Pat Nolan/World Surf League
Pat Nolan/World Surf League

Liberdade e felicidade

O mundo muda e nem todos se adaptam na mesma velocidade. Alguns não se acostumam nunca

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2022 | 05h00

Defender a liberdade está na moda. De repente parece que todo mundo descobriu que ela está sendo ameaçada e precisa de defesa. Nem é preciso dizer que a maioria dessas pessoas está, na verdade, atuando em causa própria, usualmente defendendo um aspecto particular da liberdade que as interessa especialmente. Mas essa é outra discussão. O que me interessa é que a liberdade pode ser um veículo precioso para o bem-estar. 

Nos últimos dias, o campeão de surfe Gabriel Medina anunciou uma pausa na carreira para cuidar de sua saúde mental. “Reconhecer e admitir para mim mesmo que não estou bem vem sendo um processo muito difícil, e optar por tirar um tempo para me cuidar foi talvez a decisão mais difícil que já tomei em toda a minha vida”, declarou o atleta em suas redes sociais. 

Claro que a decisão foi gatilho para polêmica, com reações de todos os tipos, desde aqueles que reconheceram a importância de priorizar a saúde até os que viram ali novamente os sinais de uma geração descomprometida, que não aceita pagar o preço.

Pois eu acho a decisão louvável. Não como uma celebração da derrota, como dizem os que não entenderam nada desde Simone Biles. Não se trata de aplaudir o fracasso, mas de reconhecer que esses casos mostram o avanço da conquista da liberdade.

A pessoa que consegue dizer, para si mesma em primeiro lugar e depois para o mundo, que o sacrifício não está valendo a pena, que o custo emocional está maior do que a recompensa – seja financeira, em prestígio ou fama – se torna livre.

Ainda assim, eu entendo os indignados. Eles acreditaram a vida toda que o importante era a conquista – do troféu, da promoção, do milhão – não importando o preço. Com isso, muitos acabaram com a saúde física, emocional, sacrificaram seu bem-estar, abriram mão da qualidade de vida, tudo em nome do que foram convencidos que significava o sucesso. 

Reconhecer agora que não precisava de nada daquilo, que bastava dizer “para mim não”, para muitos significaria reconhecer que foram enganados o tempo inteiro. Eles se sentiriam tolos, como se tivesse se estropiado à toa; e isso ninguém quer. Não é fácil, portanto, cair uma ficha desse tamanho; então muitos seguem convencidos de que fizeram o certo e que essa liberdade é um erro.

É assim mesmo. O mundo muda e nem todos se adaptam na mesma velocidade. Alguns não se acostumam nunca. E tudo bem.

Exatamente porque caminhamos em direção à liberdade há espaço para que os revoltados se revoltem. Mas eles não podem mais tolher a liberdade de quem, entre ouro e tranquilidade, deseja poder escolher.

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