Leia na íntegra o depoimento de Angelina Jolie sobre a mastectomia

Relato foi publicado nesta terça-feira, dia 14, no jornal americano The New York Times

O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2013 | 20h36

"Minha mãe enfrentou um câncer por quase uma década e morreu com 56 anos. Ela resistiu o suficiente para conhecer o primeiro de seus netos e segurá-lo em seus braços. Mas meus outros filhos não tiveram a chance de conhecê-la e sentir o quanto ela era adorável e graciosa.

Nós falávamos com frequência da “Mamãe da mamãe”, e eu me via tentando explicar a doença que a levara de nós. Eles me perguntaram se o mesmo aconteceria comigo. Eu sempre lhes disse para não se preocuparem, mas a verdade é que sou portadora de um gene “defeituoso”, BRCA1, que aumenta fortemente meu risco de desenvolver câncer de mama e câncer de ovário.

Meus médicos estimaram que eu tinha 87% de risco de um câncer de mama e 50% de risco de um câncer ovariano, embora o risco seja diferente no caso de cada mulher.

Somente uma fração dos cânceres de mama resulta de uma mutação genética herdada. As pessoas que têm um defeito no BRCA1 têm 65% de risco de sofrê-lo, em média.

Quando tomei conhecimento dessa minha condição, decidi ser proativa e reduzir ao mínimo o risco. Tomei a decisão de fazer uma mastectomia dupla preventiva. Comecei com as mamas, já que meu risco de câncer de mama é maior que meu risco de câncer ovariano, e a cirurgia é mais complexa.

Em 27 de abril, terminei os três meses de procedimentos médicos que as mastectomias requerem. Durante esse tempo, consegui manter isso privado e continuar meu trabalho.

Mas estou escrevendo sobre isso agora porque espero que outras mulheres possam se beneficiar de minha experiência. O câncer ainda é uma palavra que causa medo no coração das pessoas, produzindo uma sensação profunda de impotência. Hoje, porém, é possível descobrir com um exame de sangue se a pessoa é altamente suscetível a um câncer de mama e de ovário, e tomar providências.

Meu processo começou em 2 de fevereiro com um procedimento conhecido como “nipple delay”, que descarta a existência da doença nos dutos mamários atrás do mamilo e leva mais sangue para a área. Isso causa um pouco de dor e machuca um bocado, mas aumenta a chance de salvar o mamilo.

Duas semanas depois, fiz a cirurgia principal na qual o tecido da mama é removido e enchimentos provisórios são colocados no lugar. A operação pode levar oito horas. A gente desperta com tubos de drenagem e expansores nas mamas. Lembra uma cena de filme de ficção científica. Mas alguns dias depois da cirurgia, podemos voltar a uma vida normal.

Nove semanas depois, a cirurgia final é completada com a reconstrução das mamas com um implante. Houve muitos avanços nesse procedimento nos últimos anos, e os resultados podem ficar lindos. Eu quis escrever isto para contar a outras mulheres que a decisão de fazer uma mastectomia não foi fácil. Mas estou muito feliz de ter feito. Minhas chances de desenvolver câncer de mama caíram de 87% para menos de 5%. Já posso dizer a meus filhos que eles não precisam ter medo de me perder para um câncer de mama.

É reconfortante que eles não vejam nada que os deixe intranquilos. Eles podem ver minhas pequenas cicatrizes, e é isso. Tudo o mais é apenas a Mamãe, a mesma que ela sempre foi. E eles sabem que eu os amo e que farei tudo para estar com eles o máximo de tempo possível. Numa observação pessoal, eu não me sinto menos mulher. Sinto-me fortalecida por ter feito uma escolha corajosa que de nenhuma maneira diminui a minha feminilidade.

Tenho a felicidade de ter um parceiro, Brad Pitt, que é muito amoroso e solidário. Assim, a todos que tiverem uma mulher ou namorada passando por isto, quero que saibam que vocês são uma parte muito importante da transição. Brad permaneceu no Pink Lotus Breast Center, onde fui tratada, durante cada minuto das cirurgias. Conseguimos achar momentos para rir juntos. Sabíamos que aquilo era a coisa certa a fazer para nossa família e que nos aproximaria. E assim foi.

Para cada mulher que estiver lendo isto, espero que a ajude a saber que tem opções. Quero encorajar toda mulher, especialmente se ela tiver um histórico familiar de câncer de mama ou ovariano, a buscar informações e especialistas médicos que possam ajudá-la a enfrentar este aspecto de sua vida, e tomar suas próprias decisões informadas.

Reconheço que há muitos médicos holísticos maravilhosos trabalhando em alternativas para a cirurgia. Meu próprio processo será postado no momento oportuno no website do Pink Lotus Breast Center. Espero que ele seja útil para outras mulheres.

O câncer de mama sozinho mata cerca de 458 mil pessoas a cada ano, segundo a Organização Mundial de Saúde, principalmente em países de baixa e média renda. É preciso que se torne uma prioridade assegurar que mais mulheres possam ter acesso a testes genéticos e tratamentos preventivos salvadores, sejam quais forem seus meios e suas condições e onde quer que elas vivam. O custo de um teste para BRCA1 e BRCA2, de mais de US$ 3 mil nos Estados Unidos, continua sendo um obstáculo para muitas mulheres.

Decidi não manter minha história privada porque há muitas mulheres que não sabem que podem estar vivendo sob a sombra do câncer. Tenho a esperança de que elas também consigam fazer o teste genético, e que, se tiverem também um alto risco, saibam que têm opções poderosas.

A vida traz muitos desafios. Os que não devem nos assustar são os que podemos enfrentar e controlar."

* Angelina Jolie é atriz e diretora de cinema.

Tradução de Celso Paciornik

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