Werther Santana/Estadão
Em Guarulhos, posto de saúde virou retaguarda para Unidade de Pronto-Atendimento  Werther Santana/Estadão

Leito improvisado e intubação precária: falta de vaga faz posto de saúde virar hospital

Com UTIs lotadas, unidades básicas recebem pacientes graves mesmo sem equipe especializada e aparelhos adequados de ventilação; assistência precária eleva mortalidade pela covid no País

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 05h00

A sala de medicação deu lugar a cadeiras, onde pacientes da covid-19 aguardam dias “internados”. Na unidade de pronto-atendimento (UPA), há poucos ventiladores mecânicos se um doente precisa de intubação e chance ainda menor de vaga na terapia intensiva. Pelo País, UPAs se transformaram em UTIs precárias porque os hospitais estão lotados. E até o postinho do bairro, espaço para consultas de rotina, virou hospital para atender urgências relacionadas à doença.

Retrato do colapso da saúde, a improvisação ajuda a explicar por que o vírus mata tanto no País. “As pessoas saem por óbito e não porque conseguiram transferência”, diz Ana Paula Arias, de 25 anos, médica recém-formada que há poucos meses assumiu plantão em uma UPA em Guarulhos, Grande São Paulo (leia depoimento). Sem leitos em hospitais, o município foi um dos que passaram a usar até Unidades Básicas de Saúde (UBSs) para absorver parte da demanda. 

Lá, dois postos de saúde viraram “puxadinhos” do pronto-atendimento – foi montada tenda ligando a UPA à UBS. Com 94% de lotação na terapia intensiva, a cidade diz que a medida vai durar “o tempo que for necessário”, e fala em “prover outros recursos” à rede.

A demora para a liberar vaga na terapia intensiva faz com que pronto-atendimentos tenham intubações e até internações, quando deveriam só estabilizar e enviar o paciente para a UTI. Em decreto de março, o Ministério da Saúde autorizou que as UPAs ofereçam leitos de suporte ventilatório pulmonar. Antes, só hospitais de campanha e hospitais gerais poderiam ter esses leitos. A medida, diz a pasta, é para aliviar a rede.

Infectados ficam mais de uma semana internados no pronto-atendimento, onde faltam profissionais e equipamentos avançados para casos, por exemplo, de insuficiência renal – comum entre intubados. “É um dos fatores que contribuem para altas taxas de mortalidade pela covid”, diz o infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz.

“O paciente é ventilado em local sem condição de tratar doente grave. Fica 24 ou 48 horas nessas condições e depois é transferido para UTI, mas já morrendo. Em condições precárias, as chances dele só diminuem.” Estudo de Bozza e outros cientistas publicado na revista The Lancet Respiratory Medicine mostrou que oito em cada dez intubados em 2020 morreram no País – a média mundial é 50%.

No dia 13, a capital paulista teve a 1ª morte de paciente na fila de UTI. A família disse que ele, de 22 anos, ficou internado em uma cadeira do pronto-atendimento na zona leste, mas a Prefeitura nega. Em nota, o Município diz ter estruturado todas as UPAs para que as suas emergências se transformassem em UTIs, diante da “alta demanda” da covid. 

Organizações Sociais (OSs) que administram as UPAs, diz a Prefeitura, foram autorizadas a adquirir mais equipamentos e aumentar equipes com especificidade em UTI, para permitir “atendimento adequado, com oxigênio, medicação e suporte ventilatório, o mesmo oferecido em uma UTI hospitalar”.

Nas últimas semanas, municípios do interior, como Catanduva, transformaram UPAs em unidades covid. Em cidades menores, o cenário é crítico. “Mando para o hospital, não tem vaga e voltam piores.É enxugar gelo”, diz Jean Chiozini, médico do posto em Cabrália Paulista.

‘É uma guerra’

 O Conselho de secretários municipais de Saúde de São Paulo (Cosems-SP) orienta gestores a usarem UPAs para pacientes covid. “É uma guerra”, diz a vice-presidente do órgão, Adriana Martins, titular de Guararema. Até o uso de UBSs, último recurso, entrou na pauta.“A velocidade da ocupação de leitos fez com que olhássemos tudo. No Estado, já tem UBS funcionando 24 horas para atendimento e com leitos.”

Em São Caetano, Grande São Paulo, uma das UBSs passou a funcionar 24 horas para fazer o primeiro atendimento a pacientes leves – consultas de rotina foram suspensas. Segundo a prefeitura, não há leitos para internação, mas um paciente pode ser até intubado no posto.

Em Curitiba, unidades básicas passaram a funcionar em março como pronto-atendimento de casos leves e moderados para que UPAs se transformem em centros de internação da covid. Em Belo Horizonte, foram criadas unidades não covid para desafogar UPAs, que agora atendem prioritariamente casos respiratórios, pediatria e ortopedia – e estão lotadas.

Há ainda entraves logísticos. Em boa parte das unidades, não há tanques de oxigênio e o fornecimento é por cilindros , com estoques baixos e dificuldade de repor. As duas UPAs de Palmas deixaram de funcionar só para estabilizar pacientes e internam doentes graves. Ambas têm usinas com capacidade mensal de 5 mil m³ de oxigênio, mas a UPA Sul sofreu pane dia 6 e removeu pacientes às pressas.

Com a covid, o mecânico Elenilson Sousa, de 40 anos, está na unidade desde o dia 27. “Aqui não tem tomografia pra saber quanto o pulmão dele está atingido”, conta a mulher, Fabiana. “O máximo que podem, fazem. Tem muita gente sofrendo. Ele precisa de acompanhamento intensivo, na UTI”, afirma. Por enquanto, não há vaga.

A prefeitura de Palmas diz oferecer assistência adequada e negociar maior oferta de oxigênio para UPAs. O governo de Tocantins diz conduzir compra de mais insumo e destaca critérios médicos na regulação de leitos. 

Além disso, faltam nas unidades profissionais qualificados para acompanhar doentes graves e até funcionários de apoio para separar pacientes com e sem covid. “É preciso mais mão de obra, não só de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, mas também para higiene, cozinha e recepção”, diz Adriana.

A Secretaria da Saúde de São Paulo, que regula leitos de UTI, diz que trabalha junto dos municípios, cita a expansão de mais de 1,1 mil vagas em março e diz que há pendências de repasses pelo Ministério da Saúde. 

Sem citar verbas, a pasta disse apenas que hospitais especializados e de pequeno porte, unidades mistas, prontos-socorros e UPAs também podem ter leitos de suporte ventilatório pulmonar. / COLABOROU LAILTON COSTA, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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'Dependemos da morte de uns para dar chance a outros pacientes', diz médica recém-formada

Com colapso do sistema de saúde, profissional de UPA em Guarulhos relata dificuldade de escolher quem vai para enfermaria e quem deve ir para casa entre os infectados pela covid-19

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 05h00

*Depoimento de Ana Paula Arias, de 25 anos, médica recém-formada que trabalha em uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) em Guarulhos

"O fluxo na UPA (unidade de pronto-atendimento) onde trabalho em Guarulhos sempre foi um pouco mais elevado do que nas outras unidades. A gente tinha 150 atendimentos diários, mas agora são 200 pacientes para cima, que ficam na espera. Estamos com todos os leitos ocupados. É um mini-hospital. Tivemos três óbitos só no meu plantão de 12 horas. Os pacientes ficam duas, três semanas, porque não tem mais vagas para transferir. Acabam morrendo por complicações da covid.

Tivemos de nos reorganizar para atender pacientes que precisam de internação. Por estar com insuficiência respiratória, eles não podem ir para casa. Usamos salas de medicação para colocar cadeiras e internar. O ápice foi colocar paciente internado sentado por dois, três dias, aguardando leito esvaziar para ao menos ter o conforto de deitar.

Aqui, 90% das internações são por covid e quem não tem acaba pegando. Não tem como separar, é muito apertado. A UPA não é feita para demanda hospitalar. De que adianta separar pacientes na medicação se na hora do exame, todos vão para o mesmo lugar? Uma senhora de 89 anos com infecção urinária foi internada e pegou covid. Entrou por uma coisa e saiu por outra.

Falta o básico, nosso material de intubação é precário. Pacientes com leito de UTI teriam mais chance de viver. O médico da UTI é especialista, o ventilador lá é diferente, tem ar-condicionado especial para evitar contaminação. Só o fato de ter o ventilador na UPA não significa que eu consiga dar o serviço de UTI.

Muitos de nós somos recém-formados, não temos a qualificação de quem trabalha há mais tempo. Vivemos um cenário de guerra e sabemos que nosso esforço não é suficiente. Temos de escolher quem entra para enfermaria e quem pode ir para casa. Dependemos da morte de uns para dar chance a outros."

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‘Mando para hospital, não tem vaga e voltam piores. É enxugar gelo’, diz médico de posto de saúde

No interior de São Paulo, unidade básica de saúde é exemplo do colapso e da dificuldade de tratar da explosão dos casos de covid-19

Júia Marques, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 05h00

* Depoimento de Jean Chiozini, que trabalha em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) em Cabrália Paulista, no interior de São Paulo

"Trabalho em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) em Cabrália Paulista, no interior de São Paulo, com 4 mil habitantes. Aqui não tem hospital, nem UPA. Agora, a UBS virou uma 'upinha'. Quando alguém precisa de hospital, eu mando para Duartina (município a 15 km), mas lá está sempre cheio e acabam dispensando. Estou fazendo aqui oxigenoterapia, controlando saturação, coisas que deveria mandar para o hospital, mas sei que, se eu mandar, vão devolver o paciente para casa.

De fevereiro para cá, tanta gente ficou doente que não tinha como dar assistência para todo mundo, muitos precisavam de atendimento hospitalar. Foi aí que pegou fogo. Tem coisas que vão além do que um posto pode oferecer. Tem paciente que precisa fazer radiografia e no postinho eu não tenho nem bisturi. É para mim que retornam. Mando para o hospital, não tem vaga e voltam piores do que estavam. É enxugar gelo.

Se vejo que o paciente está saturando abaixo de 95% deixo um tempo no oxigênio no postinho. Coloco um cateter nasal e ligo o oxigênio. Já pedi cateter nasal e oxigênio de reserva porque sabemos que vamos ter de ser um pouco de hospital neste momento. Nunca vi isso na minha vida.

O problema é que a UBS fecha às 16 horas e o paciente tem de ir embora. Oriento a comprar um oxímetro e ficar observando em casa e, se vir que está ruim, ir para Bauru, tentar a sorte em um hospital. Já teve caso de eu levar no meu carro uma paciente que estava mal porque o hospital mandava embora. Ela veio aqui saturando a 89%. Levei para a UPA de Bauru. Lá não sabiam como ainda estava viva. Ela foi internada e infelizmente faleceu, tinha 29 anos. Ia morrer em casa, faltando ar.

Agora está um caos porque as outras doenças não pararam. Temos paciente com dengue chegando ao postinho e só um quarto. Como colocar um paciente que tem de receber soro para dengue com paciente exalando covid para a sala inteira? Tive esgotamento emocional, estou tomando medicação que nunca precisei tomar na vida. Cheguei a atender 55 pessoas por dia em 8 horas sendo que o recomendado é 30.

Desde março, só vão para a UBS as gestantes, pacientes para ver exames alterados e quem precisa muito agendar uma consulta. Passamos carro de som na cidade para as pessoas não procurarem o posto se não estiver precisando. Isso piora o atendimento porque tem paciente diabético e hipertenso que eu não vejo há um tempo."

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