registro multinacional”

Importantes dúvidas científicas foram levantadas sobre os dados relatados no artigo de Mandeep Mehra et al. - “Hidroxicloroquina ou cloroquina com ou sem um macrólido para tratamento da covid-19: uma análise de registro multinacional - publicado na The Lancet em 22 de maio de 2020. Apesar de uma auditoria independente sobre a proveniência e validação dos dados já tenha sido encomendada pelos autores não afiliados ao Surgisphere e esteja em andamento, com resultados previstos para muito em breve, nós estamos publicando um Manifesto de Preocupação para alertar os leitores ao fato de que dúvidas científicas sérias foram trazidas à nossa atenção. Nós iremos atualizar esse comunicado assim que tivermos mais informações. 

 

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