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Daniel Martins de Barros
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Leitura para cura

Ao mergulharmos em outras vidas podemos ter insights transformadores sobre nós mesmos

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2022 | 05h00

Hoje, 23 de abril, é o Dia Mundial do Livro. Apesar de as declarações de óbito do livro serem renovadas a cada geração, não parece que ele vai deixar de circular entre nós tão cedo. Não é só uma questão do objeto (embora eu ame os livros físicos), mas também – e principalmente – o poder das histórias que nos fascinam e nos impedem de abandonar a leitura.

Nem mesmo o TikTok ou o Reels do Instagram são ameaças – a literatura já sobreviveu ao rádio, ao cinema, à televisão, ao CD, DVD, streaming, Orkut, e continuará conosco enquanto estivermos por aqui.

A força das narrativas vem do fato de o cérebro humano dar sentido à realidade a nossa volta a partir delas. Estou aqui agora vindo dali e indo para lá. Conversei com uma pessoa, trocamos ideias, saí diferente dessa interação. E não apenas a cronologia dos fatos, mas o seu significado é modificado pela história que contamos para nós mesmos – cientes disso ou não.

Hoje à noite vou à academia; por quê? Posso contar a história com um tom de romance-família, porque depois de anos sedentário resolvi me exercitar para me manter saudável por meus filhos. Mas também posso dar um enfoque mais dramático e de superação, enfatizando que aos 30 anos comecei a ter dor nas costas, que melhoraram com o início da atividade física. Ou ainda de tragicomédia existencial, olhando a prática como uma tentativa fútil de fugir da doença e da morte. A história que eu contar pode me estimular ou desanimar.

A capacidade que temos de recontar nossas histórias, mudando os significados dos eventos a partir de novas interpretações que lhes damos – e com isso alterando nossas reações emocionais a elas – é a base de diversas formas de terapia.

Inclusive da biblioterapia, que propõe a utilização de livros na promoção do bem-estar e alívio de sintomas de doenças mentais. Numa rápida pesquisa que fiz, vi que as publicações científicas sobre o tema quadruplicaram nas últimas décadas.

Além dos livros de autoajuda que, quando bem fundamentados, trazem impactos positivos comprovados para a saúde mental de pacientes, os romances, contos e poemas podem ser instrumentos terapêuticos úteis.

Quando mergulhamos em outras vidas podemos ter insights transformadores sobre nós mesmos ao nos identificarmos com os personagens, reconhecermos situações análogas às que vivemos e as reinterpretarmos num contexto mais amplo, ou simplesmente diferente do nosso.

A partir da leitura de histórias dos outros podemos mudar a forma como contamos a nossa. O que, às vezes, é essencial para encontrarmos cura.

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